{"id":306,"date":"2012-04-11T19:26:16","date_gmt":"2012-04-11T19:26:16","guid":{"rendered":"https:\/\/cih.org.br\/?p=306"},"modified":"2013-02-14T10:39:34","modified_gmt":"2013-02-14T10:39:34","slug":"a-santa-lanca-um-episodio-das-cruzadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cih.org.br\/?p=306","title":{"rendered":"A Santa Lan\u00e7a, um epis\u00f3dio das Cruzadas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/educaterra.terra.com.br\/educacao\/\">Terra Educa\u00e7\u00e3o<\/a><\/p>\n<p>A descoberta da Santa Lan\u00e7a pelos cavaleiros cruzados, o instrumento mort\u00edfero que teria trespassado o corpo de Cristo quando este agonizava na cruz, numa escava\u00e7\u00e3o feita no interior da catedral de Anti\u00f3quia na S\u00edria, provocou uma reviravolta no sentimento dos crist\u00e3os. At\u00e9 aquele momento eles, cercados pelos mu\u00e7ulmanos, acreditavam que o seu empreendimento, isto \u00e9, a reconquista da Terra Santa, era um causa perdida. Por\u00e9m, a noticia de que haviam encontrado aquela rel\u00edquia que trazia o sangue de Jesus, incendiou os \u00e2nimos dos cruzados o suficiente para eles partirem para a arrancada final em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p><strong><span>Um pedido de audi\u00eancia <\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"1\" border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<table width=\"97%\" border=\"0\" cellspacing=\"1\" cellpadding=\"4\" align=\"center\" bgcolor=\"#000000\">\n<tbody>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#ffffff\"><span style=\"font-size: x-small;\"><strong><em>&#8220;O embusteiro \u00e9 presa da f\u00e9 em si mesmo; e \u00e9 ent\u00e3o esta f\u00e9 que fala aos que o rodeiam com esta particular autoridade que parece milagre.&#8221;<\/em><\/strong><br \/>\nF. NIETZSCHE<br \/>\nHumano, demasiado humano (aforismo 52)<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Foi em antigas terras s\u00edrias, na cidade de Anti\u00f3quia, rec\u00e9m ocupada pelos ex\u00e9rcitos da Primeira Cruzada, que esta hist\u00f3ria se passou. O ano era de 1098. Um homem de apar\u00eancia camponesa, amassando humildemente seu gorro, solicitou aos guardas que montavam sentinela na tenda do conde Raimundo, um dos chefes da expedi\u00e7\u00e3o, o direito de v\u00ea-lo: ao conde e ao bispo de Puy. Desejava relatar-lhes um acontecimento inaudito. Os cruzados haviam tomado recentemente a cidade, mas meteram-se numa verdadeira ratoeira. Ocuparam-na mas dela n\u00e3o podiam sair. L\u00e1 fora um imenso contingente chefiado pelo atabeg turco de Mossul os aguardava pronto para dar o bote assim que ousassem colocar-se fora das muralhas. Enquanto isso, a soldadesca crist\u00e3 era tomada de um assombroso desabamento moral. Quase ningu\u00e9m mais cumpria ordens. Com exce\u00e7\u00e3o dos homens de confian\u00e7a dos pr\u00edncipes cruzados, o resto tinha-se transformado numa massa disforme, turbulenta e indisciplinada. A eles se somavam aos peregrinos miser\u00e1veis que os acompanhavam, encharcados em \u00e1lcool e fanatismo, duplo material inflam\u00e1vel a estimular desordens. Foi em meio a essas circunst\u00e2ncias dram\u00e1ticas que Pierre Barth\u00e9lemy, este era o nome do pobre diabo, pediu audi\u00eancia a Suas Excel\u00eancias. Um cronista daquela \u00e9poca registrou o dia: 10 de junho. Barth\u00e9lemy dava seu primeiro passo para ficar na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<div align=\"center\">A apari\u00e7\u00e3o divina<\/div>\n<p><\/center>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"1\" border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Ocorre, contou ele aos cavaleiros, que j\u00e1 fazia algum tempo que ele recebera a visita de Santo Andr\u00e9 que, entre tantos, o escolheu para dar instru\u00e7\u00f5es aos chefes cruzados. Malnascido e de fama duvidosa entre os peregrinos por suas excessivas inclina\u00e7\u00f5es pecaminosas, et\u00edlicas e carnais, n\u00e3o se sentira at\u00e9 ent\u00e3o com a coragem suficiente para abordar os grandes homens que comandavam o resgate da Terra Santa. Santo Andr\u00e9, por\u00e9m, n\u00e3o lhe dava folga. Dotado de uma cabeleira intensamente prateada, por vezes acompanhado de um mancebo bel\u00edssimo, a apari\u00e7\u00e3o n\u00e3o parava de xing\u00e1-lo. Impaciente com a indecis\u00e3o de Barth\u00e9lemy, chegou a pensar em amaldi\u00e7o\u00e1-lo. Foi ent\u00e3o que, temendo mais os furores divinos do que a soberba do conde e do bispo, ele tomou coragem para vir falar-lhes. Em sua \u00faltima revela\u00e7\u00e3o, relatou ele aos l\u00edderes, o santo informou-lhe que a Santa Lan\u00e7a, a que trespassara o corpo de Cristo, estava ali mesmo, na pr\u00f3pria cidade de Anti\u00f3quia. O santo chegou a lhe mostrar o lugar antes de se evaporar nos c\u00e9us. Estava enterrada no ch\u00e3o da catedral de S\u00e3o Pedro, local que os turcos haviam transformado em mesquita mas que desde a ocupa\u00e7\u00e3o dos cruzados voltara a oficiar os sacramentos crist\u00e3os. Bastava um punhado de homens para desencav\u00e1-la. A maioria dos pr\u00edncipes fez mofa quando soube da hist\u00f3ria do vision\u00e1rio, sem esquecerem de mencionar que os restos de uma Santa Lan\u00e7a j\u00e1 se encontravam depositados na catedral de Santa Sofia, em Constantinopla. Naqueles tempos, entretanto, rel\u00edquias duplas eram encontradas em todas as partes, restos de santos eram disputados por cidades diferentes.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<div align=\"center\">Atr\u00e1s da rel\u00edquia<\/div>\n<p><\/center>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"1\" border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.terra.com.br\/voltaire\/antiga\/pimage\/cruzadas3.jpg\" alt=\"\" align=\"right\" border=\"0\" hspace=\"3\" vspace=\"3\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><span style=\"font-family: Arial,Helvetica; font-size: xx-small;\">Fachada da antiga catedral de Anti\u00f3quia <\/span><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>O conde Raimundo mediu as condi\u00e7\u00f5es e, impressionado pela veem\u00eancia do relato de Barth\u00e9lemy, acreditou que nada perderia se emprestasse alguns homens para que auxiliassem-no na procura. O santo fora preciso. O grupo de escavadores tinha que ter o n\u00famero apost\u00f3lico de doze. No dia 14 de junho, o vision\u00e1rio e seus homens, supervisionados pelo pr\u00f3prio conde Raimundo, deu in\u00edcio \u00e0 empreitada. Marcaram o local e come\u00e7aram a cavar. O buraco j\u00e1 ia bem fundo quando o des\u00e2nimo come\u00e7ou a minar seus esfor\u00e7os. N\u00e3o se encontrou nada de nada. Foi ent\u00e3o que Barth\u00e9lemy, coberto apenas por uma camisa, suado, jogou-se na trincheira aberta e, rasgando a terra com as pr\u00f3prias m\u00e3os, n\u00e3o demorando muito em saltar para fora empunhando um peda\u00e7o de ferro. Envolta em ferrugem e em negrume hist\u00f3rico, ele tinha certeza, l\u00e1 estava ela: a Santa Lan\u00e7a! Quem sabe se ainda estariam grudadas nela algumas gotas de sangue de Jesus? A descoberta provocou um fr\u00eamito de fervor nas tropas. Aos magotes, os soldados jogavam-se ao ch\u00e3o arrependidos das arrua\u00e7as e pediam perd\u00e3o aos seus sargentos e oficiais. Os peregrinos, por sua vez, tomados de choro convulsivo, comprometiam-se mutuamente a n\u00e3o desistir de chegar a Jerusal\u00e9m.<br \/>\nDuas semanas depois, um dos mais belicosos pr\u00edncipes cruzados, Boemondo, resolveu quebrar o anel de ferro que os turcos haviam imposto a Anti\u00f3quia. Numa manobra audaz, colocou suas tropas do lado de fora da cidade e atacou com furor fan\u00e1tico as tropas do atabeg. O olhar alucinado dos crist\u00e3os, fanatizados, deve ter impressionado os turcos, que correram espavoridos em todas as dire\u00e7\u00f5es. As instru\u00e7\u00f5es de Santo Andr\u00e9, que havia novamente aparecido para Barth\u00e9lemy antes da batalha, era de que n\u00e3o se detivessem saqueando o acampamento de Kurbuka, o chefe turco, mas sim dar-lhe ca\u00e7a at\u00e9 a completa exaust\u00e3o. No final do dia n\u00e3o se encontrava um s\u00f3 mu\u00e7ulmano \u00e0 vista. A estrada para a Cidade Santa estava aberta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div align=\"center\"><strong><span>A Santa Lan\u00e7a, um epis\u00f3dio das Cruzadas &#8211; Um novo profeta <\/span><\/strong><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"1\" border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.terra.com.br\/voltaire\/antiga\/pimage\/cruzadas1.jpg\" alt=\"\" align=\"right\" border=\"0\" hspace=\"3\" vspace=\"3\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><span style=\"font-family: Arial,Helvetica; font-size: xx-small;\">O s\u00edtio de Jerusal\u00e9m, ano de 1099 <\/span><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Barth\u00e9lemy foi guindado informalmente \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de profeta. Tornou-se um dos conselheiros do conde Raimundo, a quem come\u00e7ou a inspirar. Sim, porque os santos, e at\u00e9 Cristo em pessoa, n\u00e3o paravam mais de falar com o homem. Em pouco tempo as rivalidades e disputas internas entre os cruzados passaram a ser arbitradas por aquele que mantinha um di\u00e1logo com o sobrenatural. A tens\u00e3o entre franceses nortistas e sulistas dia-a-dia se agravava: a quem competia o comando da marcha final e qual roteiro deveria se seguir? Um capel\u00e3o dos nortistas, chamado Arnulfo de Rohers, desconfiado daquela intimidade de Barth\u00e9lemy com o mundo divino, deu in\u00edcio a uma aberta campanha contra o novo profeta. Um forte zunzum tomou conta dos acampamentos. Tudo, diziam os invejosos, n\u00e3o passava de encena\u00e7\u00e3o daquela gente sulista, pois ele, aquele pseudoprofeta, vinha da Provence, a mesma terra do conde Raimundo, a quem as vis\u00f5es sempre orientavam.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<div align=\"center\">A prova do ord\u00e1lio<\/div>\n<p><\/center>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"1\" border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.terra.com.br\/voltaire\/antiga\/pimage\/cruzadas.jpg\" alt=\"\" align=\"right\" border=\"0\" hspace=\"3\" vspace=\"3\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><span style=\"font-family: Arial,Helvetica; font-size: xx-small;\">Mouros contra crist\u00e3os <\/span><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Aquela suspeita exasperou o iluminado. Se duvidassem dele, disse Barth\u00e9lemy, que o submetessem a uma prova qualquer, ao julgamento de Deus que fosse. Imediatamente o clero, ciumento da ascend\u00eancia que aquele p\u00e9-rapado sem eira nem beira exercia nas altas esferas, humanas e divinas, n\u00e3o hesitou em preparar-lhe um ord\u00e1lio. Seria o teste definitivo. Que os carv\u00f5es em chamas determinassem se ele falava a verdade ou n\u00e3o. Duas imensas pilhas de lenha foram colocadas lado a lado e incendiadas. Pierre Barth\u00e9lemy aben\u00e7oou-se e, vestido apenas com uma simpl\u00f3ria t\u00fanica, lan\u00e7ou-se sobre o braseiro. O pobre saiu terrivelmente queimado; mesmo assim tentou retornar mas foi impedido por um espectador. Agonizou ainda por mais doze dias, quando ent\u00e3o suspirou.<br \/>\nPara muitos, foi a constata\u00e7\u00e3o do seu charlatanismo, para outros, bem ao contr\u00e1rio, os restos cremados e enfuma\u00e7ados do que vestia tornaram-se verdadeiras rel\u00edquias. H\u00e1, como \u00e9 sabido, uma natural e humana inclina\u00e7\u00e3o em acreditar-se em tudo aquilo que \u00e9 afirmado com energia e veem\u00eancia, e esta nunca faltou ao fracassado vision\u00e1rio.<br \/>\nUns tempos depois, em 1099, os cruzados chegaram a Jerusal\u00e9m e afogaram-na num terr\u00edvel banho de sangue que horrorizou para sempre os mu\u00e7ulmanos. Desde ent\u00e3o, o \u00f3dio entre estes dois mundos, o Crist\u00e3o e o do Isl\u00e3, tem sido latente e irrefre\u00e1vel. \u00c9 de pensar-se, por outro lado, que se n\u00e3o tivessem dado cr\u00e9dito \u00e0s vis\u00f5es daquele embusteiro, Jerusal\u00e9m n\u00e3o teria sido conquistada e as rela\u00e7\u00f5es da Cristandade com o Isl\u00e3 n\u00e3o seriam t\u00e3o passionais nem teriam acumulado tanto amargor neste tempo todo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte: Terra Educa\u00e7\u00e3o A descoberta da Santa Lan\u00e7a pelos cavaleiros cruzados, o instrumento mort\u00edfero que teria trespassado o corpo de Cristo quando este agonizava na cruz, numa escava\u00e7\u00e3o feita no interior da catedral de Anti\u00f3quia na S\u00edria, provocou uma reviravolta no sentimento dos crist\u00e3os. 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