{"id":2023,"date":"2025-07-31T14:24:43","date_gmt":"2025-07-31T14:24:43","guid":{"rendered":"https:\/\/cih.org.br\/?p=2023"},"modified":"2025-07-31T14:24:45","modified_gmt":"2025-07-31T14:24:45","slug":"o-banimento-do-cao-do-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cih.org.br\/?p=2023","title":{"rendered":"O Banimento do C\u00e3o do Mal"},"content":{"rendered":"\n<p>Por <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/humberto_barino?utm_source=ig_web_button_share_sheet&amp;igsh=ZDNlZDc0MzIxNw==\">Frater Arthur<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se afirmar que o ramo hoje denominado egiptologia teve seu in\u00edcio no final do s\u00e9culo XVIII, sendo, incrivelmente, Napole\u00e3o Bonaparte<sup><a href=\"#sdfootnote1sym\" id=\"sdfootnote1anc\"><sup>1<\/sup><\/a><\/sup>, que em suas campanhas militares, levou consigo estudiosos e cientistas que documentaram monumentos, artefatos e inscri\u00e7\u00f5es eg\u00edpcias, tendo como resultado a obra <em>Description de l\u2019\u00c9gypte<\/em>, que teve mais de 20 volumes publicados entre 1809 e 1829, culminando no interesse europeu pelo \u201cAntigo Egito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante ressaltar que, no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, rec\u00e9m-sa\u00edda do que hoje chamamos de Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, a Fran\u00e7a era o epicentro das ideias iluministas e ditava o ritmo das transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais na Europa<sup><a href=\"#sdfootnote2sym\" id=\"sdfootnote2anc\"><sup>2<\/sup><\/a><\/sup>. O franc\u00eas era visto como idioma de sofistica\u00e7\u00e3o e saber, amplamente falado nas cortes europeias, sendo considerado um idioma global at\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX e meados do seguinte \u2014 tal como ocorre com o ingl\u00eas hoje, que, contudo, preve-se perca de espa\u00e7o, especialmente em raz\u00e3o de fatores econ\u00f4micos ligados \u00e0 \u00c1sia.<\/p>\n\n\n\n<p>A famosa Pedra de Roseta foi descoberta em 1799 por soldados franceses durante as excurs\u00f5es napole\u00f4nicas e decifrada em 1822 pelo linguista franc\u00eas <em>Jean-Fran\u00e7ois Champollion.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, afirmo categoricamente que o Museu Brit\u00e2nico deve , e muito, aos comedores de caramujo.<\/p>\n\n\n\n<p>A publica\u00e7\u00e3o do livro Pr\u00e9cis du syst\u00e8me hi\u00e9roglyphique des anciens \u00c9gyptiens, em 1824, pelo mesmo linguista, aprofundando e explicando o sistema de hier\u00f3glifos, possibilitou a transforma\u00e7\u00e3o da egiptologia de mera especula\u00e7\u00e3o para uma ci\u00eancia lingu\u00edstica e hist\u00f3rica. A partir de ent\u00e3o, restou aos pilantras de plant\u00e3o recorrer a novas fontes, como a Atl\u00e2ntida e a Lem\u00faria.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 1850, come\u00e7aram a surgir expedi\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas mais recentes ao Egito, levando ao surgimento de departamentos de egiptologia dentro dos museus. Pode-se dizer que o campo se consolidou fortemente no final do s\u00e9culo XIX, tendo como um de seus maiores estudiosos o estimado E. A. Wallis Budge (27\/07\/1857 \u2013 23\/11\/1934), que durante 27 anos dirigiu o departamento de antiguidades asi\u00e1ticas e eg\u00edpcias no Museu Brit\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1888, ocorreu a funda\u00e7\u00e3o da famos\u00edssima Hermetic Order of the Golden Dawn, que contou com diversos intelectuais e pol\u00edticos da \u00e9poca entre seus membros, inclusive W. B. Yeats, ganhador do Pr\u00eamio Nobel de Literatura em 1923.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 corriqueiro que eu me pegue pensando na import\u00e2ncia da Ordem no desenvolvimento da egiptologia. H\u00e1 rumores de que Budge auxiliava os membros da Ordem em suas pesquisas, permitindo-lhes acesso aos materiais do Museu Brit\u00e2nico. Creio ser seguro afirmar que, no m\u00ednimo, trocavam figurinhas. Tamanha era a import\u00e2ncia da Golden Dawn no alvorecer da egiptologia que Florence Farr, Soror Sapientia Sapienti Dono Data (SSDD), iniciada no templo de Londres, publicou seu ensaio \u2018<em>Egyptian Magic: An Essay on the Nature and Applications of Magical Practices in Pharaonic and Ptolemaic Egypt em 1896<\/em>\u2019. Questiono-me tamb\u00e9m quantos \u201cestudiosos do oculto\u201d hoje em dia realmente se dedicaram a ler as fontes originais, ou sequer a tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos tomar como exemplo, em rela\u00e7\u00e3o aos membros da Ordem e ao Museu Brit\u00e2nico \u2014 ou, ao menos, de sua erudi\u00e7\u00e3o sobre o assunto \u2014 o Papiro de Harris, datado do reinado de Rams\u00e9s III (XX dinastia, cerca de 1150 a.C.). O Papiro Harris I foi adquirido por Anthony Charles Harris por volta de 1855, ap\u00f3s sua descoberta em uma tumba em Medinet Habu, e vendido ao Museu Brit\u00e2nico em 1873, registrado como EA 999. Sua primeira publica\u00e7\u00e3o ocorreu em 1876, por Samuel Birch, curador do Museu Brit\u00e2nico, e foi republicado por Budge em 1906. O documento inclui f\u00f3rmulas de louvor e prote\u00e7\u00e3o divina, bem como pr\u00e1ticas religiosas para manter a ordem e afastar dem\u00f4nios.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu ensaio de 1896, Florence Farr apresenta um ritual de banimento cuja fonte \u00e9 o Papiro de Harris, que carinhosamente denomino como &#8216;banimento do c\u00e3o do mal&#8217;. Reproduzo aqui a f\u00f3rmula traduzida do livro de Farr para o portugu\u00eas<sup><a href=\"#sdfootnote3sym\" id=\"sdfootnote3anc\"><sup>3<\/sup><\/a><\/sup>:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO ritual deve ser realizado nos pontos Sul, Norte, Oeste e Leste, com a formula\u00e7\u00e3o <sup><a href=\"#sdfootnote4sym\" id=\"sdfootnote4anc\"><sup>4<\/sup><\/a><\/sup>de um guardi\u00e3o na forma de um c\u00e3o, que deve ter apar\u00eancia terr\u00edvel diante de toda e qualquer for\u00e7a atacante. Abaixo, a tradu\u00e7\u00e3o para o invoca\u00e7\u00e3o:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Surja, c\u00e3o do mal, para que eu possa instru\u00ed-lo em suas obriga\u00e7\u00f5es. Tu est\u00e1s aprisionado. Confessa que assim \u00e9. Foi H\u00f3rus quem assim decretou. Que sua cara <sup><a href=\"#sdfootnote5sym\" id=\"sdfootnote5anc\"><sup>5<\/sup><\/a><\/sup>seja terr\u00edvel como a tempestade partindo o c\u00e9u. Que suas mand\u00edbulas se fechem impiedosamente. Sacrifique como o deus Her-Shafi<sup><a href=\"#sdfootnote6sym\" id=\"sdfootnote6anc\"><sup>6<\/sup><\/a><\/sup>. Massacre como a deusa Anat<sup><a href=\"#sdfootnote7sym\" id=\"sdfootnote7anc\"><sup>7<\/sup><\/a><\/sup>. Que teu pelo se eri\u00e7e como labaredas de fogo. S\u00ea tu grandioso como H\u00f3rus e terr\u00edvel como Seth. Igualmente ao Sul, Norte, Oeste e Leste \u2014 toda a terra pertence a ti. Nada dever\u00e1 deter-te enquanto estiveres em minha defesa, enquanto proteges meus caminhos, opondo-te aos meus inimigos. Eu te concedo o poder do banimento, de tornar-te impercept\u00edvel e invis\u00edvel. Porque tu \u00e9s meu guardi\u00e3o, corajoso e terr\u00edvel.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E assim encerro a minha tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tive contato com esse banimento pela primeira vez na vers\u00e3o exposta no livro do Regardie<sup><a href=\"#sdfootnote8sym\" id=\"sdfootnote8anc\"><sup>8<\/sup><\/a><\/sup>, como parte da bibliografia do CDJ, e o utilizei em conjunto com o ritual da Torre de Vigia de An\u00fabis (Codex 18 do C\u00edrculo). Ambos os rituais se mostraram extremamente poderosos e vers\u00e1teis, especialmente em momentos nos quais n\u00e3o se pode realizar um RmPB. Na \u00e9poca, ainda n\u00e3o conhecia, ou n\u00e3o havia sido liberado, o banimento do ALGR, pelo Frater Goya.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante que se visualize o c\u00e3o da forma mais terr\u00edvel poss\u00edvel, mas sem tem\u00ea-lo, e que o fa\u00e7a da forma mais sanguin\u00e1ria que consiga imaginar. Quando o c\u00e3o do mal entra em campo, n\u00e3o \u00e9 momento para gratiluz; deves agir sem d\u00f3 e piedade, assim como comandas o c\u00e3o a agir. Deve-se confiar no poder de destrui\u00e7\u00e3o e putrefa\u00e7\u00e3o de suas mand\u00edbulas (nota 8).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que se trabalhe com o animal, mais fluida e poderosa ficar\u00e1 sua visualiza\u00e7\u00e3o e efic\u00e1cia, aumentando sua conex\u00e3o. Em complemento com a Torre de Vigia de An\u00fabis, estar\u00e1s diariamente &#8216;armado&#8217; de poderosas defesas. Com o tempo, digo por experi\u00eancia, o c\u00e3o vir\u00e1 em teu aux\u00edlio mesmo sem o teu comando, e quando o vires, considera-o um aviso \u2014 seja andando \u00e0 noite no escuro, em um bar, ou conversando com um &#8216;amigo&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao se adquirir mais fluidez e maior sintonia, o c\u00e3o pode ser usado para trabalhos \u00e0 dist\u00e2ncia ou mesmo para outros tipos de tarefas. Recomendo, todavia, que se d\u00ea a licen\u00e7a para partir sempre que suaa miss\u00e3o esteja conclu\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p>Um aviso: sua atua\u00e7\u00e3o \u00e9 terr\u00edvel, tal como os m\u00edticos <em>hellhounds<\/em>, mas \u00e9 assim que deve ser contra tudo e todos que se oponham em seu caminho. Nas palavras do profeta: &#8216;Golpeie duro e baixo, e para o inferno com eles (&#8230;)&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, o contato com esse tipo de entidade e ritual serve para que o mago iniciante aumente seus poderes de visualiza\u00e7\u00e3o e se acostume mais com a formalidade e a forma ritual\u00edstica da magia eg\u00edpcia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem tiver olhos para ver e ouvidos para ouvir;<\/p>\n\n\n\n<p>Que veja e que ou\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Em L.L.L.L,<\/p>\n\n\n\n<p>Fr. Arthur.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#sdfootnote1anc\" id=\"sdfootnote1sym\">1<\/a> A campanha de Napole\u00e3o no Egito (1798\u20131802) foi uma tentativa de conquista contra a Inglaterra. Ap\u00f3s uma invas\u00e3o bem-sucedida em 1798, a rendi\u00e7\u00e3o final francesa foi declarada em 1801, ap\u00f3s um ataque conjunto de brit\u00e2nicos e otomanos<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#sdfootnote2anc\" id=\"sdfootnote2sym\">2<\/a> LYONS, Martyn. Napoleon Bonaparte and the Legacy of the French Revolution. London: Macmillan, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#sdfootnote3anc\" id=\"sdfootnote3sym\">3<\/a> Tradu\u00e7\u00e3o adaptada ao portugu\u00eas brasileiro falado nos dias de hoje. Embora tenha mantido ainda certo floreio, como o uso da segunda pessoa &#8216;tu&#8217; em vez de &#8216;voc\u00ea&#8217; (comumente utilizado na regi\u00e3o em que cresci, ao contr\u00e1rio do &#8216;tu&#8217;, mais frequente no Sul), o texto est\u00e1 mais pr\u00f3ximo de um &#8216;vosmec\u00ea&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#sdfootnote4anc\" id=\"sdfootnote4sym\">4<\/a> Nota de Frater Arthur: na tela mental, visualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#sdfootnote5anc\" id=\"sdfootnote5sym\">5<\/a> Ou face. Todavia, optei pela utiliza\u00e7\u00e3o do termo mais comum em minha regi\u00e3o para discuss\u00f5es mais &#8216;acaloradas&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#sdfootnote6anc\" id=\"sdfootnote6sym\">6<\/a> Her-Shafi: Aquele que est\u00e1 sobre o lago, ou H\u00f3rus que emerge sobre o lago. Tamb\u00e9m pode ser dito como: &#8216;Faze sacrif\u00edcios como H\u00f3rus que emerge sobre o lago&#8217;. Esse verso traz a ideia do poder de putrefa\u00e7\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m ligado a Os\u00edris.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#sdfootnote7anc\" id=\"sdfootnote7sym\">7<\/a> Anata, ou Anat, \u00e9 uma deusa da mitologia cananeia, associada \u00e0 guerra e \u00e0 ca\u00e7a, extremamente feroz e agressiva. Ela auxilia Baal a derrotar seus inimigos e \u00e9 descrita como uma deusa que massacra e destr\u00f3i os inimigos dos humanos que protege.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#sdfootnote8anc\" id=\"sdfootnote8sym\">8<\/a> REGARDIE, Israel. Magia Herm\u00e9tica: a \u00c1rvore da Vida \u2013 um estudo sobre magia. S\u00e3o Paulo: Madras, 1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Frater Arthur Pode-se afirmar que o ramo hoje denominado egiptologia teve seu in\u00edcio no final do s\u00e9culo XVIII, sendo, incrivelmente, Napole\u00e3o Bonaparte1, que em suas campanhas militares, levou consigo estudiosos e cientistas que documentaram monumentos, artefatos e inscri\u00e7\u00f5es eg\u00edpcias, tendo como resultado a obra Description de l\u2019\u00c9gypte, que teve mais de 20 volumes publicados &hellip; <\/p>\n<p><a class=\"more-link btn\" href=\"https:\/\/cih.org.br\/?p=2023\">Continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,14],"tags":[246,447,449,35,239,79,59],"class_list":["post-2023","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-golden-dawn","category-mitologia","tag-enochiano","tag-florence-farr","tag-frater-arthur","tag-frater-goya","tag-golden-dawn","tag-magia","tag-mcgregor-mathers","nodate","item-wrap"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2023","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2023"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2023\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2024,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2023\/revisions\/2024"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2023"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2023"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2023"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}