{"id":1902,"date":"2005-06-28T21:41:00","date_gmt":"2005-06-28T21:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cih.org.br\/?p=1902"},"modified":"2024-01-23T21:42:18","modified_gmt":"2024-01-23T21:42:18","slug":"a-rosa-de-paracelso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cih.org.br\/?p=1902","title":{"rendered":"A Rosa de Paracelso"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Resolvi postar um texto que foi enviado internamente pela lista do CIH, e cujo profundo significado deve calar em nossos esp\u00ed\u00adritos. Como considero esse material refer\u00eancia para exemplificar certos ensinamentos, apesar de ser uma cita\u00e7\u00e3o, merece figur<\/em>ar entre o material deste blog, na categoria de instru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Em L.L.L.L.,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Fr. Goya<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ank \u2013 Usa \u2013 Semb<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: <strong>Jorge Luis Borges<\/strong><br>De Quincey: Writings, XIII, 345<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua oficina, que abarcava os dois c\u00f4modos do por\u00e3o, Paracelso pediu a seu Deus, a seu indeterminado Deus, a qualquer Deus, que lhe enviasse um disc\u00ed\u00adpulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Entardecia. O escasso fogo da lareira arrojava sombras irregulares. Levantar-se para acender a l\u00e2mpada de ferro era demasiado trabalho. Paracelso, distra\u00ed\u00addo pela fadiga, esqueceu-se de sua prece. A noite havia apagado os empoeirados alambiques e o atanor quando bateram \u00e0 porta. O homem, sonolento, levantou-se, subiu a breve escada de caracol e abriu uma das portadas. Entrou um desconhecido. Tamb\u00e9m estava muito cansado. Paracelso lhe indicou um banco; o outro sentou-se e esperou. Durante um tempo n\u00e3o trocaram uma palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>O mestre foi o primeiro que falou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Lembro-me de caras do Ocidente e de caras do Oriente \u2013 falou, n\u00e3o sem certa pompa \u2013 N\u00e3o me lembro da tua. Quem \u00e9s e que desejas de mim?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 O meu nome n\u00e3o importa \u2013 replicou o outro \u2013 Tr\u00eas dias e tr\u00eas noites tenho caminhado para entrar em tua casa. Quero ser teu disc\u00ed\u00adpulo. Trago-te todos os meus bens \u2013 e tirou um taleigo que colocou sobre a mesa. As moedas eram muitas e de ouro.<\/p>\n\n\n\n<p>F\u00ea-lo com a m\u00e3o direita. Paracelso lhe havia dado as costas para acender a l\u00e2mpada. Quando se voltou, viu que na m\u00e3o esquerda ele segurava uma rosa, que o inquietou. Recostou-se, juntou as pontas dos dedos e falou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Acreditas que sou capaz de elaborar a pedra que transforma todos os elementos em ouro e ofereces-me ouro. N\u00e3o \u00e9 ouro o que procuro, e se o ouro te importa, n\u00e3o ser\u00e1s meu disc\u00ed\u00adpulo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 O ouro n\u00e3o me importa \u2013 respondeu o outro. \u2013 Essas moedas n\u00e3o s\u00e3o mais do que uma parte da minha vontade de trabalho. Quero que me ensines a Arte; quero percorrer a teu lado o caminho que conduz \u00e0 Pedra.<\/p>\n\n\n\n<p>Paracelso falou devagar:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 O caminho \u00e9 a Pedra. O ponto de partida \u00e9 a Pedra. Se n\u00e3o entendes estas palavras, nada entendes ainda. Cada passo que deres \u00e9 a meta.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro o olhou com receio. Falou com voz diferente:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Mas, h\u00e1 uma meta?<\/p>\n\n\n\n<p>Paracelso riu-se.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Os meus difamadores, que n\u00e3o s\u00e3o menos numerosos que est\u00fapidos, dizem que n\u00e3o, e me chamam de impostor. N\u00e3o lhes dou raz\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00ed\u00advel que seja uma ilus\u00e3o. Sei que h\u00e1 um Caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Estou pronto a percorr\u00ea-lo contigo, ainda que devamos caminhar muitos anos. Deixa-me cruzar o deserto. Deixa-me divisar, ao menos de longe, a terra prometida, ainda que os astros n\u00e3o me deixem pis\u00e1-la. Mas quero uma prova antes de empreender o caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Quando? \u2013 falou com inquietude Paracelso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Agora mesmo \u2013 respondeu com brusca decis\u00e3o o disc\u00ed\u00adpulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Haviam come\u00e7ado a conversa em latim; agora falavam em alem\u00e3o. O garoto elevou no ar a rosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 \u00c9 verdade \u2013 falou \u2013 que podes queimar uma rosa e faz\u00ea-la ressurgir das cinzas, por obra da tua Arte. Deixa-me ser testemunha desse prod\u00ed\u00adgio. Isso te pe\u00e7o, e te dedicarei, depois, a minha vida inteira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 \u00c9s muito cr\u00e9dulo \u2013 disse o mestre \u2013 N\u00e3o \u00e9s o menestrel da credulidade. Exijo a F\u00e9!<\/p>\n\n\n\n<p>O outro insistiu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Precisamente por n\u00e3o ser cr\u00e9dulo, quero ver com os meus olhos a aniquila\u00e7\u00e3o e a ressurrei\u00e7\u00e3o da rosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Paracelso a havia tomado e ao falar, brincava com ela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 \u00c9s um cr\u00e9dulo \u2013 disse. \u2013 Perguntas-me se sou capaz de destru\u00ed\u00ad-la?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Ningu\u00e9m \u00e9 incapaz de destru\u00ed\u00ad-la \u2013 falou o disc\u00ed\u00adpulo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Est\u00e1s equivocado. Acreditas, porventura, que algo pode ser devolvido ao nada?<br>Acreditas que o primeiro Ad\u00e3o no Para\u00ed\u00adso pode haver destru\u00ed\u00addo uma s\u00f3 flor ou uma s\u00f3 palha de erva?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 N\u00e3o estamos no Para\u00ed\u00adso \u2013 respondeu teimosamente o mo\u00e7o \u2013 Aqui, abaixo da lua, tudo \u00e9 mortal.<\/p>\n\n\n\n<p>Paracelso se havia posto em p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Em que outro lugar estamos? Acreditas que a divindade pode criar um lugar que n\u00e3o seja o Para\u00ed\u00adso? Acreditas que a Queda seja outra coisa que ignorar que estamos no Para\u00ed\u00adso?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Uma rosa pode queimar-se \u2013 falou, com insol\u00eancia, o disc\u00ed\u00adpulo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Ainda fica o fogo na lareira \u2013 disse Paracelso \u2013 Se atiras esta rosa \u00e0s brasas, acreditar\u00e1s que tenha sido consumida e que a cinza \u00e9 verdadeira. Digo-te que a rosa \u00e9 eterna e que s\u00f3 a sua apar\u00eancia pode mudar. Bastar-me-ia uma palavra para que a visse de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Uma palavra? \u2013 perguntou com estranheza o disc\u00ed\u00adpulo \u2013 O atanor est\u00e1 apagado e est\u00e3o cheios de p\u00f3 os alambiques. O que far\u00e1s para que ressurgissem?<\/p>\n\n\n\n<p>Paracelso olhou-o com tristeza.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 O atanor est\u00e1 apagado \u2013 reiterou \u2013 e est\u00e3o cheios de p\u00f3 os alambiques. Nesta etapa de minha longa jornada uso outros instrumentos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 N\u00e3o me atrevo a perguntar quais s\u00e3o \u2013 falou o mo\u00e7o, deixando Paracelso na d\u00favida se foi com ast\u00facia ou com humildade. E continuou \u2013 Falastes do que usou a divindade para criar os c\u00e9us e a terra. Falastes do invis\u00edvel Para\u00ed\u00adso em que estamos e que o pecado original nos oculta. Falastes da Palavra que nos ensina a ci\u00eancia da Cabala. Pe\u00e7o-te, agora, a merc\u00ea de mostrar-me o desaparecimento e o aparecimento da rosa. N\u00e3o me importa que operes com alambiques ou com o Verbo.<\/p>\n\n\n\n<p>Paracelso refletiu. Depois disse:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Se eu o fizesse, dir\u00e1s que se trata de uma apar\u00eancia imposta pela magia dos teus olhos. O prod\u00ed\u00adgio n\u00e3o te daria a F\u00e9 que buscas: Deixa, pois, a Rosa.<\/p>\n\n\n\n<p>O jovem o olhou, sempre receoso. O mestre elevou a voz e lhe disse:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Al\u00e9m disso, quem \u00e9s tu para entrar na casa de um mestre e exigir um prod\u00ed\u00adgio? Que fizeste para merecer semelhante dom?<\/p>\n\n\n\n<p>O outro replicou, temeroso:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 J\u00e1 que nada tenho feito, pe\u00e7o-te, em nome dos muitos anos que estudarei \u00e0 tua sombra, que me deixes ver a cinza, e depois a Rosa. N\u00e3o te pedirei mais nada. Acreditarei no testemunho dos meus olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomou com brusquid\u00e3o a rosa encarnada que Paracelso havia deixado sobre a cadeira e a atirou \u00e0s chamas. A cor se perdeu e s\u00f3 ficou um pouco de cinza. Durante um instante infinito, esperou as palavras e o milagre.<\/p>\n\n\n\n<p>Paracelso n\u00e3o havia se alterado. Falou com curiosa clareza:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Todos os m\u00e9dicos e todos os botic\u00e1rios de Basil\u00e9ia afirmam que sou um farsante. Talvez eles estejam certos. A\u00ed\u00ad est\u00e1 a cinza que foi a rosa e que n\u00e3o o ser\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>O jovem sentiu vergonha. Paracelso era um charlat\u00e3o ou um mero vision\u00e1rio e ele, um intruso que havia franqueado a sua porta e o obrigava agora a confessar que as suas famosas artes m\u00e1gicas eram v\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Ajoelhou-se, e falou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Tenho agido de maneira imperdo\u00e1vel. Tem-me faltado a F\u00e9 que exiges dos crentes. Deixa-me continuar a ver as cinzas. Voltarei quando for mais forte e serei teu disc\u00ed\u00adpulo e no final do Caminho, verei a Rosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Falava com genu\u00ed\u00adna paix\u00e3o, mas essa paix\u00e3o era a piedade que lhe inspirava o velho mestre, t\u00e3o venerado, t\u00e3o agredido, t\u00e3o insigne e portanto t\u00e3o oco. Quem era ele, Johannes Grisebach, para descobrir com m\u00e3o sacr\u00ed\u00adlega que detr\u00e1s da m\u00e1scara n\u00e3o havia ningu\u00e9m? Deixar-lhe as moedas de ouro seria esmola. Retomou-as ao sair.<\/p>\n\n\n\n<p>Paracelso acompanhou-o at\u00e9 ao p\u00e9 da escada e disse-lhe que em sua casa seria sempre bem-vindo. Ambos sabiam que n\u00e3o voltariam a ver-se. Paracelso ficou s\u00f3. Antes de apagar a l\u00e2mpada e de se recostar na velha cadeira de bra\u00e7os, derramou o t\u00eanue punhado de cinza na m\u00e3o c\u00f4ncava e pronunciou uma palavra em voz baixa. <\/p>\n\n\n\n<p>A Rosa ressurgiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resolvi postar um texto que foi enviado internamente pela lista do CIH, e cujo profundo significado deve calar em nossos esp\u00ed\u00adritos. Como considero esse material refer\u00eancia para exemplificar certos ensinamentos, apesar de ser uma cita\u00e7\u00e3o, merece figurar entre o material deste blog, na categoria de instru\u00e7\u00f5es. Em L.L.L.L., Fr. 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