{"id":941,"date":"2014-04-01T12:30:18","date_gmt":"2014-04-01T12:30:18","guid":{"rendered":"https:\/\/cih.org.br\/?p=941"},"modified":"2014-04-01T12:32:04","modified_gmt":"2014-04-01T12:32:04","slug":"aleister-crowley-magia-para-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cih.org.br\/?p=941","title":{"rendered":"Aleister Crowley Magia para Todos"},"content":{"rendered":"<p>Por Paulo Coelho &#8211; Revista Planeta n\u00ba84<\/p>\n<p>Expulso de diversas sociedades ocultistas, perseguido como pernicioso \u00e0 moral e costumes vigentes (foi proibido de entrar na It\u00e1lia, Fran\u00e7a e Inglaterra, sua pr\u00f3pria p\u00e1tria), inimigo daqueles que n\u00e3o traziam a p\u00fablico os mist\u00e9rios inici\u00e1ticos de suas seitas, o principal tra\u00e7o de A Aleister Crowley foi democratizar o ocultismo. Para ele, o momento hist\u00f3rico contempor\u00e2neo exige a transforma\u00e7\u00e3o urgente do esot\u00e9rico em exot\u00e9rico. Dono de uma for\u00e7a de vontade invej\u00e1vel, curtidor de todas as drogas e capaz de impressionar gente como Fernando Pessoa e Williatn Seabrook (\u201cCrowley irradia poder semelhante ao de Gurdjieff\u201d, dizia este), Aleister &#8211; seu nome m\u00e1gico -, a Grande Besta do Apocalipse. Ainda hoje, seus textos influenciam v\u00e1rias correntes de pensamento da Terra.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12px;\">Nasci em Stratford-on-A von. \u00c9 uma estranha coincid\u00eancia que um lugar t\u00e3o pequeno tenha dado ao mundo seus dois maiores poetas &#8211; j\u00e1 que n\u00e3o se pode esquecer Shakespeare.\u201d A forma de Aleister Crowley come\u00e7ar sua autobiografia j\u00e1 \u00e9 capaz de dar uma id\u00e9ia daquele que mais tarde viria a ser conhecido como \u201cA Grande Besta do Apocalipse\u201d, e respons\u00e1vel pelas grandes inova\u00e7\u00f5es na pr\u00e1tica m\u00e1gica do s\u00e9culo vinte. Nascido em 1875 corri o nome de Edward Alexander, Crowley descendia de unia fam\u00edlia de classe m\u00e9dia inglesa, com pai e m\u00e3e de forma\u00e7\u00e3o presbiteriana, respons\u00e1vel em grande parte pela revolta e indigna\u00e7\u00e3o do filho desde os prim\u00f3rdios de sua vida. \u201cMinha vida sexual logo se mostrou muito intensa, mas eu tinha aprendido que o sexo era um desafio \u00e0 pr\u00e1tica crist\u00e3 era degrada\u00e7\u00e3o e dana\u00e7\u00e3o\u201d, diz ele nas Confiss\u00f5es. No come\u00e7o de sua adolesc\u00eancia, Edward Crowley &#8211; que trocaria seu primeiro nome para Aleister, por raz\u00f5es m\u00e1gicas &#8211; foi enviado para uma escola sustentada pela comunidade religiosa de seus pais. Ali, leu pela primeira vez o livro Cabala Revelada, do escoc\u00eas McGregor Mathers, que na \u00e9poca chefiava uma sociedade secreta conhecida como Golden Dawn. Crowley apaixonou-se logo pelo livro, principalmente pela incapacidade de compreender o que estava escrito, e a partir desta \u00e9poca os gostos e tend\u00eancias do jovem estudante come\u00e7aram a mudar: Edward Waite, Eliphas Levi e outros famosos ocultistas do s\u00e9culo 19 passaram a ser sua leitura preferida. Para fechar o circulo, durante uma aula de qu\u00edmica Crowley \u00e9 apresentado a Sir Cecil Jones, um alquimista, que termina apresentando formalmente o pedido de inscri\u00e7\u00e3o de Crowley na Golden Dawn. Com a for\u00e7a de vontade que iria lhe acompanhar pelo resto da vida, ele come\u00e7a a dedicar-se exclusivamente ao estudo das artes m\u00e1gicas, fazendo o poss\u00edvel para galgar no menor espa\u00e7o de tempo os dez graus de inicia\u00e7\u00e3o da sociedade secreta. Tudo indica que Aleister Crowley j\u00e1 nasceu um mago. Talvez tenha sido uma explos\u00e3o de fogos de artif\u00edcio que quase o matou, quando tinha 14 anos, talvez fosse mesmo rea\u00e7\u00e3o ao ambiente familiar (como querem os estudiosos de sua vida), o fato \u00e9 que Crowley possuia faculdades extremamente despertas. Seu senso de dire\u00e7\u00e3o era mais desenvolvido do que o da maioria das pessoas, e sua capacidade de persist\u00eancia e concentra\u00e7\u00e3o deixava a todos boquiabertos. Nas aplica\u00e7\u00f5es mundanas de suas faculdades &#8211; montanhismo e xadrez &#8211; ele sempre era considerado um advers\u00e1rio de respeito, mesmo pelos mestres destes dois esportes. E foi com esta persist\u00eancia e obstina\u00e7\u00e3o que Crowley come\u00e7ou a subir hierarquicamente dentro da Golden Dawn.<\/span><\/p>\n<p><strong>Despertar o g\u00eanio criativo<\/strong><\/p>\n<p>Seu primeiro grande questionamento a respeito das artes m\u00e1gicas foi o de relacionar os fen\u00f4menos esot\u00e9ricos com os desejos que movem o ser humano: poder, liberdade, conhecimento. \u201cEu logo aprendi que as condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas de um fen\u00f4meno m\u00e1gico eram semelhantes \u00e1s de qualquer outro fen\u00f4meno. Quando se chega a esta conclus\u00e3o, o sucesso fica dependendo apenas da habilidade de despertar em si mesmo o g\u00eanio criativo. O principal mal-entendido da magia reside no fato de que os v\u00e1rios elementos da opera\u00e7\u00e3o tais como manifesta\u00e7\u00f5es espirituais, nomes m\u00e1gicos, segredos, armas e roupas &#8211; acabam por esconder o verdadeiro objetivo da magia, e terminam iludindo o pr\u00f3prio m\u00e1gico\u201d, diz ele, afirmando que a maioria dos magos acaba por esquecer a raz\u00e3o que os levou \u00e0 magia. Desta maneira, Crowley achava &#8211; com toda raz\u00e3o &#8211; que os processos conscientes s\u00e3o sempre intencionais nos seres humanos; o homem n\u00e3o \u00e9, de maneira nenhuma, uma criatura passiva num universo ativo. Ele pode transformar a realidade em sua volta, desde que n\u00e3o se iluda nem com seu poder, nem com a nova realidade que ir\u00e1 criar. Por causa desta cren\u00e7a, a primeira atitude sua \u00e9 questionar e reformular uma s\u00e9rie de rituais da Golden Dawn. Sob o nome de Conde Wladmir Svareff &#8211; um de seus grandes sonhos era pertencer \u00e0 aristocracia -, ele aluga um apartamento em Londres e come\u00e7a a sua guerra dentro da sociedade secreta. Para aumentar mais ainda seu prest\u00edgio, vai at\u00e9 a Esc\u00f3cia e proclama a todos que ir\u00e1 realizar a Magia de Abramelin (1). Crowley, entretanto, jamais realizaria esta opera\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a sua pr\u00e1tica requer um certo isolamento e ele n\u00e3o era capaz de permitir-se a isto. Conta-se que, durante sua perman\u00eancia na Esc\u00f3cia, a casa onde trabalhava conseguia ficar t\u00e3o escura que Crowley tinha que acender as luzes para ler, apesar de ser pleno dia e o sol brilhar intensamente l\u00e1 fora. Seu caseiro acabou ficando louco e foi acusado de tentar matar a pr\u00f3pria mulher (2), Diante de certas press\u00f5es do lugar, Crowley abandonou a Esc\u00f3cia, brigou com o poeta ingl\u00eas Yeats (que a esta altura tamb\u00e9m trilhava o caminho das artes m\u00e1gicas) e foi para o M\u00e9xico, onde dedicou a maior parte do seu tempo tentando fazer com que sua imagem desaparecesse do espelho.<\/p>\n<p><strong>O homem e seu planeta<\/strong><\/p>\n<p>A tarefa de dissipar a pr\u00f3pria imagem pode parecer bastante infantil; entretanto, os escritos de Crowley desta \u00e9poca deixam bastante clara sua tentativa de descobrir novos horizontes para a aplica\u00e7\u00e3o da vontade. E como a vontade n\u00e3o opera no v\u00e1cuo, era necess\u00e1rio um roteiro, um ritual, um drama, um prop\u00f3sito. \u201cPara Aleister Crowley, a Grande Besta do Apocalipse, a magia \u00e9 muito mais uma arte que uma ci\u00eancia\u201d, afirma Chris Ottis. Baseado nisto, Aleister Crowley resolve lan\u00e7ar m\u00e3o de tudo que consiga enriquecer criativamente a realidade que o cerca. Encontra uma prostituta nas ruas da Cidade do M\u00e9xico e faz dela imediatamente sua Grande Prostituta da Babil\u00f4nia. Credita a si mesmo o t\u00edtulo de \u201cA Grande Besta do Apocalipse e publica v\u00e1rios livros. Encontra-se com Allan Bennet, que lhe ensina a pr\u00e1tica da ioga e o introduz no misticismo oriental. Mais tarde, Crowley afirmaria que viu Bennet flutuando no ar, de pernas cruzadas, durante uma de suas medita\u00e7\u00f5es. Mas o M\u00e9xico parece ser pouco para as incr\u00edveis pretens\u00f5es da Besta: de volta a Paris, conta para Mathers suas experi\u00eancias com ioga, sendo friamente recebido pela comunidade m\u00e1gica da Europa &#8211; que parece desinteressada em qualquer novidade fora de suas bases ortodoxas, enquanto se preocupava com a notoriedade que Crowley estava ganhando. A esta altura, ele j\u00e1 \u00e9 uma pessoa extreobjeto de um livro de Somerset Maugham, The Magic\u00edan. Procurando aumentar ainda mais esta popularidade, escreve uma carta \u00e0 prefeitura da cidadezinha onde mora, reclamando a aus\u00eancia de um prost\u00edbulo nas suas redondezas. A carta ganha espa\u00e7o em numerosos jornais, e o carisma de Crowley cresce. A partir desta \u00e9poca, o que a Grande Besta chama de \u201cmagia sexual\u201d come\u00e7a a ganhar espa\u00e7o na sua vida. Correm rumores de amplas orgias nos v\u00e1rios endere\u00e7os onde Crowley se instala. Ele mesmo casa-se com Rose, cunhada de Sir George Kelly &#8211; um famoso pintor que tinha se seduzido pelas artes m\u00e1gicas &#8211; e prop\u00f5e \u00e0 sua nova esposa um casamento aberto, com ela podendo ter rela\u00e7\u00f5es com quaisquer admiradores. No livro A History of Orgies (Hearst Corporation, 1960), Burgo Partridge fala de festas patrocinadas pela Grande Besta, onde \u201cas mulheres, normalmente aristocratas, entravam no sal\u00e3o sob o disfarce de m\u00e1scaras ou pinturas faciais. A partir da\u00ed, orgias indescrit\u00edveis come\u00e7avam a acontecer.\u201d A realidade deve ter sido bem diferente e bem mais simples; entretanto, o pr\u00f3prio Aleister Crowley alimentava as fantasias em torno de sua pessoa, para conseguir &#8211; como conseguiu &#8211; uma divulga\u00e7\u00e3o mais ampla de suas atividades e de seu trabalho.<\/p>\n<p><strong>O duelo dos grandes magos<\/strong><\/p>\n<p>Rose vem mudar por completo a vida da Grande Besta quando, no Museu do Cairo, sente-se inspirada e aponta para a est\u00e1tua de Ra-Hoor-Khuit, um dos nomes do deus H\u00f3rus, e que tem no cat\u00e1logo do museu o n\u00famero 666. Rose come\u00e7a a instru\u00ed-lo sobre como invocar H\u00f3rus, atrav\u00e9s de um ritual que ele pr\u00f3prio n\u00e3o acredita, mas que termina sendo coroado de sucesso. O resultado \u00e9 a conversa com seu Anjo Guardi\u00e3o, e a psicografia do Livro da Lei, ditado por Aiwass. O Livro da Lei (3) \u00e9 talvez o trabalho mais importante de Aleister Crowley. Resumo de v\u00e1rios conceitos sociais, religiosos e at\u00e9 mesmo pol\u00edticos, em suas p\u00e1ginas se prop\u00f5e a responder a uma s\u00e9rie de perguntas para as quais a humanidade n\u00e3o conseguiu encontrar uma solu\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio Crowley afirma n\u00e3o entender grande parte do que lhe foi ditado, mas considera-o como o mais importante momento de sua vida, e se prop\u00f5e a estud\u00e1-lo. A principal proposta da obra est\u00e1 na frase \u201cFa\u00e7a o que voc\u00ea quiser\u201d (Do what Thy will),sugerindo uma nova era de liberdade aos conceitos humanos. Nas sociedades esot\u00e9ricas derivadas ou associadas \u00e0 filosofia crowleyana, o Livro da Lei \u00e9 considerado a obra m\u00e1xima do conhecimento. De volta a Paris, Crowlev procura afastar Mathers do seu caminho, proclamando-se o Grande Mago da Golden Dawn. Mathers promete enviar fortes correntes magicas contra o Grande Mago, e tr\u00eas c\u00e3es de Crowley aparecem mortos. Este, por sua vez, clama haver invocado 49 dem\u00f4nios que arrasar\u00e3o com Mathers, mas o duelo de magos termina apenas enfraquecendo politicamente a Golden Dawn. Crowley ent\u00e3o funda sua pr\u00f3pria sociedade secreta, a Silver Star ou A:. A:. passando a publicar o jornal Equin\u00f3cio dos Deuses (que sai duas vezes por ano, no equin\u00f3cio e no solst\u00edcio), e revela os livros secretos da Golden Dawn. Desta forma, democratiza o conhecimento da magia. colocados seus segredos ao alcance de todos. Mas a Grande Besta ainda n\u00e3o est\u00e1 satisfeita com sua notoriedade, e procura ampli\u00e1-la ainda mais atrav\u00e9s de golpes de marketing que fariam inveja aos comunicadores de hoje. Publica um trabalho sobre sua obra, assinando como F. C. F\u00fcller, um general ingl\u00eas; oferece, como se fosse uma institui\u00e7\u00e3o, um pr\u00e9mio de 100 libras para o melhor ensaio a respeito daquilo que escreveu. E com isto consegue despertar o interesse da intelectualidade europ\u00e9ia. Em 1910, Aleister Crowley \u00e9 iniciado no uso da mescalina e da hero\u00edna, criando uma s\u00e9rie de sete ritos &#8211; Os Ritos de El\u00eausis &#8211; para utilizar a droga como forma de se obter o \u00eaxtase religioso (4). As pessoas que conheceram a Grande Besta nesta \u00e9poca s\u00e3o un\u00e2nimes em afirmar que a quantidade de hero\u00edna que ele consumia (11 gramas por dia) se ria capaz de rnatar em pouqu\u00edssimo tempo qualquer ser vivo. Crowlev, entretanto, parece dotado de superpoderes, j\u00e1 que, al\u00e9m da extraordin\u00e1ria toler\u00e2ncia \u00e0 droga, continua praticando o alpinismo. \u00cb desta \u00e9poca o relato de Showell Styles, no livro On The Top ofthe World: &#8220;O desafio era o monte Kanchenjunga, que deveria ser escalada pela primeira vez por cinco alpinistas &#8211; tr\u00eas su\u00ed\u00e7os, um italiano e um ingl\u00eas chamado Aleister Crowley. Crowley, que tinha sido escolhido para l\u00edder da expedi\u00e7\u00e3o, era talvez o mais extraordin\u00e1rio praticante do alpinismo mundial. Ele era ostensiva-mente descuidado em tudo que fazia, como se n\u00e3o tivesse medo, e chamava a si mesmo de \u2018A Grande Besta do Apocalipse\u2019. Quando atingimos os 20.400 p\u00e9s, no campo VII, os su\u00ed\u00e7os convocaram uma confer\u00eancia para destituir Crowley das fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a, j\u00e1 que este era exageradamente cruel com os guias locais. Crowley n\u00e3o aceitou a id\u00e9ia, e a expedi\u00e7\u00e3o resolveu retornar, exceto pela Grande Besta, que continuou a escalada.<\/p>\n<p><strong>\u201cFaz o que queres \u00e9 tudo da Lei\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Na descida, os su\u00ed\u00e7os foram pegos por uma avalanche que matou quase toda a expedi\u00e7\u00e3o. Crowley, subindo, ouviu os gritos de socorro, mas recusou-se a ajudar quem quer que fosse. Mais tarde escreveria para um amigo seu, dizendo: &#8220;Acidentes em montanhas s\u00e3o muito desagrad\u00e1veis: eu prefiro ficar longe deles&#8221;. Os poderes de Aleister Crowley tamb\u00e9m pareciam trabalhar a seu favor. Entre as muitas hist\u00f3rias narradas a seu respeito, conta-se que num assalto, em Calcut\u00e1, ele conseguiu ficar invis\u00edvel diante dos ladr\u00f5es. Durante a Primeira Guerra Mundial, a Grande Besta vai para Nova York, onde cria uma pequena comunidade m\u00e1gica em Greenwich Village. Sua for\u00e7a de vontade continua imensa &#8211; era capaz de comer e beber durante dias, para depois jejuar at\u00e9 que seu peso voltasse ao normal. Um escritor americano, William Seahrook, conta que Crowley irradiava um poder semelhante ao de Gurdjieff, com quem tamb\u00e9m tivera a oportunidade de estar. Certa vez, Seabrook pediu a Crowley uma demonstra\u00e7\u00e3o de poder. A Grande Besta pegou seu amigo e os dois caminharam at\u00e9 uma parte relativamente deserta da Quinta Avenida, onde Crowlev passou a seguir de longe um dos transeuntes, imitando todos os gestos deste. A determinada altura, Crowley agachou-se e saltou para tr\u00e1s; o sujeito a quem imitava fez a mesma coisa, levando um tombo e estatelando-se no ch\u00e3o. Seabrook e Crowley foram ajud\u00e1-lo a levantar-se, enquanto o at\u00f4nito pedestre procurava inutilmente uma casca de banana para responsabilizar sua queda. Apesar de todos estes poderes, a vida do Grande Mago da Golden Dawn, da Grande Besta do Apocalipse, ou dos outros v\u00e1rios t\u00edtulos que Crowley atribu\u00eda a si mesmo, parecia estar entrando numa fase de decl\u00ednio. Algumas complica\u00e7\u00f5es de ordem f\u00edsica fazem com que ele escolha Cefal\u00fa na Sic\u00edlia, como sua pr\u00f3xima morada. L\u00e1, resolve criar uma experi\u00eancia social que culminaria sua obra m\u00e1gica: a Abadia de Thelema. Criada dentro dos padr\u00f5es do Livro da Lei, a abadia era o local onde qualquer express\u00e3o da vontade e do desejo eram permitidas. V\u00e1rios escritores, atrizes e pessoas ligadas \u00e0 arte e \u00e0 cultura convergiram para os dom\u00ednios de Crowley. L\u00e1 praticavam-se rituais que iam desde as mais simples invoca\u00e7\u00f5es at\u00e9 a morte de animais e os ritos de fertilidade. Crowley escreve Diary of a Drug Friend, falando de seus experimentos com hero\u00edna, e as pessoas come\u00e7am a comentar a respeito de orgias e drogas dentro da Abadia de Thelema. Uma mulher, Betty May, termina abandonando Cefal\u00f9 e escrevendo um artigo para o jornal ingl\u00eas Sundav Express, onde denuncia c\u00f3pulas com animais e sacrif\u00edcios de sangue. As autoridades sicilianas, desgostosas, pedem a Crowlev que abandone o local. Da\u00ed por diante. o decl\u00ednio da Grande Besta \u00e9 inevit\u00e1vel. Expulso da Sic\u00edlia, proibido de entrar na Fran\u00e7a e na Inglaterra, a Grande Besta \u00e9 abandonada pelos amigos e aumenta seu consumo de hero\u00edna. Vem a morrer a 5 de dezembro de 1947, com 72 anos, e parecendo \u201cum velho coronel aposentado\u201d, segundo as palavras de Burt Welsh. \u00c0 parte seu narcisismo exagerado e uma certa tend\u00eancia para acreditar em super-ra\u00e7as (que mais tarde Hitler transformaria em a\u00e7\u00e3o), a obra de Crowley deixou uma marca indel\u00e9vel no pensamento do in\u00edcio do s\u00e9culo. Sua pr\u00f3pria \u201cperversidade\u201d n\u00e3o passava de um golpe publicit\u00e1rio, sedutor o suficiente para fazer dele uma figura not\u00f3ria &#8211; e a maior parte das pessoas que o conheceram afirmam que ele poderia ser chamado de um homem frio, mas nunca de um homem mau. Sua extens\u00edssima obra &#8211; tanto em literatura como em artes m\u00e1gicas &#8211; tornou acess\u00edvel o conhecimento que antes era privil\u00e9gio de uma elite, e ampliou a possibilidade de se chegar ao conhecimento atrav\u00e9s de outros caminhos, al\u00e9m daqueles que nos s\u00e3o permitidos em nossa forma\u00e7\u00e3o ocidental. N\u00e3o queremos dizer com isto que seus passos mere\u00e7am ser seguidos &#8211; Crowley pertence a uma outra \u00e9poca, e, hoje em dia, determinados exageros que ele cometeu seriam considerados coisas sem sentido e ultrapassadas. Mas o princ\u00edpio de sua filosofia, \u201cfa\u00e7a o que quiseres\u201d, e um princ\u00edpio bem antigo e bastante v\u00e1lido. Cada um o utiliza dentro das suas pr\u00f3prias possibilidades, e Crowley o utilizou para viver uma vida pelo menos diferente da maioria das pessoas de sua \u00e9poca. Se ele conseguiu o que queria &#8211; e acreditamos que n\u00e3o tenha conseguido &#8211; \u00e9 irrelevante; seu nome ficar\u00e1 sempre ligado \u00e0 quebra de tabus, e isto, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 uma grande vantagem. William James diz que um homem pode jogar um jogo durante v\u00e1rios anos, com um alto grau de t\u00e9cnica, sem que consiga progredir al\u00e9m de determinado est\u00e1gio. At\u00e9 que um dia, sem qualquer aviso, o jogo come\u00e7a a jogar com o homem, e a partir dali ele n\u00e3o comete mais erros. Acreditamos que Aleister Crowley n\u00e3o tenha visto este dia, porque se perdeu nas pr\u00f3prias fantasias que criou; mas n\u00e3o tenham d\u00favidas de que chegou muito perto.<\/p>\n<p>___________<\/p>\n<p>NOTAS:<\/p>\n<p>(1) &#8211; A Sagrada Magia de Abramelin \u00e9 um livro atribu\u00eddo a Abra\u00e3o, e popularizado por Aleister Crowley. Trata-se de um ritual de seis meses que deve ser realizado numa casa isolada, com portas dando para o norte e o sul, e com um quarto e um terra\u00e7o onde apenas o operador pode entrar. No final de seis meses de rituais (bastante simples, em sua grande maioria consistindo de preces), o operador invoca o seu Anjo Guardi\u00e3o e estabelece um di\u00e1logo com ele. A seguir, invoca as legi\u00f5es de dem\u00f3nios, estabelecendo dom\u00ednio sobre os Quatro Pr\u00edncipes do inferno. (2) &#8211; A casa de Crowley na Esc\u00f3cia, conhecida como Boleskin, foi comprada pelo l\u00edder do conjunto de rock Led Zeppelin, Robert Plant. Plant se prop\u00f5e a estudar a obra da Grande Besta, e h\u00e1 rumores de que estaria realizando a Sagrada Magia de Abramelin. (3) &#8211; O Livro da Lei tem uma tradu\u00e7\u00e3o brasileira, que pode ser encontrada nas livrarias sob o titulo de Equin\u00f3cio dos Deuses, Equin\u00f3cio no Brasil, vol. 1, n\u00ba 1. \u00cb um trabalho s\u00e9rio, numa tradu\u00e7\u00e3o perfeita, dando a dimens\u00e3o exata da parte filos\u00f3fica do trabalho de Crowley, que n\u00e3o nos foi poss\u00edvel analisar neste artigo. (4) &#8211; Mais tarde, Carlos Casta\u00f1eda alcan\u00e7aria renome internacional escrevendo uma s\u00e9rie de livros onde a droga e a religi\u00e3o est\u00e3o intimamente entrela\u00e7adas.<\/p>\n<p>Bibliografia: Revista &#8220;Planeta&#8221;, Mar\u00e7o N\u00ba 84.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paulo Coelho &#8211; Revista Planeta n\u00ba84 Expulso de diversas sociedades ocultistas, perseguido como pernicioso \u00e0 moral e costumes vigentes (foi proibido de entrar na It\u00e1lia, Fran\u00e7a e Inglaterra, sua pr\u00f3pria p\u00e1tria), inimigo daqueles que n\u00e3o traziam a p\u00fablico os mist\u00e9rios inici\u00e1ticos de suas seitas, o principal tra\u00e7o de A Aleister Crowley foi democratizar o &hellip; <\/p>\n<p><a class=\"more-link btn\" href=\"https:\/\/cih.org.br\/?p=941\">Continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":9691,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,7,6],"tags":[235,72,35,239,79,181,237,184],"class_list":["post-941","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-abramelin","category-biografia","category-thelema","tag-abramelin","tag-crowley","tag-frater-goya","tag-golden-dawn","tag-magia","tag-paulo-coelho","tag-thelema","tag-xadrez","nodate","item-wrap"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/941","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9691"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=941"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/941\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=941"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=941"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=941"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}