{"id":294,"date":"2012-04-11T19:20:38","date_gmt":"2012-04-11T19:20:38","guid":{"rendered":"https:\/\/cih.org.br\/?p=294"},"modified":"2012-04-11T19:20:38","modified_gmt":"2012-04-11T19:20:38","slug":"um-monge-contra-o-papa-martim-lutero-e-a-questao-das-indulgencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cih.org.br\/?p=294","title":{"rendered":"Um monge contra o papa: Martim Lutero e a quest\u00e3o das indulg\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/educaterra.terra.com.br\/\">Terra Educa\u00e7\u00e3o.<\/a><\/p>\n<p>Uma viagem at\u00e9 Roma feita por um monge alem\u00e3o, ent\u00e3o desconhecido, e o pagamento de um empr\u00e9stimo de um arcebispo a um grande banqueiro, estiveram por detr\u00e1s dos come\u00e7os do movimento da Reforma religiosa do s\u00e9culo 16.<\/p>\n<p>A ida \u00e0 capital do papado pelo agostiniano Martim Lutero e a venda de indulg\u00eancias autorizada pela Igreja Cat\u00f3lica, epis\u00f3dios que ocorreram entre dezembro de 1510 e agosto de 1515, serviram como elemento de combust\u00e3o para que um enorme protesto \u00e9tico e religioso ecoasse pela Alemanha e, em seguida, por boa parte da Europa do Norte: era a Reforma Luterana.<\/p>\n<p>Depois disso a cristandade ocidental dividiu-se entre cat\u00f3licos e protestantes e nunca mais a hist\u00f3ria da religi\u00e3o no ocidente foi a mesma.<\/p>\n<p><strong>Desgosto com Roma<\/strong><\/p>\n<p>Era uma oportunidade e tanto que surgiu para o jovem monge Lutero. Uma viagem a Roma. O motivo era uma desaven\u00e7a surgida entre v\u00e1rias casas agostinianas (dos monges agostinianos, ordem a que Lutero pertencia desde 1505) da cidade de Erfurt, na Tur\u00edngia. Tornou-se urgente recorrer ao arbitramento de algu\u00e9m importante, um cardeal romano talvez bastasse para resolver a pendenga que surgira.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de maravilhar-se com Roma, a capital da cristandade foi-lhe uma decep\u00e7\u00e3o. Lutero n\u00e3o deixou registro de nada art\u00edstico. Nenhuma das tantas obras dos tempos cl\u00e1ssicos ou do Renascimento mereceu a aten\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<p>Horrorizou-se sim foi com as hist\u00f3rias que corriam sobre as indec\u00eancias da fam\u00edlia B\u00f3rgia (do Papa Alexandre VI, falecido em 1503, que comprou o cargo pontif\u00edcio a troco de 15 mil ducados e teve quatro filhos com Vanozza Cattanei, mantendo ainda como amante a bela Giulia Farnese) e de outros altos figur\u00f5es da c\u00faria papal. Ao inv\u00e9s de encontrar a confirma\u00e7\u00e3o da f\u00e9 na Cidade Santa, algo que refor\u00e7asse a sua cren\u00e7a, entendeu Roma como a reviv\u00eancia da antiga Babil\u00f4nia, a Grande Prostituta do Velho Testamento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, escandalizou-se com o costume romano de fazer as necessidades nas vias p\u00fablicas, em qualquer das esquinas da cidade, e com a descarada explora\u00e7\u00e3o do sexo que se via por todos os lados. Ao retornar para Erfurt e depois para Wittemberg, na baixa-Sax\u00f4nia, onde lecionou Filosofia Moral, sua consci\u00eancia n\u00e3o mais descansou.<\/p>\n<p>A ocasi\u00e3o da explos\u00e3o de indigna\u00e7\u00e3o dele deu-se, uns anos depois, quando um pregador chamado Johann Tetzel, um sermonista dominicano a servi\u00e7o do arcebispo Alberto de Brandenburgo, apareceu no sul da Alemanha para propagar a venda das indulg\u00eancias (<em>Ablasshandel<\/em>, em alem\u00e3o).<\/p>\n<p><strong>Um neg\u00f3cio escandaloso<\/strong><\/p>\n<p>Tudo teria come\u00e7ado em 1513-4 com a ambi\u00e7\u00e3o da dinastia Hohenzollern, da Pr\u00fassia, em querer ampliar o controle sobre os arcebispados alem\u00e3es. Aproveitando-se da vac\u00e2ncia de dois important\u00edssimos postos, Alberto de Brandenburgo, que apesar de ter apenas 23 anos j\u00e1 ser arcebispo de Madenburgo reivindicou junto ao papado a acumula\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es das dioceses de Mayence e Halberstadt. Pretens\u00e3o tida como ilegal, mas contorn\u00e1vel se amparada com dinheiro ofertado a Roma.<\/p>\n<p>A confirma\u00e7\u00e3o dada pelo papa Le\u00e3o X (da fam\u00edlia dos banqueiros M\u00e9dici de Floren\u00e7a), em agosto de 1514, custaria a Alberto de Brandenburgo a soma de 14 mil ducados, acompanhada de uma &#8220;concess\u00e3o volunt\u00e1ria&#8221; de mais 10 mil ducados.<\/p>\n<p>A intermedia\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio entre o arcebispo e o papa foi reservada ao grande banqueiro Jacob Fugger, o rico (+ 1525), que naquela \u00e9poca praticamente detinha o monop\u00f3lio das rela\u00e7\u00f5es financeiras de Roma com os estados alem\u00e3es (conforme A. Schulte, Die Fugger in Rom, tomo I, 1904). Foi para pagar os adiantamentos de Fugger que o papa Le\u00e3o X concedeu a Alberto de Brandenburgo a permiss\u00e3o de vender indulg\u00eancias ao pre\u00e7o entre oito e 9 ducados cada uma, nas dioceses do seu arcebispado.<\/p>\n<p>A concess\u00e3o, conforme determinou a bula papal de 31 de mar\u00e7o de 1515, se entenderia por oito anos, sendo que o arcebispo e o pont\u00edfice dividiriam entre si os proventos alcan\u00e7ados repassando-os ao credor Fugger. Sendo que Le\u00e3o X, com o que lhe cabia, pensava em acelerar as obras do Vaticano, ent\u00e3o em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todavia, Maximiliano, o imperador do Sacro Imp\u00e9rio Romano Germano, desde que fora informado do acordo, exigiu sua participa\u00e7\u00e3o, reclamando para si, durante os tr\u00eas primeiros anos, 1\/3 do que fosse recolhido entre os crentes temerosos das penas eternas. O tesouro dos Santos Leia mais Martim Lutero \u00bb Um monge contra o papa Como poderia o papa autorizar a venda de indulg\u00eancias que nada mais eram sen\u00e3o remiss\u00f5es concedidas aos poss\u00edveis pecadores? A pr\u00e1tica de autorizar tal neg\u00f3cio n\u00e3o era nova na cristandade.<\/p>\n<p>Acredita-se que remontava aos tempos das Cruzadas como um procedimento, ainda que eventual, tido como v\u00e1lido para amealhar recursos para financiar as expedi\u00e7\u00f5es militares contra os infi\u00e9is mu\u00e7ulmanos. Por igual teria sido usado na \u00e9poca das Cruzadas contra os Albigenses, um grupo her\u00e9tico do sul da Fran\u00e7a, iniciadas em 1208. Todavia, foi somente no s\u00e9culo 14 que as indulg\u00eancias alcan\u00e7aram uma explica\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica defendida por Alexandre de Hales e Hugo de St.Cher.<\/p>\n<p>Segundo eles, as obras e as a\u00e7\u00f5es dos santos e mesmo de Cristo deixaram um apreci\u00e1vel excedente de bons atos n\u00e3o usados inteiramente por eles. Havia, pois, um plus de santidade que teria formado um capital celestial, um tesouro dos m\u00e9ritos que estaria dispon\u00edvel aos interesses do Santo Padre.<\/p>\n<p>De posse da chave, o papa podia recorrer ao Tesouro dos Santos armazenado no c\u00e9u para poder distribuir o seu conte\u00fado entre os crentes. Havia dois tipos de indulg\u00eancias: a plen\u00e1ria e a parcial. A primeira, a de maior pre\u00e7o, tinha a condi\u00e7\u00e3o de transferir m\u00e9ritos o suficiente para livrar o possuidor de todas as penas da terra e daquelas do purgat\u00f3rio. A outra, a parcial, tinha prazo. Podia livrar algu\u00e9m por alguns dias ou at\u00e9 mesmo por um mil\u00eanio inteiro, tanto na terra como no purgat\u00f3rio. Um vendedor escandaloso Cartaz de Propaganda luterana mostrando o confronto entre Lutero (\u00e0 esquerda) e Tetzel (comerciando as indulg\u00eancias \u00e0 direita). Tela de Lucas Cranach. Apesar de Johann Tetzel jamais ter posto os p\u00e9s em Witemberg (cidadezinha onde Lutero lecionava Filosofia Moral na Faculdade de Letras da Universidade local), os ecos da escandalosa prega\u00e7\u00e3o que ele fazia em favor das indulg\u00eancias (Ablassmissbrauch) chegou aos ouvidos de Lutero. Tetzel, um despudorado, assumira a fun\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de arrecadador-geral do arcebispo de Mayence, o j\u00e1 citado Alberto de Brandenburgo, n\u00e3o tendo pejo de, em pleno serm\u00e3o, fazer as ofertas mais incr\u00edveis para aqueles que hesitavam em dar sua prata em troca da remiss\u00e3o papal.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m n\u00e3o a quisesse para si, dizia ele, que lembrasse das almas dos parentes pr\u00f3ximos que estagiavam por um demorado tempo no purgat\u00f3rio. Podiam, por m\u00f3dicos tost\u00f5es, adquirir uma indulg\u00eancia para a alma de um pai, uma m\u00e3e ou de um av\u00f4, que ainda estava num daqueles desv\u00e3os esperando a vez de partir para mais alto, para o c\u00e9u, em dire\u00e7\u00e3o ao para\u00edso. Porque deix\u00e1-las por l\u00e1, penando, se podiam resolver tudo de vez? Da\u00ed atribu\u00edrem a Tetzel o incr\u00edvel e interesseiro verso: <em>Sobald das Geld im Kasten klingt\/ Die Seele aus dem Fegefeuer springt!<\/em> (Assim que tilinta o dinheiro na caixa\/ A alma salta do Purgat\u00f3rio [em dire\u00e7\u00e3o ao Para\u00edso]).<\/p>\n<p>Foi essa desfa\u00e7atez expl\u00edcita de Tetzel que fez com que o desconhecido monge, doutor em teologia por Leipzig desde outubro de 1512, se insurgisse vindo a publicar, no dia 31 de outubro de 1517, suas famosas 95 teses na Schlosskirche, na porta da igreja do castelo de Wittemberg denunciando a venda das indulg\u00eancias como uma atividade ilegal e imoral, visto que a salva\u00e7\u00e3o era assunto privado da rela\u00e7\u00e3o do crente com Deus, n\u00e3o concebendo nenhuma intermedia\u00e7\u00e3o entre eles.<\/p>\n<p>Foi o come\u00e7o do que os alem\u00e3es denominaram de <em>Ablassstreit<\/em>, a pol\u00eamica sobre as indulg\u00eancias, A partir de ent\u00e3o, transformado na voz indignada de quase toda a Alemanha, Martim Lutero passou a liderar o Movimento da Reforma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte: Terra Educa\u00e7\u00e3o. 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