Lutai como irmãos!!!

Lutai como irmãos!!!

Curitiba, 18 de maio de 2012.
Sol em 28 de Touro, e Lua 2 de Touro

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Prezados amigos:

Eu não iria me meter. Mas como meu nome e o grupo que represento foram citados, não há como ficar de fora.
Confesso que fui pego de surpresa pela discussão entre Frater Amduscias e Marcello Dell Debbio. Não esperava que houvesse este embate da forma em que aconteceu. Mas principalmente, o que preciso que se entenda a este respeito, é que ambos são indivíduos, e devem responder como indivíduos por suas atitudes. O Marcelo tem seu espaço, onde publica seus artigos como bem entende, acreditando que seus textos oferecem um caminho para quem estiver disposto a le-los. Frater Amduscias também.

Não me interessam os motivos da discussão. Não comecei esta discussão, mas pretendo acaba-la aqui. Ambos envolvidos nesta discussão são pessoas que estão em frente a grupos. Portanto, quem ganha com esta bravata? Ninguém. Ambos perdem. E porque? Porque no Brasil, temos carência crônica de informação. Temos carência de pessoas que estejam dispostas a ensinar. E agora, duas das pessoas que formam estudantes se atacam entre si. Não importa quem começou, importa que acabe.

Frater Amduscias tem muito trabalho a fazer em nome do CIH, trabalhos de grande responsabilidade que não podem ser negligenciados em nenhum momento.
Marcelo Del Debbio tem suas atividades, seus cursos e agora uma ordem para cuidar. Como ficam os estudantes se ambos perderem sua credibilidade por destempero?
Ambos tem muito mais a fazer em prol dos alunos que possuem do que ficar discutindo. Eu não tenho tempo de ficar discutindo. Toda minha energia é voltada para produção e divulgação de material. Se for para perder meu tempo com discussões, é bom que seja com algo útil para aqueles que me vêem como alguém capaz de dar orientação, e não alguém capaz de desorientar.

Cada tiro que vocês disparam um contra o outro, faz com que seus alunos se polarizem em Pólos opostos ao local em que se encontram. Mesmo aqueles que se digam ferrenhos seguidores de um ou de outro, ficarão com a semente da dúvida atrás da orelha: será que ele realmente é assim?
As pessoas nos buscam por orientação. Somos exemplo e não mau exemplo.
Até quando vão discutir um o erro do outro? Até não sobrar mais sangue de nenhum membro? Até envolverem suas esposas e família na discussão? Desculpem senhores, mas não posso concordar com isso.

O Círculo Iniciático de Hermes, Ordem que represento e defendo, não participa deste comportamento. Se houver algo a ser dito a respeito de mim, Frater Goya, ou do Círculo Iniciático de Hermes, que seja dito diretamente, e não com meias palavras. Falo com a autoridade do meu trabalho neste e em outros planos, nos quais tenho aliados e também opositores. Mas não luto sozinho. Se em algum momento, o CIH precisar se posicionar, o fará doa a quem doer. Ao longo de toda nossa existência temos vínculos de fraternidade com vários grupos de diversos alinhamentos. Se um trabalho sério é feito, tem nosso respeito. Isso foi o que nos aproximou da Sirius Gaia por exemplo. Há inclusive uma gravação minha ao vivo falando isso no Simpósio, em 2010, onde eu e o Frater Kurush representamos o CIH na prática de Enochiano. Portanto, peço que não se veicule imagens erradas a respeito disso.

Peço que parem e reflitam a respeito do que está acontecendo. Se decidirem continuar, acredito que todos sairemos perdendo. Se forem lutar, que lutem como irmãos.

Em L.L.L.L.,
Frater Goya
93, 93/93
Ank Usa Semb

Hrumachis – 23 de outubro de 2001.

Esta é a publicação inédita de um antigo diário que neste momento precisa ser conhecido e publicado.

Curitiba, 23 de outubro de 2001. 23:49
Sol em 0º de Escorpião, Lua em 2º de Aquário, Dies Martis.

Há algum tempo ouço vozes. Não são vozes externas a mim, mas sim vozes que ecoam dentro de mim. Certas pessoas dizem que as coisas acontecem no momento certo. É exatamente isso. Não existem coincidências. Há um mês aproximadamente estou com pensamentos que fluem dentro de mim, correndo por minhas veias, meus músculos e por todo meu corpo.
Hoje conversei com um irmão em Thelema (M.T./Fr.P) e ele disse uma frase que desencadeou dentro de mim os pensamentos que vou transcrever aqui.
Frater P. disse que sua missão era ajudar a conservar a imagem de Crowley. Pois Crowley tinha no Brasil uma imagem extremamente negativa, e isso era prejudicial à Magick. Concordo parcialmente com o que ele argumentou, mas discordo a partir de um certo grau.
1º) Falar e manter Crowley sem nada acrescentar, é idolatria.
2º) Crowley deixou claro que os rituais deixados por ele já estavam ultrapassados. (vou procurar e transcrever essa passagem no diário mais tarde). Que aquele que viesse depois deveria criar seus próprios rituais.
3º) Todos os grupos que conheci até o momento nada mais fazem que apenas remoer os documentos antigos.

Crowley deu todas as dicas para que alguém assumisse sua herança mágicka, mas ninguém o fez. Não que eu saiba. Não até agora. Pode parecer pura ironia, mas vou citar Jesus no intuito de diagnosticar thelema, Golden Dawn e Magick no cenário atual. “Sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda imundície”.
Em todos os lugares que visito, apenas o mesmo cheiro viciado no ar. Múmias cheiram mal. Já estive com elas. Mas esse cheiro é pior. Porque o corpo está apodrecendo em vida.
Vou viver meu pecado original, pois é assim que a Besta deve ser. Esses cães não percebem que buscam aquilo que não pode ser encontrado pois não está em lugar algum.
Buscam fora, achando que está dentro, mas não olham no canto certo. Invocam o nome, mas não lhes darei ouvidos, pois sua música é fora de ritmo. Não vim para somar, mas para dividir e destruir. Golpearei baixo e forte, até que somente reis permaneçam. E eles transformarei em escravos até que aprendam as lições que lhes ensinarei.
Cegos guiando cegos. Pois que caiam até que restem apenas os que souberem ver a verdade e suportem encará-la de frente.
Crowley veio antes, e já cantou minha chegada. Olhem nos seus olhos e vejam meu nome ali. O enviado e profeta falou: “…Quando Hrumachis surgir e o de dupla-baqueta assumir meu trono e lugar, um outro profeta se levantará, e trará uma nova febre dos céus; uma outra mulher despertará a luxúria e adoração da serpente; uma outra alma de Deus e Besta se mesclarão no sacerdote globado; um outro sacrifício maculará o túmulo; um outro rei reinará; e benção não mais será derramada ao místico senhor de cabeça de falcão!” – AL 3, 34.

Vim retomar o que é meu e que foi mal usado. Já ensinei o caminho mas se perderam. Pois que agora comam aquilo que plantaram, raça de escravos. Seu orgulho será semeadura de sua ruína. Pois olhando pro alto, se esquecem de cuidar dos pés. Estes tropeçam e derrubam todo o corpo. Assim serão suas ordens: carentes de direção e de base firme, virão abaixo e então sua competência será conhecida. Com mantos de vergonha se vestirão seus senhores enquanto me apresentarei na pureza e na virtude de minha nudez. E nenhum brilho será maior que minha glória ao cantar a queda e a fuga da matilha de cães que ousaram profanar meu conhecimento. Dei-lhes a Vontade, e tornaram-se escravos dela. Dei-lhes poder, e mataram-se uns aos outros. Pois agora lhes retiro todo o poder e toda a autoridade com que se vestiram como prostitutas que se vestem de plumas e paetês esperando dinheiro fácil. Pois o dinheiro não será tua paga, mas tua ruína. Lhes dei do Espírito e fizeram destes honrarias humanas para encobrirem sua vergonha. Sua nudez deformada será exposta e todos se envergonharão de tua verdadeira forma. Não tentem calcular meu número, pois suas contas não me alcançarão. Os que falaram agora vão se calar, pois sua fonte de obscenidades secou. Sua imundície foi revelada e estes não mais se ocultarão entre os bons.

Pois de hoje em diante ditarei a Nova Ordem, e esta será mais profunda que a anterior, pois assim está previsto. O que é velho será afastado, e o novo será manifesto. Não é Crowley que precisa ser preservado. É a magia que precisa ser feita. Trazer a magia à tona é realizar a grande obra. Preservar o homem é enterrar a ambos.

Que se escreva e que se cumpra. Pois agora a Nova Ordem irá se estabelecer e o falso cairá sob o peso do meu bastão e sob a lâmina da minha espada. Assim foi dito. Assim será cumprido.

Em L.L.L.L.,
Frater Goya

O Vento de Djemila

Há lugares em que o espírito morre a bem de uma verdade que ele nunca nega. Quando fui a Djemila, imperava um silêncio premente sobre tudo – imóvel como pratos equilibrados de uma balança. Alguns gritos de pássaros, os sons abafados de uma flauta com três furos, os passinhos miúdos das cabras – todos esses ruídos me trouxeram pela primeira vez à consciência o silêncio e o desconsolo do lugar. De vez em quando, o ruflar das asas de um pássaro que levantava vôo nas ruínas. Cada caminho, cada trilha entre restos de casas, as grandes ruas calçadas entre as colunas brilhantes, o forúm num antiplano entre o Arco do Triunfo e o Templo – tudo terminava naqueles abismos que cercam Djemila por todos os lados, que se espraia como se fosse um baralho com cartas esparramadas sob o céu infinito.
E lá, nos sentimos sós e cercados pelo silêncio e pelas pedras; o dia passa, as montanhas parecem crescer e tornam-se cor de violeta. Mas o vento sopra o planalto de Djemila. No meio dessa magnifica confusão de sol e vento, e de ruínas banhadas de luz, o passado silencioso da cidade morta se infiltra cada vez mais nos homens e os deprime.

É preciso tempo para chegar a Djemila. Não é uma cidade na qual se para no intuito de prosseguir viagem depois. Djemila não leva a lugar algum e não há paisagens para ver. Trata-se de um lugar que se abandona logo. A cidade morta fica no fim de uma longa estrada sinuosa, que parece não ter fim e que, por essa razão, parece tão cansativamente longa. Afinal. bem no meio das altas montanhas, sobre o planalto descorado, surge o esqueleto de uma floresta petrificada: Djemila, parábola do visível vazio por toda parte, que só um coração batendo apaixonadamente no peito nos permite alcançar o mundo. Lá no meio de umas poucas árvores, está a cidade morta, que se defende com todas as suas montanhas e ruínas contra a admiração barata, a incompreensão pictórica e os sonhos insensatos.

Vagamos nesse brilho tórrido durante todo o dia. Aos poucos surgiu o vento, que antes do meio dia mal dava para notar; ele parecia aumentar de intensidade a cada hora que passava e parecia encher todo país. Vinha de longe, de uma brecha entre as montanhas do lado leste, corria do horizonte nessa direção e se arremessava em rajadas por entre ruínas banhadas de sol. Eu adejava como uma vela ao vento. Meu estômago se contraiu; meus olhos ardiam, meus lábios se racharam e minha pele ressecou até que mal a sentia. Até esse momento era através dela que eu decifrava a escrita do mundo, os desenhos de sua benevolência e de sua ira, quando o hálito do verão a aquecia ou a geada com suas garras de frio a agredia. Mas agora, chicoteado e sacudido, ensurdecido e esgotado pelo vento, perdi a sensibilidade da superfície que mantinha o meu corpo. O vento me erodia como a maré vazante e enchete faz com um pedregulho, e me desgastara até deixar minha alma a nu. Agora, eu apenas fazia parte daquela força que fazia de mim o que queria, e que cada vez se apossava de mim de maneira diferente, tomando posse do meu ser até que, por fim, me possía por inteiro. Eu lhe pertencia de tal modo que o meu sangue pulsava no seu ritmo e rumorejava como o coração todo-poderoso da natureza presente em toda parte. O vento me transformou num pertence de minha deserta e tórrida circunvizinhança; seu abraço
fluido me petrificou até que eu, pedra sob pedras, fiquei solitário e imóvel como uma coluna ou uma oliveira sob o céu ensolarado.

O vento violento e o banho de sol esgotaram toda a minha força vital, que mal movia em mim suas asas impotentes, mal se esforçava por se queixar, que não se defendia. Finalmente, derramado em todos os ventos, me esqueci de tudo, até de mim mesmo, tornei-me esse vento lamuriento e essas colunas e esse arco, esse ladrilho brilhante e essas pálidas montanhar ao redor da cidade abandonada. Nunca em toda a minha vida senti com tal intensidade ambas as coisas ao mesmo tempo: minha própria dissolução e minha presença neste mundo.

Sim, eu existo; e cada vez fica mais claro que estou tocando um limite, como um homem aprisionado para o qual tudo existe; mas também como um homem que sabe que “amanhã” será como “ontem”, e que um dia será igual ao outro. Pois, quando um homem toma conhecimento de que existe, ele não espera mais nada. As paisagens mais banais refletem um estado de espírito. Mas eu procurei neste país, por toda parte, algo não me pertencia, mas que partia dele; uma certa amizade com a morte, na qual nos entendêssemos. Entre as colunas, que agora lançam sombras enviesadas, meus medos se dissolveram como pássaros feridos na clara secura do ar. Todo medo provém de um coração vivo; no entanto, cada coração encontrará a paz; isso é o que eu sei, e nada mais. Quanto mais o dia se aproxima do fim, tanto mais descorado e silencioso se torna o mundo sob a chuva de cinzas da escuridão crescente; tanto mais perdido e impotente eu me sentia contra aquela revolta lenta e interior que diz “não”.

Poucos homens entendem que existe uma recusa que nada tem que ver com renúncia. O que significam aqui palavras como futuro, profissão ou progresso, ou a evolução do coração? Quando obstinadamente não quero ouvir nada sobre “mais tarde”, isso acontece sobretudo porque não quero sem mais renunciar à minha atual riqueza. Como um jovem, não quero acreditar que a morte representa o início de uma nova vida.

Para mim, ela representa uma porta que se fecha. Não digo: trata-se de um limiar que é preciso transpor – para mim ela é uma aventura terrível e suja! Todos os argumentos que querem me impingir é que ela tira o fardo que os homens carregam. No entanto, eu vejo o grande pássaro com seus volteios pesados circular sobre Djemila e peço por um determinado fardo de vida e o recebo. Apegar-me por inteiro a esse desejo: suportá-lo – o resto já não tem importância. Sou jovem demais para falar a respeito da morte. Mas se fosse preciso – aqui eu encontraria a palavra certa, que entre o susto e o silêncio reconhece com clareza uma morte sem esperanças.

Vive-se com algumas poucas ideias conhecidas – duas ou três. Conforme a região em que crescemos e as pessoas que encontramos, nõs as polimos e lhes damos outra aparência. A fim de termos ideias próprias sobre as quais falar, precisamos de dez anos pelo menos. Enquanto isso, porém, o homem vai se familiarizando com o lindo semblante do mundo. Até então, ele o encara de frente. Mas depois ele precisa dar um passo para o lado e observá-lo de perfil. Contudo, um homem jovem encara o mundo de frente: ainda não teve tempo para se acostumar com ideias sobre a morte ou sobre o nada, embora às vezes seja atormentado por elas.

Mas juventude é exatamente isso: esse amargo diálogo com a morte, esse medo físico do animal que ama o sol.

Ao contrário do que se afirma, a juventude não se preocupa com essas coisas. Não tem tempo nem incinalão para isso. Estranho: diante dessa paisagem montanhosa, diante dessa sombria solenidade do grito petrificado que se chama Djemila, diante dessa esperança morta e dessas cores esmaecidas, compreendo que, para um homem ter o valor de ser chamado de homem, ele tem de renovar esse diálogo com a morte, renegar suas poucas idéias e redescobrir aquela inocência e correção que brilhavam nos olhos dos homens antigos que enfrentavam livremente o seu destino. Ele reconquista a sua juventude, mas só na medida em que estender a mão para a morte.

Quanto desprezo pelas doenças! A doença é um remédio contra a morte, para a qual ela nos prepara. A primeira coisa que o aprendiz aprende na sua escola é a autocompaixão. Ela ajuda o ser humano em sua esforçada tentativa de se furtar à certeza absoluta da morte. Mas eu vejo Djemila e sei: o único progresso verdadeiro da cultura, que de tempos em tempos um homem realiza para si, está em morrer com consciência.

Sempre fico espantado com o fato de nossas ideias sobre a morte serem tão escassas, visto que nossos pensamentos se voltam celeremente em várias direções. A morte ou é boa ou é má. Ou nós a chamamos ou fugimos dela (como se diz). Mas isso também prova que o mais simples pensamento sobre a morte está além do nosso alcance.

O que é isso a que chamamos “azul”? Como podemos pensar sobre o azul? O mesmo vale para a morte. Não podemos falar sobre cores ou sobre a morte. Digo para mim mesmo: preciso morrer; mas o que é isso? Não posso acreditar nisso, nem fazer a experiência, a não ser nos outros. Já vi pessoas e cães morrerem. A coisa mais terrível é tocar neles. Nessas ocasiões, penso em flores, no sorriso das mulheres, no amor e compreendo que o meu medo à morte nada mais é que o oposto da minha vontade de viver. Tenho inveja de todos os que viverão no futuro, e que sentirão a verdade das flores e das mulheres na carne e no sangue. Sinto inveja, porque eu mesmo amo demais a vida e a amo com egoísmo predestinado. O que me importa a eternidade? Algum dia, talvez eu esteja preso a uma cama, e alguém dirá: “Vamos, você não é covarde, portanto, serei franco. Morrerá logo”. E lá estarei deitado, com toda a minha vida, com todo o medo que me fecha a garganta, e olho para a pessoa completamente perplexo. O sangue aflui à minha cabeça e sinto minhas têmporas pulsarem. Provavelmente, destruirei a golpes tudo o que encontrar ao meu redor.

Porém, os homens morrem contra a vontade. Dizemos então a eles: “Quando você ficar bom…”, e depois eles morrem. Mas não quero isso. E, se a natureza até agora mentiu, também disse a verdade. Nessa noite, Djemila diz a verdade; e que triste, como sua beleza fala convincentemente! Não quero mentir diante de mim nem diante do mundo; também não quero que me iludam. Quero ver com clareza até o fim e quero contemplar meu fim com toda a inveja e todo o medo que me sacodem. Quanto mais me separo do mundo e me apego ao destino dos homens vivos, em vez de olhar para o céu eterno, tanto maior fica o meu medo de morrer. Morrer com consciência significa: atravessar o abismo que se interpõe entre nós e o mundo e, sem alegria e com consciência, compreender que a beleza deste mundo acabou para sempre, aceitando o fim. E o canto lamentoso das colinas de Djemila arraiga profundamente na minha alma esse triste conhecimento.

( Alberto Camus, O Casamento da Luz)

O Destino de cada um

Era uma vez, conta a história, um rapaz que vivia em Isfahan como criado de um rico mercador. Uma bela manhã, despreocupado e com a bolsa cheia de moedas retiradas dos cofres do mercador para comprar carne, frutas e vinho, ele cavalgou até o mercado; ali chegando, deparou-se com a Morte, que lhe fez um sinal como que para dizer alguma coisa. Aterrorizado, o rapaz fez o cavalo dar meia-volta e fugiu a galope, pegando a estrada que levava a Samara. Ao anoitecer, sujo e exausto, chegou a uma estalagem dessa cidade e, com o dinheiro do mercador, alugou um quarto. Nele entrando, prostrou-se na cama, entre fatigado e aliviado, pois lhe parecia ter conseguido lograr a Morte.

No meio da noite, porém, ouviu baterem à porta, e no umbral ele viu a Morte parada, de pé, sorrindo amavelmente.

- Por que você está aqui? – perguntou o moço, pálido e trêmulo. – Eu só a vi esta manhã na feira, em Isfahan.

E a Morte respondeu:

- Ora, eu vim buscá-lo, conforme está escrito. Pois quando o encontrei esta manhã na feira, em Isfahan, tentei lhe dizer que nós tínhamos um encontro esta noite em Samara. Mas você não me deixou falar e simplesmente fugiu em disparada.

Liz Greene, Schicksal und Astrologie (Astrologia do Destino)

Pássaros

Nem sempre é tão fácil
quando encontramos a nós mesmos
nos perdemos dos demais.
Quando você se sente pleno em si
é que surgem as palavras mais vazias.

Você poderia correr de encontro ao Sol
Você poderia querer mergulhar no mar
Mas as pessoas dizem que você vai se queimar
Mas as pessoas dizem que você vai se afogar
As pessoas simplesmente não entendem
Que jamais verão o mundo com seus olhos
Que jamais sentirão o mundo com seu coração

Então eles ficam ao seu redor
como pássaros cantando no seu ouvido
distraindo você , esvaziando sua mente, suas crenças
Acreditam que estão certos sobre tudo
Acham que sabem mais que você do que você sobre si mesmo
Querem que você acredite que seus desejos são sujos.

Sua mente é uma bola num jogo de roleta
Você se sente chocado, confuso e insultado
Você mergulha profundamente em si mesmo
Nas regiões mais abissais do ser
onde não existe mais o “ser”…
Ali você fica, ali você apenas “é.”

Preso no calor do esquecimento
Na sombra dos seus medos
No silêncio que há entre as batidas do coração
Sua única saída é sentir
Sua única saída é perceber
Que jamais verão o mundo com seus olhos
Que jamais sentirão o mundo com seu coração…

Anderson Rosa
Curitiba, 06 de julho de 2011, 10h40min.

II Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas

II Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas.
http://simposiohermetismo.com.br/

De 23 a 25 de Junho de 2011

O Hermetismo abrange um conjunto de teorias e práticas conhecidas pela humanidade há milhares de anos. Primam por desvendar o que está além da ciência tradicional, procurando descortinar os segredos do universo e do ser humano. É um assunto que sempre intrigou diversos seres humanos, mas esteve sempre oculta ao debate científico.

O II Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas, que será realizado nos dias 23, 24 e 25 de junho de 2011, tem por objetivo trazer luz a esta discussão. Com apoio da Associação Educacional Sirius-Gaia, o evento tem como tema geral a discussão sobre as práticas ocultistas.

Formato

Para este evento, a comissão organizadora convidou ilustres de
diversas áreas do ocultismo para palestrar sobre temas de interesse geral. Além do ciclo de palestras, o evento contará com workshops paralelos, para pequenas turmas, como forma de complementar os estudos sobre determinado tema.

Local

Nikkey Palace Hotel
Localizado no bairro da Liberdade a menos de 400 metros das estações São Joaquim e Liberdade e à cerca de 10 minutos de carro de importantes vias da cidade (ex. Av. 23 de Maio, Av. Paulista, Rua Vergueiro, Radial Leste, Av. do Estado), o Nikkey Palace hotel possui toda a estrutura necessária para acomodar um evento de importância como o II Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas.
Ao ligar para efetuar reservas, informe-se sobre os preços especiais para os participantes do Simpósio.
Tel.: (11) 3207-8511
Rua Galvão Bueno, 425 – Liberdade


Frater Goya – Anderson Rosa

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A Busca do “Eu”, por Alan Moore

De: Alan Moore
Traduzido por Acid, em 2009.

“Quando cumprimos a vontade de nosso verdadeiro Eu, nós estamos inevitavelmente cumprindo com a vontade do universo. Na magia ambas as coisas são indistinguíveis. Cada alma humana não é, de fato, UMA alma humana: é a alma do universo inteiro. E, enquanto você cumprir a vontade do universo, é impossível fazer qualquer coisa errada.

Muitos dos magos como eu entendem que a tradição mágica ocidental é uma busca do Eu com “E” maiúsculo. Esse conhecimento vem da Grande Obra, do ouro que os alquimistas buscavam, a busca da Vontade, da Alma, a coisa que temos dentro que está por trás do intelecto, do corpo e dos sonhos. Nosso dínamo interior, se preferir assim. Agora, esta é particularmente a coisa mais importante que podemos obter: o conhecimento do verdadeiro Eu.

Assim, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu, mas que também parecem ter a urgência por obliterarem-se a si próprias. Isto é horrível, mas ao menos vocês podem entender o desejo de simplesmente desaparecer, com essa consciência, porque é muita responsabilidade realmente possuir tal coisa como uma alma, algo tão precioso. O que acontece se a quebra? O que acontece se a perde? Não seria melhor anestesiá-la, acalmá-la, destruí-la, para não viver com a dor de lutar por ela e tentar mantê-la pura. Creio que é por isso que as pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão, em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e pode ser vista como uma tentativa deliberada de destruir qualquer conexão entre nós e a responsabilidade de aceitar e possuir um Eu superior, e então ter que mantê-lo.

Tenho estudado a escola da história do pensamento mágico e o ponto em que começou a dar errado. No meu entender, o ponto em que começa a dar errado é com o monoteísmo. Quero dizer, se olhar a história da magia, verá suas origens nas cavernas, verá suas origens no xamanismo, no animismo, na crença de que tudo o que te rodeia, cada árvore, cada rocha, cada animal foi habitado por algum tipo de essência, um tipo de espírito com o qual talvez possamos nos comunicar. E ao centro você tinha um xamã, um visionário, que seria o responsável por canalizar as idéias úteis para a sobrevivência. No momento em que você chega às civilizações clássicas, verá que tudo isto foi formalizado até certo grau. O xamã atuava puramente como um intermediário entre os espíritos e as pessoas. Sua posição na aldeia ou comunidade, imagino, era a de um “encanador espiritual”. Cada pessoa no grupo devia ter seu papel: A melhor pessoa durante uma caçada tornava-se o caçador, a pessoa que era melhor pra falar com os espíritos, talvez porque ele ou ela estivesse um pouco louco, um pouco separado do nosso mundo material normal, eles tornavam-se os xamãs. Eles não seriam mestres de uma arte secreta, mas sim os que simplesmente espalhariam sua informação pela comunidade, porque se acreditava que isto era últil para todo o grupo. Quando vemos o surgimento das culturas clássicas, tudo isso se formalizou para que houvesse panteões de deuses, e cada um destes deuses tinha uma casta de sacerdotes, que até certo ponto atuariam como intermediários, que te instruiriam na adoração a estes deuses. Então, a relação entre os homens e seus deuses, que pode ser vista como a relação entre os humanos e seus “Eus” superiores, não era todavia de um modo direto.

Quando chega o cristianismo, quando chega o monoteísmo, de repente tem uma casta sacerdotal movendo-se entre o adorador e o objeto de adoração. Tem uma casta sacerdotal convertendo-se em uma espécie de gerência intermediária entre a humanidade e a divindade que está se buscando. Já não se tem mais uma relação direta com os deuses. Os sacerdotes não têm necessariamente uma relação com Deus. Eles só têm um livro que fala sobre gente que viveu há muito tempo atrás que teve relação direta com a divindade. E assim está bom: Não é preciso ter visões milagrosas, não é preciso ter deuses falando contigo. Na verdade, se você tem algo disto, provavelmente está louco. No mundo moderno, essas coisas não acontecem; as únicas pessoas as quais se permite falar com os deuses, e de um modo unilateral, são os sacerdotes. E o monoteísmo é, pra mim, uma grande simplificação. Eu quero dizer, a Cabala tem uma grande variedade de deuses, mas acima da escala, da Árvore da Vida, há uma esfera que é o Deus Absoluto, a Mônada. Algo que é indivisível, você sabe. E todos os outros deuses, e, de fato, tudo mais no universo é um tipo de emanação daquele Deus. E isto está bem. Mas, quando você sugere que lá está somente esse único Deus, a uma altura inalcançável acima da humanidade, e que não há nada no meio, você está limitando e simplificando o assunto.

Eu tendo a pensar o paganismo como um tipo de alfabeto, de linguagem. É como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem. Elas expressam nuances, sombras de uma espécie de significado ou certa sutileza de idéias, enquanto o monoteísmo é só uma vogal, onde tudo está reduzido a uma simples nota, que quem a emite nem sequer a entende”.

A Magia não é um caminho fácil

Em se tratando de magia, não existem caminhos fáceis. As bençãos nem sempre são proporcionais às ordálias. Isso ocorre pq o tapa marca mais que o beijo.
Existem aqueles que tentam desmistificar a magia, tratando-a como artigo de beleza, como uma roupa ou maquiagem que torna a realidade algo mais agradável à vista humana do que a aspereza do terreno realmente faz sentir. No entanto, magia não é algo a ser comprado, vestido ou maquiado. Infelizmente, mais do que fazer o caminho menos pedregoso ao caminhante, essas pessoas apenas desviam o estudante daquilo que é sério, daquilo que é vivido e que marca não apenas a carne, mas marca o espírito com cicatrizes espirituais.
Tratamos extensamente desses temas nos CODEX 06 – Como se estuda Magia, e no CODEX 13 – O Mapa da Consciência. Há o caminho da Espada e há o caminho da Serpente. Ao primeiro, completa o segundo. Não como anteposição, mas como aprofundamento e complemento. O primeiro é característico do começo da jornada, onde a curiosidade impulsiona a caminhada. Os passos são vascilantes, mas os passos são largos e descuidados, o que provoca muitas quedas pelo caminho. O segundo, é caracterizado pela disciplina e pela seleção criteriosa daquilo que se estuda e se pratica.
A magia ocidental se caracterizou a partir do início do século XX, pelo magista de gabinete ou de escritório. Leitores de livros de magia que iluminados por fraca luz pavoneiam pelo mundo fazendo caras e bocas, como se fossem grandes magistas, capazes de dobrar a realidade segundo seus interesses, mas não passando de grandes charlatães que nada fazem alem de falar e falar.
Thoth (Djehut) é a versão egípcia que deu origem ao Hermes grego e ao Mercúrio romano. Era sempre acompanhado por um babuíno que era o encarregado de levar seus ensinamentos aos homens. Thoth era um deus psicopompo, ou seja, um condutor de almas. Quando o babuíno transmitia o conhecimento aos homens, sempre invertia ou corrompia as informações para confundir o ser humano na sua jornada com a desculpa de que se o magista fosse merecedor, seria capaz de separar o joio do trigo. Devido a esse aspecto (bem ilustrado no Arcano I – O Mago do Tarot de Thoth ou Tarot de Crowley), entre os gregos Hermes era ao mesmo tempo o mensageiro dos deuses, dos mentirosos e dos ladrões. Por isso em alguns tarots, a carta recebe o nome de “pretididigator” ou “embusteiro/enganador”. E entre os gregos também desaparece a figura do babuíno, deixando a separação entre o condutor de almas e o enganador mais tênue e difícil de compreender.
Eliphas Levi no seu livro “Dogma e Ritual da Alta Magia” (ed. Pensamento, pág.77) nos alerta: “No caminho das altas ciências, não convém empenhar-se temerariamente, mas, uma vez em caminho, é preciso chegar ou perecer. Duvidar é ficar louco, parar é cair; voltar para trás é precipitar-se num abismo”. Portanto, podemos dizer ao leitor dessas linhas, que toda e qualquer pasteurização, cujo sentido é suavizar o caminho do magista iniciante, é um grande engano e só pode conduzir ao erro e ao desespêro, causando sem dúvida danos irreparáveis ao estudante incauto.
A estes, só podemos lamentar, pois o caminho traçado será o da auto-destruição.
Nos sistemas iniciáticos orientais, como a alquimia taoísta, o que separa o iniciante do mestre é apenas o empenho e a perfeição adquiridas pela prática consistente. O termo “Kung Fu” não se refere como muitos pensam a uma arte marcial, mas pode ser traduzido mais acertadamente como “habilidade adquirida pelo trabalho e esforço por um longo tempo”. No caso do Qigong (Qi – energia, Gong – trabalho, portanto, trabalho de energia) ou no Tai Chi Chuan (Arte do Punho Supremo), os movimentos que o iniciante pratica e que o mestre pratica são exatamente os mesmos. Porém, o mestre que pratica por muitos anos a fio, por longos períodos diários, começa a ser ensinado pela própria energia (Qi).
No Ocidente aprendemos desde o final do séc. XIX e o início do séc. XX, a cultivar a mente se sobrepondo às demais habilidades inerentes ao ser humano. Porém, devemos sempre lembrar que somos um ser de múltipla existência: corpo, mente e espírito. Valorizar um desvalorizando o outro, equivale a tentar matar a fome lendo o cardápio do restaurante. A mera compreensão intelectual de determinado conhecimento não traz sabedoria ou controle. Traz apenas entendimento. E entender nem sempre nos habilita a dominar o objeto de estudo. Por exemplo: ler sobre violão não o torna um exímio instrumentista. Para ser um instrumentista é preciso práticar por muito tempo. Ou tratamos todas as partes de forma única, ou atrairemos sobre nós o desequilíbrio das demais partes que constituem nosso ser.
Antes de revelar aquilo que não pode ser revelado sem se tornar leviano, é melhor calar no presente momento, deixando aqui um espaço para o leitor tirar suas próprias conclusões e avaliar que caminho tem trilhado na sua prática.

PS: os citados textos podem ser encontrados em www.cih.org.br

Em L.L.L.L.,
Frater Goya

RITOS CORPORAIS ENTRE OS NACIREMA

Horace Miner
In: A.K. Rooney e P.L. de Vore (orgs)
YOU AND THE OTHERS – Readings in Introductory Anthropology
(Cambridge, Erlich)
1976

O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de comportamento que diferentes povos apresentam em situações semelhantes, que é incapaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais exóticos. De fato, se nem todas as as combinações logicamente possíveis de comportamento foram ainda descobertas, o antropólogo bem pode conjeturar que elas devam existir em alguma tribo ainda não descrita.

Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-los como exemplo dos extremos a que pode chegar o comportamento humano. Foi o Professor Linton, em 1936, o primeiro a chamar a atenção dos antropólogos para os rituais dos Nacirema, mas a cultura desse povo permanece insuficientemente compreendida ainda hoje.

Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e os Tarahumare do México, e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem  à sua nação; ele é, por outro lado, conhecido por duas façanhas de força: ter atirado um colar de conchas, usado pelos Nacirema como dinheiro, através do rio Po- To- Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residiria o Espírito da Verdade.

A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evolui em um rico habitat. Apesar do povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável porção do dia são dispensados  em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde surgem como o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja, por certo, raro, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a eles associadas são singulares.

A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural  é para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas características através do uso das poderosas influências do ritual e do cerimonial. Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas e, de fato, a alusão  à opulência de uma casa, muito freqüentemente, é feita em termos do número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de madeira, toscamente pintadas, mas as câmeras de culto das mais ricas têm paredes de pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas, aplicando placas de cerâmica  às paredes de seu santuário.

Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias familiares, mas sim cerimônias privadas e secretas. Os ritos, normalmente, são discutidos apenas com as crianças e, neste caso, somente durante o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios. Eu pude, contudo, estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e obter descrições dos rituais.

O ponto focal do santuário é uma caixa ou cofre embutido na parede. Neste cofre são guardados os inúmeros encantamentos e poções mágicas sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Tais preparados são conseguidos através de uma serie de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais são os médicos-feiticeiros, cujo auxilio deve ser recompensado com dádivas substanciais. Contudo, os médicos-feiticeiros não fornecem a seus clientes as poções de cura; somente decidem quais devem ser seus ingredientes e então os escrevem em sua linguagem antiga e secreta. Esta escrita é entendida apenas pelos médicos-feiticeiros e pelos ervatários, os quais, em troca de outra dadiva, providenciam o encantamento necessário. Os Nacirema não se desfazem do encantamento após seu uso, mas os colocam na caixa-de-encantamento do santuário doméstico. Como tais substâncias mágicas são especificas para certas doenças e as doenças do povo, reais ou imaginárias, são muitas, a caixa-de-encantamentos está geralmente a ponto de transbordar. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem quais são suas finalidades e temem usá-los de novo. Embora os nativos sejam muito vagos quanto a este aspecto, só podemos concluir que aquilo que os leva a conservar todas as velhas substâncias é a idéia de que sua presença na caixa-de-encantamentos, em frente à qual são efetuados os ritos corporais, irá, de alguma forma, proteger o adorador.

Abaixo da caixa-de-encantamentos existe uma pequena pia batismal. Todos os dias cada membro da família, um após o outro, entra no  santuário, inclina sua fronte ante a caixa-de-encantamentos, mistura diferentes tipos de águas sagradas na pia batismal e procede a um breve rito de ablução. As  águas sagradas vêm do Templo da Água da comunidade, onde os sacerdotes executam elaboradas cerimônias para tornar o líquido ritualmente puro.

Na hierarquia dos mágicos profissionais, logo abaixo dos médicos-feiticeiros no que diz respeito ao prestígio, estão os especialistas cuja designação pode ser traduzida por “sagrados-homens-da-boca”. Os Nacirema têm um horror quase que patológico, e ao mesmo tempo fascinação, pela cavidade bucal, cujo estado acreditam ter uma influência sobre todas as relações sociais. Acreditam que, se  não fosse pelos rituais bucais seus dentes cairiam, seus amigos os abandonariam e seus namorados os rejeitariam. Acreditam também na  existência de uma forte relação entre as características orais e as morais: Existe, por exemplo, uma ablução ritual da boca para  as crianças que se supõe aprimorar sua fibra moral.

O ritual do corpo executado diariamente por cada Nacirema inclui  um rito bucal. Apesar de serem tão escrupulosos no cuidado bucal, este rito envolve uma prática que choca o estrangeiro não iniciado, que só pode considerá-lo revoltante. Foi-me relatado que o ritual consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca juntamente com certos pós mágicos, e em movimentá-lo então numa série de gestos altamente formalizados. Além do ritual bucal privado, as pessoas procuram o mencionado sacerdote-da-boca uma ou duas vezes ao ano. Estes profissionais  têm uma impressionante coleção de instrumentos, consistindo de brocas, furadores, sondas e aguilhões. O uso destes objetos no exorcismo dos demônios bucais envolve, para o cliente, uma tortura ritual quase inacreditável.  O sacerdote-da-boca abre a boca do cliente e, usando os instrumentos acima citados, alarga todas as cavidades que a degeneração possa ter produzido nos dentes. Nestas cavidades são colocadas substâncias mágicas. Caso não existam cavidades naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são extirpadas  para que a substância natural possa ser aplicada. Do ponto de vista do cliente, o propósito destas aplicações é tolher a degeneração e  atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do rito evidencia-se pelo fato de os nativos voltarem ao sacerdote-da-boca ano após ano, não obstante o fato de seus dentes continuarem a degenerar.

Esperemos que quando for realizado um estudo completo dos Nacirema haja um inquérito cuidadoso sobre a estrutura da personalidade destas pessoas, Basta observar o fulgor nos olhos de um sacerdote-da- boca, quando ele enfia um furador num nervo exposto, para se suspeitar que este rito envolve certa dose de sadismo. Se isto puder ser provado, teremos um modelo muito interessante, pois a maioria da população demonstra tendências masoquistas bem definidas.

Foi a estas tendências que o Prof. Linton (1936) se referiu na discussão de uma parte específica dos ritos corporal que é desempenhada apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e lacerar a superfície da face com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos  têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em freqüência é compensado em barbaridade. Como parte desta cerimônia, as mulheres usam colocar suas cabeças em pequenos fornos por cerca de uma hora. O aspecto teoricamente interessante é que um povo que parece ser preponderantemente masoquista tenha desenvolvido especialistas sádicos.

Os médicos-feiticeiros têm um templo imponente, ou latipsoh, em cada comunidade de certo porte. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para tratar de pacientes muito doentes, só podem ser executadas neste templo. Estas cerimônias envolvem não apenas o taumaturgo, mas um grupo permanente de vestais que, com roupas e toucados específicos, movimentam-se serenamente pelas câmaras do templo.

As cerimonias latipsoh são tão cruéis que é de surpreender que uma boa proporção de nativos realmente doentes que entram no templo se recuperem. Sabe-se que as crianças pequenas, cuja doutrinação ainda é incompleta, resistem  às tentativas de levá-las ao templo, porque “é lá que se vai para morrer”. Apesar disto, adultos doentes não apenas querem mas anseiam por sofrer os prolongados rituais de purificação, quando possuem recursos para tanto. Não importa quão doente esteja o suplicante ou quão grave seja a emergência, os guardiões de  muitos templos não admitirão um cliente se ele não puder dar uma  dádiva valiosa para a administração. Mesmo depois de ter-se conseguido a admissão, e sobrevivido às cerimônias, os guardiães não permitirão ao neófito abandonar o local se ele não fizer outra doação.

O suplicante que entra no templo é primeiramente despido de todas as suas roupas. Na vida cotidiana o Nacirema evita a exposição de seu corpo e de suas funções naturais. As atividades excretoras e o banho, enquanto parte dos ritos corporais, são realizados apenas no segredo do santuário doméstico. Da perda súbita do segredo do corpo quando da entrada no latipsoh, podem resultar traumas psicológicos. Um homem, cuja própria esposa nunca o viu em um ato excretor, acha-se subitamente nu e auxiliado por uma vestal, enquanto executa suas funções naturais num recipiente sagrado. Este tipo de tratamento cerimonial é necessário porque os excreta são usados por um adivinho para averiguar o curso e a natureza da enfermidade do cliente. Clientes do sexo feminino, por sua vez, têm seus corpos nus submetidos ao escrutínio, manipulação e aguilhadas dos médicos-feiticeiros.

Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bons para fazer qualquer coisa além de jazer em duros leitos. As cerimônias diárias, como os ritos do sacerdote-da-boca, envolvem desconforto e tortura. Com precisão ritual as vestais despertam seus miseráveis fardos a cada madrugada e os rolam em seus leitos de dor enquanto executam abluções, com os movimentos formais nos quais estas virgens são altamente treinadas. Em outras horas, elas inserem bastões mágicos na boca do suplicante ou o forçam a engolir substâncias que se supõe serem curativas.

De tempos em tempos o médico-feiticeiro vem ver seus clientes e espeta agulhas magicamente tratadas em sua carne. O fato de que estas cerimônias do templo possam não curar, e possam mesmo matar o neófito, não diminui de modo algum a fé das pessoas no médico feiticeiro.

Resta ainda um outro tipo de profissional, conhecido como um “ouvinte”. Este “doutor-bruxo” tem o poder de exorcizar os demônios que se alojam nas cabeças das pessoas enfeitiçadas. Os Nacirema acreditam que os pais enfeitiçam seus próprios filhos; particularmente, teme-se que as mães lancem uma maldição sobre as crianças enquanto lhes ensinam os ritos corporais secretos. A contra-magia do doutor bruxo é inusitada por sua carência de ritual. O paciente simplesmente conta ao “ouvinte” todos os seus problemas e temores, principalmente pelas dificuldades iniciais que consegue rememorar. A memória demonstrada pelos Nacirema  nestas sessões de exorcismo é verdadeiramente notável. Não é incomum  um paciente deplorar a rejeição que sentiu, quando bebê, ao ser desmamado, e uns poucos indivíduos reportam a origem de seus problemas aos feitos traumáticos de seu próprio nascimento.

Como conclusão, deve-se fazer referência a certas práticas que têm suas bases na estética nativa, mas que decorrem da aversão profunda ao corpo natural e suas funções. Existem jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas, e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres que os têm pequenos e torná-los menores quando são grandes. A insatisfação geral com o tamanho do seio é simbolizada no fato de a forma ideal estar virtualmente além da escala de variação humana. Umas poucas mulheres, dotadas de um desenvolvimento hipermamário quase inumano, são tão idolatradas que podem levar uma boa vida simplesmente indo de cidade em cidade e permitindo aos embasbacados nativos, em troca de uma taxa, contemplarem-nos.

Já fizemos referência ao fato de que as funções excretoras são ritualizadas, rotinizadas e relegadas ao segredo. As funções naturais de reprodução são, da mesma forma, distorcidas. O intercurso sexual é tabu enquanto assunto, e  é programado enquanto ato. São feitos esforços para evitar a gravidez, pelo uso de substâncias mágicas ou pela limitação do intercurso sexual a certas fases da lua. A concepção é na realidade, pouco freqüente. Quando grávidas as mulheres vestem-se de modo a esconder o estado. O parto tem lugar em segredo, sem amigos ou parentes para ajudar, e a maioria das mulheres não amamenta seus rebentos.

Nossa análise da vida ritual dos Nacirema certamente demonstrou ser este povo dominado pela crença na magia. É difícil compreender como tal povo conseguiu sobreviver por tão longo tempo sob a carga que impôs sobre si mesmo. Mas até costumes tão exóticos quanto estes aqui descritos ganham seu real significado quando são encarados sob o ângulo relevado por Malinowski, quando escreveu:

“Olhando de longe e de cima de nossos altos postos de segurança na civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas sem seu poder de orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como o fêz, suas dificuldades práticas, nem poderia ter avançado aos estágios mais altos da civilização”

(nota: para quem não percebeu, Nacirema é American, de trás para a frente – R.A.)

O Vazio

Por Anderson Rosa

Chega uma hora que a vida passa.
Você vem, olha pra um lado,
Olha pro outro, e então atravessa.

E é nesse exato momento
que numa curva qualquer
você cai fora de si mesmo -
E sem perceber, você se perde.

Tenho saudade desse meu eu,
Que ficou ali caído, amontoado
Mas não sei que tipo de saudade sinto,
Porque é daquelas coisas
Que ficaram perdidas no tempo
e que um belo dia você lembra,
Não tem certeza do momento exato
Em que aquilo ficou para trás
Não se lembra mais como era
Mas ainda assim, aquilo parecia ser bom.

Daí você faz uma volta
E refaz todo o caminho
Na esperança de se ver, de se encontrar
Pedindo carona para si mesmo – e quando acha
Você se lembra de todos os conselhos -
E passa direto, porque não fala com estranhos.

E é assim, que quanto mais você anda,
Mais coisas caem, mais coisas ficam para trás.
E quando você finalmente pára,
O único sentimento que tem é -

O Vazio…

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