{"id":20,"date":"2012-01-19T00:22:27","date_gmt":"2012-01-19T00:22:27","guid":{"rendered":"https:\/\/cih.org.br\/?p=20"},"modified":"2012-01-19T00:22:27","modified_gmt":"2012-01-19T00:22:27","slug":"o-buraco-da-agulha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cih.org.br\/?p=20","title":{"rendered":"O Buraco da Agulha"},"content":{"rendered":"<p>por <strong>Ren\u00e9 Gu\u00e9non<\/strong> -Traduzido por J. Constantino Kairalla Riemma<\/p>\n<p>Como j\u00e1 nos referimos anteriormente, uma das representa\u00e7\u00f5es do s\u00edmbolo da &#8220;porta estreita&#8221; \u00e9 o &#8220;buraco da agulha&#8221;, mencionado em especial, com essa significa\u00e7\u00e3o, num texto evang\u00e9lico bem conhecido. A express\u00e3o inglesa <em>needle&#8217;s eye<\/em>, literalmente &#8220;olho da agulha&#8221;, \u00e9 particularmente significativa sob esse aspecto, pois liga de forma mais direta esse s\u00edmbolo a alguns de seus equivalentes, como o &#8220;olho&#8221; do domo no simbolismo arquitet\u00f4nico: tratam-se de figura\u00e7\u00f5es diversas da &#8220;porta solar&#8221;, tamb\u00e9m designada, por sua vez, como o &#8220;Olho do Mundo&#8221;. Nota-se ainda que a agulha, ao ser colocada verticalmente, pode ser tomada como uma figura do &#8220;Eixo do Mundo&#8221;; nesse caso, estando a extremidade perfurada no alto, h\u00e1 uma exata coincid\u00eancia entre essa posi\u00e7\u00e3o do &#8220;olho&#8221; da agulha e a do &#8220;olho&#8221; do domo.<\/p>\n<p>O mesmo s\u00edmbolo tem ainda outras conex\u00f5es interessantes que foram assinaladas por Ananda K. Coomaraswamy: em um <em>J\u00e2taka<\/em> [relato das &#8220;vidas anteriores&#8221; de Buda], em que se trata de uma agulha misteriosa (na realidade id\u00eantica ao <em>Vajra<\/em>), o buraco da agulha \u00e9 designado em p\u00e1li pela palavra <em>p\u00e2sa<\/em>. Esse termo \u00e9 o mesmo que o s\u00e2nscrito <em>p\u00e2sha<\/em>, que possui originalmente o sentido de &#8220;n\u00f3&#8221; ou &#8220;la\u00e7o&#8221;; isso parece indicar em primeiro lugar, como observou Coomaraswamy, que, numa \u00e9poca muito antiga, as agulhas eram, n\u00e3o perfuradas como aconteceu mais tarde, mas simplesmente recurvadas de modo a formar uma esp\u00e9cie de al\u00e7a ou anel pelo qual passaava o fio. Por\u00e9m, o que h\u00e1 de mais importante a ser considerado por n\u00f3s, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o que existe entre essa aplica\u00e7\u00e3o da palavra <em>p\u00e2sha<\/em> ao buraco da agulha e suas outras significa\u00e7\u00f5es mais habituais, que ali\u00e1s s\u00e3o de igual modo derivadas da id\u00e9ia primeira de &#8220;n\u00f3&#8221;.<\/p>\n<p>O <em>p\u00e2sha<\/em>, de fato, \u00e9 com freq\u00fc\u00eancia, no simbolismo hindu, um &#8220;n\u00f3 corredio&#8221;, ou um &#8220;la\u00e7o&#8221; que serve para apanhar animais na ca\u00e7a; sob essa forma, \u00e9 um dos principais emblemas de <em>Mrityu<\/em> [a Morte] ou de <em>Yama <\/em>[deus dos mortos], e tamb\u00e9m de \u00a0<em>Varuna<\/em>; e os &#8220;animais&#8221; presos por meio desse <em>p\u00e2sha <\/em>s\u00e3o, na realidade, todos os seres vivos (<em>pashu<\/em>). Da\u00ed tamb\u00e9m o sentido de &#8220;v\u00ednculo&#8221;: o animal, desde que preso, encontra-se atado pelo n\u00f3 corredio que se aperte sobre ele. Isso equivale a dizer que o ser passe pelas mand\u00edbulas da Morte sem que estas se fechem sobre ele. O la\u00e7o do <em>p\u00e2sha<\/em> \u00e9, na verdade, como diz Coomaraswamy, um outro aspecto da &#8220;porta estreita&#8221;, exatamente como o &#8220;buraco da agulha&#8221; representa a passagem atrav\u00e9s da mesma &#8220;porta solar&#8221; no simbolismo do bordade. Podemos acrescentar que o fio que passa pelo buraco da agulha tem ainda como um outro equivalente, no simbolismo do tiro com arco, a flecha que atravessa o centro do alvo; e este \u00e9, ali\u00e1s, propriamente designado por &#8220;meta&#8221;, termo a prop\u00f3sito muito significativo, pois a passagem em quest\u00e3o, e pela qual se efetua a &#8220;sa\u00edda do cosmo&#8221;, \u00e9 tamb\u00e9m a meta que deve ser alcan\u00e7ada pelo ser finalmente &#8220;libertado&#8221; dos la\u00e7os da exist\u00eancia manifestada.<\/p>\n<p>Essa \u00faltima observa\u00e7\u00e3o nos leva a precisar, com Coomaraswamy, que somente no que diz respeito \u00e0 &#8220;\u00faltima morte&#8221;, aquela que precede imediatamente a &#8220;liberta\u00e7\u00e3o&#8221; e ap\u00f3s a qual n\u00e3o h\u00e1 mais qualquer retorno a um estado condicionado, o &#8220;buraco da agulha&#8221; representa a verdadeira passagem pela &#8220;porta solar&#8221;, visto que, em todos os demais casos, n\u00e3o se trata ainda de uma &#8220;sa\u00edda do cosmo&#8221;. Entretanto, pode-se tamb\u00e9m, analogicamente e num sentido relativo, falar de &#8220;passar pelo buraco da agulha&#8221; ou de &#8220;escapar&#8221; ao <em>p\u00e2sha<\/em>, para designar toda passagem de um estado a outro, sendo sempre tal passagem uma &#8220;morte&#8221; em rela\u00e7\u00e3o ao estado antecedente, ao mesmo tempo em que \u00e9 um &#8220;nascimento&#8221; em rela\u00e7\u00e3o ao estado conseq\u00fcente, como j\u00e1 explicamos em muitas ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda um outro importante aspecto do simbolismo do <em>p\u00e2sha<\/em> do qual n\u00e3o falamos at\u00e9 aqui, ou seja, o que se refere em particular ao &#8220;n\u00f3 vital&#8221;, e resta-nos mostrar como isso tamb\u00e9m se liga de forma estrita \u00e0 mesma ordem de considera\u00e7\u00f5es. De fato, o &#8220;n\u00f3 vital&#8221;constitui-se no la\u00e7o que mant\u00e9m reunidos entre si os diferentes elementos constitutivos da individualidade. Conseq\u00fcentemente, \u00e9 ele que mant\u00e9m o ser em sua condi\u00e7\u00e3o de <em>pashu<\/em>, pois, a partir do momento que esse la\u00e7o se desfaz ou se parte, sobrev\u00e9m a desagrega\u00e7\u00e3o desses elementos, o que significa exatamente a morte da individualidade, acarretando a passagem do ser para um outro estado. Transpondo o que acaba de ser dito para a situa\u00e7\u00e3o da &#8220;liberta\u00e7\u00e3o&#8221; final, pode-se afirmar que, quando o ser chega a passar atrav\u00e9s do la\u00e7o do <em>p\u00e2sha<\/em>, sem que este o aperte e o torne a prender, \u00e9 como se esse la\u00e7o estivesse desatado para ele, e isso de um modo definitivo. Trata-se, em suma, de duas maneiras diferentes de exprimir a mesma coisa.<\/p>\n<p>N\u00e3o insistiremos mais sobre a quest\u00e3o do &#8220;n\u00f3 vital&#8221;, que poderia levar-nos a muitos outros desenvolvimentos. Indicamos em outra ocasi\u00e3o como, no simbolismo arquitet\u00f4nico, ele tem sua correspond\u00eancia no &#8220;ponto sens\u00edvel&#8221; de um edif\u00edcio, sendo este a imagem de um ser vivo ou de um mundo, segundo seja considerado do ponto de vista &#8220;microc\u00f3smoco&#8221; ou &#8220;macroc\u00f3smico&#8221;. Mas, no momento, o que acabamos de dizer basta para mostrar que a solu\u00e7\u00e3o desse n\u00f3, que \u00e9 tamb\u00e9m o &#8220;n\u00f3 gordio&#8221; da lenda grega, constitui-se ainda, no fundo, um equivalente da passagem do ser atrav\u00e9s da &#8220;porta solar&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Ren\u00e9 Gu\u00e9non -Traduzido por J. Constantino Kairalla Riemma Como j\u00e1 nos referimos anteriormente, uma das representa\u00e7\u00f5es do s\u00edmbolo da &#8220;porta estreita&#8221; \u00e9 o &#8220;buraco da agulha&#8221;, mencionado em especial, com essa significa\u00e7\u00e3o, num texto evang\u00e9lico bem conhecido. A express\u00e3o inglesa needle&#8217;s eye, literalmente &#8220;olho da agulha&#8221;, \u00e9 particularmente significativa sob esse aspecto, pois liga &hellip; <\/p>\n<p><a class=\"more-link btn\" href=\"https:\/\/cih.org.br\/?p=20\">Continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":9691,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-20","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","nodate","item-wrap"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9691"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cih.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}