A Educação vista por Confúcio

Posted by goya on abril 26, 2017

Fonte: http://sinografia.blogspot.com.br/2007/08/a-educacao-vista-por-confucio.html

Analisar o Confucionismo, enquanto teoria educacional, possui mais que um sentido histórico: de todos os sistemas pedagógicos existentes, este provavelmente é o mais antigo ainda em funcionamento, com mais de 2500 anos de experiências acumuladas e em pleno processo de aplicação, desenvolvimento e adaptação aos dias atuais. Devemos igualmente prestar atenção a sua importância, posto que esta é a filosofia educacional que tem sustentado a sociedade chinesa através de séculos, que impulsiona continuamente seu desenvolvimento e a formação de sua consciência crítica.

Podemos ainda utilizar o confucionismo como um contraponto para as doutrinas educacionais Ocidentais, a fim de avaliar o quanto de nossas experiências e propostas já foram pensadas, percebidas e testadas pelos chineses. Não devemos nos enganar, a experiência é extremamente válida – afinal, importamos diversas teorias de Europa e dos Estados Unidos, porque não estudar uma experiência asiática? Não acredito, igualmente, no argumento de uma “proximidade cultural” (americana, francesa, etc) como referencial para estudo das teorias educacionais; se aceitarmos que estes sistemas são criados para os seres humanos, então devemos aceitar, conseqüentemente, que em qualquer parte do mundo a experiência de educar pode ser válida, se ela leva a formação de uma sociedade melhor. Neste caso, portanto, a longa duração da sociedade chinesa e sua incrível capacidade de conservação cultural são indícios de que alguns pontos da proposta confucionista podem estar tecnicamente corretos.

Assim sendo, desenvolveremos neste texto uma análise introdutória sobre o que era a educação na visão de Confúcio, e como tal abordagem ainda pode ser válida nos dia de hoje.

Confúcio e o seu Contexto
As datas tradicionais da vida de Confúcio (forma latinizada de Kong Fu Zi, ou Mestre Kong, em Chinês) situam seu período de vida entre 551 a 479 a.C., uma época conturbada na existência da civilização chinesa. Confúcio parece ter tido uma distante origem nobre, mas viveu sempre como um simples professor e de forma bem pobre e modesta. Teria chegado a alcançar um cargo público de importância, mas decidiu por se dedicar integralmente à formação de sua escola filosófica, abrindo mão das vantagens e problemas da vida política.

Confúcio não se entendia, na verdade, como um inventor de novas propostas educacionais ou morais. De fato, ele acreditava apenas estar criando um método para preservar o que havia de melhor na sociedade, propiciando os meios de fazê-la evoluir da melhor maneira possível, de forma harmônica e saudável.
Mas para entendermos o que o sábio queria salvar, precisamos antes de tudo compreender o contexto da época. A China deste momento passava por uma série de conturbações políticas e sociais sérias, derivadas de um incessante e crescente conflito entre os muitos pequenos reinos que compunham o império chinês. A dinastia reinante, os Zhou (1027 a 221 a.C.), estava perdendo gradualmente a capacidade de controlar as disputas entre os nobres da corte, o que permitia o acontecimento de guerras contínuas, geradoras de fome, epidemias, corrupção e de um pessimismo generalizado sobre o futuro.

Por conta disso, Confúcio decidiu-se por encarar estes problemas de frente, e sua análise o levou a concluir que a questão principal da época centrava-se na perda dos valores morais, decorrentes de um processo educacional insuficiente para alcançar todos os extratos da sociedade, bem como incapaz de formar seres humanos conscientes. Seu foco principal tornou-se, pois, a questão da educação. O Mestre acreditava realmente no poder de educar para retificar a conduta das pessoas, e sua proposta extremamente pragmática indicava um caminho acessível a todos para o reerguimento da sociedade.
No que consistia, então, o caminho proposto por Confúcio? Vejamos, passo a passo, como este antigo sábio chinês desenvolveu sua abordagem sobre o tema.


Dao, a Via
Em chinês, todas as escolas de pensamento (Jia) possuem uma fórmula, método ou via para se alcançar um objetivo proposto. Esta Via se chama Dao (também grifado como “Tao”), que podemos traduzir ou compreender mais facilmente como um caminho racional para atingir a compreensão da Realidade. Um problema pode ser abordado por vários ângulos diferentes: do mesmo modo, pois, pode ser resolvido de modos diferentes. A preocupação de Confúcio foi, exatamente, de como pensar uma Via que atingisse e servisse a todos os seres humanos, e lhes propiciasse uma consciência aproximada sobre o mesmo conjunto de valores morais importantes para a sobrevivência da sociedade.

O caminho escolhido por Confúcio foi, justamente, o de educar. Sua teoria baseava-se na percepção das deficiências educacionais da época, incapazes de manter e transmitir o conhecimento moral e técnico existente. Tais dificuldades encontravam-se tanto na estrutura do ensino quanto no que era ensinado, e Confúcio ainda destacava um terceiro ponto fundamental: qual a função de ensinar e aprender? Esta colocação tinha um propósito inusitado na China daqueles tempos; educaremos para formar meros repetidores ou para formar pessoas conscientes e sábias? Até então, apenas as pessoas com posses tinham acesso a uma educação constante e erudita que, no entanto, não as impediam em ceder às tentações da corrupção e do egoísmo. Do mesmo modo, muitas pessoas de origem humilde e educação ruim ainda tentavam, de modo claudicante, agarrar-se a um modo de vida correto.

Para Confúcio, isso significava que a educação, em seu cerne, trazia uma concepção de correção adequada e necessária para toda a sociedade. Mesmo com pouca educação, alguém poderia se manter num modo de vida apropriado. Porém, se mal aplicada ou desenvolvida, a educação seria, por si só, incapaz de resolver os problemas sociais e individuais. Logo, uma educação incompleta sempre deixaria margem à corrupção íntima do ser humano. Sem um sentido definido, a prática de educar não tornaria as pessoas mais sábias, mas apenas servas de um sistema sobre a qual ignoram as regras, levando-as a revolta em momentos de angústia e conflito tal como ocorria na época.
Educar, pois, é o caminho para modificar o mundo. Mas de que modo?



A Centralidade (Zhong) e a Virtude (De)
A educação consistiria, antes de tudo, em atingir a Centralidade (Zhong), ou o fio condutor que amarra as experiências humanas e que nos dão a consciência, justamente, de sermos humanos.

Representada por um ideograma cujo significado é o de uma flecha atravessando o meio de um alvo, a centralidade é, igualmente, o ponto em que percebemos o que há de comum entre todos nós. Este ponto a ser atingido é a excelência na prática de tudo aquilo que preserva a vida do ser humano, e do que o torna melhor. Tal condição é a Virtude (De), cujo ideograma também nos aponta uma idéia concreta sobre o que Confúcio queria propor. “De” é representado por uma junção de três sinais gráficos que significam, juntos, “andar no caminho reto com o coração”, ou seja, alcançar um caminho que todos possam compartilhar baseado naquilo que há de mais adequado para a vivência em sociedade.

Ainda que as Virtudes possam ser apresentadas de modo dogmático numa sociedade, compreendê-las em sua essência permite ao ser humano discutir sua valia e fazê-las evoluir em sentido. O próprio Confúcio percebeu, por exemplo, que vivia numa sociedade onde a habilidade na guerra era muito valorizada; mas se tal destacava-se justamente em momentos de conflito, melhor seria, pois, que seu valor fosse reduzido. Afinal, uma civilização repleta de heróis guerreiros significa, consequentemente, que ela está quase sempre em combate, e isso não é bom para a sociedade como o um todo. Uma virtude não pode se sobrepor às outras se ela traz um sofrimento maior. O ponto de vista confucionista entendia, portanto, que a prática das virtudes deveria antes de tudo ser o guia, a meta, e o resultado de um certo esforço em preservar o que havia de melhor de um cultura, beneficiando o maior número de pessoas possíveis.

Shi, a Propensão
Mas se as pessoas são diferentes umas das outras, como convencê-las a praticar a Virtude e atingir a centralidade? Como foi dito, Confúcio tinha a preocupação de não criar uma educação meramente repetidora, sem o que os indivíduos não poderiam realizar-se a si mesmos. A percepção da individualidade levou o Mestre a pensar não em anulá-la, mas sim em privilegiá-la nos seus melhores aspectos.

Shi, ou propensão (ou ainda, “Dom”) é aquela potencialidade criativa que uma pessoa tem em específico, e que deve ser desenvolvida para que ele possa encontrar a realização no que faz. Segundo o raciocínio confucionista, o conflito entre a tentativa de educar anulando a singularidade e a potencialidade íntima dos seres humanos é que levaria, fatalmente, a perda de um dos dois sentidos. Pessoas com um talento manifesto perderiam a alegria de viver, por exemplo, por não poderem realizar suas propensões; da mesma maneira, aqueles que não vissem vantagem ou sentido em “pensar igual a todos” em breve sofreriam, transformando-se em “subversivos”, “imorais” ou ainda, tentariam tirar partido da situação manipulando os outros em função de seus próprios interesses.

O que Confúcio propunha, portanto, é que a educação deveria primeiro despertar a potencialidade do educando, revelando aquilo ao qual ele seria mais propenso; em seguida, estimulá-lo a aperfeiçoar suas habilidades de modo saudável e realizador; por fim, fazer com que o uso destas habilidades esteja de acordo com as regras necessárias ao bom entendimento com o restante da sociedade – sem o que, a propensão deixa de se tornar uma virtude para descambar num vício ou num excesso, o que é igualmente deletério ao que há de melhor em sua manifestação.

As seis Artes Educativas
No intuito de despertar a propensão que cada ser tem, a educação confucionista propunha a prática concomitante de seis tipos de habilidades específicas na educação básica. No decorrer dos anos, aquela que mais despertasse o interesse do estudante deveria ganhar uma ênfase maior, de modo a levá-lo a uma excelência em sua prática. Usualmente, estas artes são divididas em Arte Ritual, Música, Caligrafia, Matemática, Arqueria e Cavalaria.

A Arte Ritual consistia no estudo das práticas de etiqueta, cerimonial, história e costumes sociais que abrangiam a sociedade. Tal como uma forma de sociologia, o estudo da ritualística tinha por objetivo compreender de que modo os mecanismos sociais surgiram, desenvolveram-se e suas funções fundamentais, permitindo uma análise séria das suas condições de permanência ou necessidades de mudança.

O estudo da Música tratava de temas amplos, desde a construção poética até a melodia, uso de instrumentos e o sentido filosófico da música. Os chineses acreditavam seriamente no poder da musicalidade, capaz mesmo de despertar um sentido mais profundo de reflexão sobre os aspectos da realidade.

A Caligrafia privilegiava o sentido artístico através da prática da escrita, da pintura e do desenvolvimento da percepção visual. Visava igualmente o aprimoramento da capacidade de expressão, através do emprego apropriado da palavra. Os chineses acreditavam firmemente na capacidade das palavras – escritas ou ditas – de despertarem no ser humano o sentimento e a sensação das coisas nomeadas. Tal como a Música, a Caligrafia atingiria o íntimo não pelo som, mas pela imagem.

Quanto a Matemática, ela visaria estudar e compreender o mundo por meio de sua quantificação e pelo entendimento de suas leis de funcionamento. Neste sentido, a Matemática – no entendimento confucionista – se aproximaria também da Física, e manteria conexões possíveis com a Biologia e a Química, pois seu estudo consistiria em analisar os padrões pelos quais operaria a natureza, fixando-o através do uso das equações, fórmulas e indicadores numéricos.

Por fim, a Arqueria e a Cavalaria consistiriam no aprendizado do uso de armas, carruagens, prática física e cultura corporal. Habilidades necessárias em qualquer época, ainda assim, ambas as Artes tinham um significado especial para a proposta confucionista: primeiro, que não se pode aprender nada, devidamente, sem cultivar o corpo e a mente ao mesmo tempo; segundo, que o aprimoramento físico através da consciência corporal traz, igualmente, uma percepção mental sobre o processo de aprendizado. Confúcio dizia que: “A Arqueria é como o sábio; quando se erra o alvo, busca-se a razão em si mesmo”.

Podemos crer, portanto, que este conjunto de saberes visava ampliar, ao máximo, a possibilidade de auto-realização do estudante. Esta abordagem é facilmente adaptável aos dias de hoje, posto que o desenvolvimento das ciências aumentou ainda mais este leque de possibilidades.

Xin, a Sinceridade Moral
Um aluno devia dar prosseguimento aos seus estudos com afinco. No entanto, a dedicação não traz consigo nenhum sentido se não vier acompanhado de um real interesse de realização. Para despertar-se, portanto, um estudante deveria agir com Xin, ou Sinceridade Moral naquilo que buscasse e se dedicasse. O educador deveria propiciar ao aluno a consciência de estar investido em si mesmo (daí a importância do agir sinceramente). A sinceridade não é apenas pessoal, é também moral; ela vincula-se a decisão sobre o futuro, sobre a possibilidade de ser feliz e de auto-realização. Sem essa mentalidade, o aluno engana a si próprio e tudo ser-lhe-á mais difícil; e não porque alguém lhe obriga a fazer algo, mas porque ele mesmo será incapaz de fazer qualquer coisa sem saber no que é bom.

Xue (Conhecimento Transmitido) e Zhi (Experiência)
Dois tipos de conhecimento um estudante irá adquirir no seu processo educativo: aquele que foi acumulado e transmitido por seus antecessores (Xue), e aquele que ele mesmo irá aprender em suas experiências pessoais (Zhi). Os ideogramas chineses novamente são claros neste ponto: Xue é a adaptação da imagem de uma mão que conduz uma criança, enquanto Zhi representa uma flecha em direção a um alvo (ou seja, a experiência adquirida através do esforço e do treino).?

Para Confúcio, no entanto, ambos os conhecimentos se alimentam reciprocamente, permitindo-se evoluir um ao outro, de acordo com a necessidade e com uma análise crítica séria e profunda. Quando ambos os conhecimentos se harmonizam, atingimos a justa medida (ou justa centralidade, Zhong Yong) que significam que conseguimos encontrar o ponto certo entre os nossos interesses pessoais de acordo (e não contra) a sociedade. Conseguimos nos realizar, e da maneira adequada, sem perturbar a ordem do mundo – e sem sermos perturbados por ela.

Ren, o Humanismo
A plena realização do Ser humano se encontraria na sua perfeita convivência, pois, com os outros seres. Este aspecto fundamental da doutrina de Confúcio, Ren, é o que podemos traduzir como Humanismo. Aquele que foi educado corretamente, realiza-se. Realizando-se, harmoniza-se com o restante da sociedade (mesmo que essa não tenha, em sua maioria, conseguido evoluir profundamente). Torna-se um sábio (Sheng), que dá continuidade a vida, que mantém – e ao mesmo tempo transforma, quando necessário – a estrutura da sociedade. E para Confúcio, todos poderiam ser sábios. Devido à ilusão derivada da ignorância, causadora de uma crise social e cultural sem precedentes, as pessoas teriam perdido a capacidade de acreditar na possibilidade de mudar seus destinos. Confúcio não só confiava que isso poderia ser mudado como ainda, indicava o caminho. Esta perspectiva otimista deu sustento e alimentou, indefinidamente, a crença confucionista em poder modificar o destino do mundo através da educação. Como ele mesmo afirmou,

“Ao ensinar, o Mestre orienta seus alunos sem arrastá-los; convida-os a avançar mas não os coage; abre-lhes caminhos mas não os força a caminhar. Orientando sem arrastar, torna o aprendizado agradável; convidando sem coagir, torna o aprendizado fácil; abrindo caminho sem forçar a caminhada, faz com que seus alunos pensem por si mesmos. Ora, alguém que torne agradável e fácil o aprendizado, e faz com que os estudantes pensem por si mesmos será o que se pode chamar de um bom professor”. (Liji – Recordações dos Rituais, 18)

Pois

“O Sábio é sem idéia, sem necessidade, sem posição e sem eu” (Lunyu – As Conversações, 9)

Conclusão
Já na Antiguidade, a clareza e profundidade da exposição confucionista sobre a questão da educação influenciou diretamente a mentalidade chinesa sobre a importância do estudo na manutenção dos valores culturais e na sobrevivência da sociedade. Durante a Dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.), o confucionismo foi adotado como doutrina oficial do governo, estimulando a criação de todo um sistema educativo no país. Ao longo da história, desenvolveram-se também os “Exames Oficiais”, provas realizadas anualmente para a entrada no funcionalismo público e acesso as academias imperiais (semelhantes as nossas universidades). Em meio a todas as crises que se repetiram na história chinesa, a idéia do confucionismo nunca foi abandonada. Na era moderna, após o governo de Maozedong, o confucionismo tem sido retomado como ética educacional, após uma breve perseguição realizada pelo comunismo. Qualquer chinês comum, até hoje, tem orgulho de ver seus filhos na escola, venera os livros e valoriza de modo singular o domínio de uma escrita e uma língua que ele sabe ser milenar, o idioma de sua cultura.

Tal perspectiva que tem conduzido os chineses por milênios em meio a todos os problemas que afetaram sua sociedade. Na ótica confucionista, os melhores períodos da história chinesa estão ligados à formação do povo – e os piores, a ausência dessa educação.

O modelo chinês, portanto, é fundamental para avaliarmos esta experiência única no campo da educação, e nos servir de apanágio na crença de que educar ainda é a melhor opção.

Bibliografia
Seguem aqui apenas algumas sugestões bibliográficas, não muito extensas, para os que desejarem saber mais sobre o Confucionismo e a questão da educação.
Confúcio Diálogos de Confúcio. São Paulo: Ibrasa, 1983. Tradução excelente e com bons comentários da sinólogoa Anne Cheng.
Doeblin, A. O Pensamento vivo de Confúcio. São Paulo, 1958. Livro básico e antigo, mas fácil de achar, com uma boa exposição sobre Confúcio.
Jullien, F. Um sábio não tem idéia. São Paulo: Martins Fontes, 2000. Texto denso e profundo sobre a filosofia confucionista do filósofo François Jullien.
Lin Yutang A Sabedoria de Confúcio. Rio de Janeiro: José Olympio, 1958. Nesse texto, encontraremos o capítulo sobre educação do Liji, Manual dos Rituais, peça fundamental para compreender o pensamento confucionista sobre o tema. Este texto também está disponível no site http://chines-classico.blogspot.com
Yao Xinzhong, El confucianismo. Cambridge University Press, Madrid, 2001. Ótima introdução em espanhol ao confucionismo.

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Os Quatro Inimigos do Homem de Conhecimento

Posted by goya on abril 13, 2015

Em nossas conversas, Dom Juan sempre usava ou se referia à expressão “Homem de Conhecimento”, mas nunca explicava o que queria dizer com isso. Perguntei-lhe a respeito.

– Um homem de conhecimento é aquele que seguiu honestamente as dificuldades da aprendizagem – disse ele. – Um homem que, sem se precipitar nem hesitar, foi tão longe quanto pôde para desvendar os segredos do poder e da sabedoria.

– Qualquer pessoa pode ser um homem de conhecimento?

– Não; não qualquer pessoa.

– Então o que é preciso para se tornar um homem de conhecimento?

– O homem tem que desafiar e vencer seus quatro inimigos naturais.

– Ele será um homem de conhecimento depois de vencer esses quatro inimigos?

– Sim. Um homem pode chamar-se de homem de conhecimento somente se for capaz de vencer os quatro.

– Então, qualquer pessoa que conseguir vencer esses inimigos pode ser um homem de conhecimento?

– Qualquer pessoa que os vencer tornar-se um homem de conhecimento.

– Mas há algum requisito especial que o homem tenha de atender antes de lutar contra esses inimigos?

– Não. Qualquer pessoa pode tentar tornar-se um homem de conhecimento; muito poucos homens o conseguem, realmente, mas isso é natural. Os inimigos que um homem encontra no caminho do saber para tornar-se um homem de conhecimento são realmente formidáveis; a maioria dos homens sucumbe a eles.

– Que tipos de inimigos são, Dom Juan?

Recusou-se a falar sobre os inimigos. Disse que se passaria muito tempo até que o assunto fizesse sentido para mim. Procurei manter a conversa a perguntei-lhe que eu poderia me tornar um homem de conhecimento. Respondeu que ninguém poderia dizer isso ao certo. Mas eu insisti para saber se havia algum indício que ele pudesse usar
para saber se eu tinha ou não possibilidade de me tornar um homem de conhecimento. Falou que dependia de minha luta contra os quatro inimigos – se eu conseguiria derrotá-los ou ser derrotado por eles – mas que era impossível prever o resultado dessa luta.

Perguntei-lhe se ele podia usar feitiços ou adivinhação para ver o resultado da luta. Declarou claramente que os resultados da luta não poderiam ser previstos por meio algum, porque tornar-se um homem de conhecimento era uma coisa temporária. Quando eu pedi que ele explicasse isso, respondeu:

– Ser um homem de conhecimento não tem permanência. Nunca se é um homem de conhecimento. Não de verdade. Ou antes, a pessoa se torna um homem de conhecimento por um instante muito breve, depois de derrotar os quatro inimigos naturais.

– Você tem que me dizer, Dom Juan, que tipos de inimigos eles são.

– Não respondeu. Tornou a insistir, mas ele mudou de assunto e começou a falar sobre outra coisa.

Domingo, 15 de abril de 1962

Quando eu estava me preparando para partir, tornei a lhe perguntar acerca dos inimigos do homem de conhecimento. Argumentei que ia passar algum tempo sem voltar, e que seria uma boa idéia escrever as coisas que ele tivesse a dizer e pensar e pensar a respeito enquanto estivesse fora. Hesitou um pouco, mas depois começou a falar:

– Quando um homem começa a aprender, ele nunca sabe muito claramente quais seus objetivos. Seu propósito é falho; sua intenção, vaga. Espera recompensas que nunca se materializarão, pois não conhece nada das dificuldades da aprendizagem.

“Devagar, ele começa a aprender… a princípio, pouco a pouco, e depois em porções grandes. E logo seus pensamentos entram em choque. O que aprende nunca é o que ele imaginava, de modo que começa a ter medo. Aprender nunca é o que se espera. Cada passo da aprendizagem é uma nova tarefa, e o medo que o homem sente começa a crescer
impiedosamente, sem ceder. Seu propósito tornar-se um campo de batalha.

“E assim ele se deparou com o primeiro de seus inimigos naturais: o Medo! Um inimigo terrível, traiçoeiro, e difícil de vencer. Permanece oculto em todas as voltar do caminho, rondando, à espreita. E se o homem, apavorado com a sua presença, foge, seu inimigo terá posto um fim à sua busca.

– O que acontece com o homem se ele fugir com medo?

– Nada lhe acontece, a não ser que nunca aprenderá. Nunca se tornará um homem de conhecimento. Talvez se torne um tirano, ou um pobre homem apavorado e inofensivo; de qualquer forma, será um homem vencido. Seu primeiro inimigo terá posto fim a seus desejos.

– E o que ele pode fazer para vencer o medo?

– A resposta é muito simples. Não deve fugir. Deve desafiar o medo, e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte na aprendizagem, e o seguinte, e o seguinte. Deve ter medo, plenamente, e no entanto não deve parar. É esta a regra! E o momento chegará em que o seu primeiro inimigo recua. O homem começa a se sentir seguro de si. Seu propósito torna-se mais forte. Aprender não é mais uma tarefa aterradora. Quando chega esse momento feliz, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro inimigo natural.

– Isso acontece de uma vez, Dom Juan, ou aos poucos?

– Acontece aos poucos e no entanto o medo é vencido de repente e depressa.

– Mas o homem não terá medo outra vez, se lhe acontecer alguma coisa nova?

– Não. Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque, em vez do medo, ele adquiriu a clareza… uma clareza de espírito que apaga o medo. Então, o homem já conhece seus desejos; sabe como satisfazê-los. Pode antecipar os próximos passos na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada se lhe oculta.

“E assim ele encontra seu segundo inimigo: a Clareza! Essa clareza de espírito, que é tão difícil de obter, elimina o medo, mas também cega.

“Obriga o homem a nunca duvidar de si. Dá-lhe a segurança de que ele pode fazer o que bem entender, pois ele vê tudo claramente. E ele é corajoso porque é claro e não pára diante de nada porque é claro. Mas tudo isso é um engano; é uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a esse poder de faz-de-conta, sucumbiu a seu segundo inimigo e tateará com a aprendizagem. Vai precipitar-se quando devia ser paciente, ou ser paciente quando devia precipitar-se. E tateará com a aprendizagem até acabar incapaz de aprender mais qualquer coisa.

– O que acontece com um homem que é derrotado assim, Dom Juan? Ele morre por isso?

– Não, não morre. Seu inimigo acaba de impedi-lo de se tornar um homem de conhecimento; em vez disso, o homem pode tornar-se um guerreiro valente, ou um palhaço. No entanto, a clareza, pela qual ele pagou tão caro, nunca mais se transformará de novo em trevas ou medo. Será claro enquanto viver, mas não aprenderá nem desejará nada.

– Mas o que tem de fazer para não ser vencido?

– Tem de fazer o que fez com o medo: tem de desafiar sua clareza e usá-la só pra ver, e esperar com paciência e medir com cuidado antes de dar novos passos; deve pensar, acima de tudo, que sua clareza é quase um erro. E virá um momento em que ele compreenderá que sua clareza era apenas um ponto diante de sua vista. E assim ele terá vencido seu segundo inimigo, e estará numa posição em que nada mais poderá prejudicá-lo. Isso não será um engano. Não será um ponto diante da vista. Será o verdadeiro poder.

“Ele saberá a essa altura que o poder que vem buscando há tanto tempo é seu, por fim. Pode fazer o que quiser com ele. Seu aliado está às suas ordens. Seu desejo é a ordem. Vê tudo o que está em volta. Mas também encontrou seu terceiro inimigo: o Poder!

“O poder é o mais forte de todos os inimigos. E naturalmente a coisa mais fácil é ceder; afinal de contas, o homem é realmente invencível. Ele comanda; começa correndo riscos calculados e termina estabelecendo regras, porque é um senhor.

“Um homem nesse estágio quase nem nota seu terceiro inimigo se aproximando. E de repente, sem saber, certamente terá perdido a batalha. Seu inimigo o terá transformado num homem cruel e caprichoso.

– E ele perderá o poder?

– Não, ele nunca perderá sua clareza nem seu poder.

– Então o que o distinguirá de um homem de conhecimento?

– Um homem que é derrotado pelo poder morre sem realmente saber manejá-lo. O poder é apenas uma carga em seu destino. Um homem desses não tem poder sobre si, e não sabe quando ou como usar seu poder.

– A derrota por algum desses inimigos é uma derrota final?

– Claro que é final. Uma vez que esses inimigos dominem o homem, não há nada que ele possa fazer.

– Será possível, por exemplo, que o homem derrotado pelo poder veja seu erro e se emende?

– Não. Uma vez que o homem cede, está liquidado.

– Mas, e se ele estiver temporariamente cego pelo poder, e depois o recusar?

– Isso significa que a batalha continua. Isso significa que ele ainda está tentando ser um homem de conhecimento. O indivíduo é derrotado quando não tenta mais e se abandona.

– Mas então, Dom Juan, será possível que um homem se entregue ao medo durante anos, mas que no fim ele o vença.

– Não, isso não é verdade. Se ele ceder ao medo, nunca o vencerá, porque se desviará do conhecimento e nunca mais tentará. Mas se procurar aprender durante anos no meio de seu medo, acabará dominando-o, porque nunca se entregou realmente a ele.

– E como o homem pode vencer seu terceiro inimigo, Dom Juan?

– Também tem de desafiá-lo, propositadamente. Tem de vir a compreender que o poder que parece ter adquirido, na verdade nunca é seu. Deve controlar-se em todas as ocasiões, tratando com cuidado e lealdade tudo o que aprendeu. Se conseguir ver que a clareza e o poder, sem seu controle sobre si, são piores do que os erros, ele
chegará a um ponto em que tudo está controlado. Então, saberá como e quando usar seu poder. E assim terá derrotado seu terceiro inimigo.

“O homem estará, então, no fim de sua jornada do saber, e quase sem perceber encontrará seu último inimigo: a Velhice! Este inimigo é o mais cruel de todos, o único que ele não conseguirá derrotar completamente, mas apenas afastar.

“É o momento em que o homem não tem mais receios, não tem mais impaciências de clareza de espírito… um momento em que todo seu poder está controlado, mas também um momento em que ele sente um desejo irresistível de descansar. Se ele ceder completamente a seu desejo de se deitar e esquecer, se ele se afundar na fadiga, terá
perdido o último round, e seu inimigo o reduzirá a uma criatura velha e débil. Seu desejo de se retirar dominará toda sua clareza, seu poder e sabedoria.

“Mas se o homem sacode sua fadiga, e vive seu destino completamente, então poderá ser chamado de um homem de conhecimento, nem que seja no breve momento em que ele consegue lutar contra o seu último momento invencível. Esse momento de clareza, poder e conhecimento é o suficiente.

Fim do Texto.
Este texto de Carlos Castaneda, é um extrato do livro “A Erva do Diabo”, e fala sobre os inimigos naturais de qualquer homem que queira tornar-se sábio.

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Dragão Vermelho

Posted by goya on junho 12, 2014

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– Dragão Vermelho –

Deitado na colina jaz um grande dragão…
Poucos percebem sua presença
E ao redor pessoas vem e vão
Outros, sem saber o porquê
Se sentem perturbados, incomodados até
Outros ainda, aproximam-se pé ante pé
Que divina imagem faz o gigantesco corpo
coberto de escamas vermelhas, reluzir ouro
Fera mítica, há muito não se via por aqui
Desperta a curiosidade e fábulas retornam
Cavaleiros, damas e bruxos agora surgem
Junto com o dragão, surgem Feiticeiros e Faunos,
E outras figuras surgidas de algum bestiário do além
Runas são lançadas sobre troncos de antigas árvores cortadas
E um vaticínio nelas é revelado: eis que retorna a Fera!
Fauno e feiticeiro, se aproximam faceiros!
Afinal, a Fera dorme, a Fera Sonha! Que mal podemos fazer?
Pobres diabos, cantam e pulam, e dançam como lhes é próprio
Não percebem que um Dragão jamais dorme completamente…
Do olho semicerrado um brilho surge, frio como aço
Capaz de lhes despir não apenas o corpo, mas a alma
E o que revela os deixa tão ridículos
Que todos aqueles que os conhecem envergonham-se de sua nudez
Pois a deformidade do espírito se revela no corpo
E nada mais lhes resta a não ser o Caminho Torpe e vil
Que algum dia lhes serviu.
O Dragão nem mesmo se move, mas seu olho ainda brilha
Acompanhando o titubear daquelas figuras descendo a trilha
Aguardando que retornem do buraco onde surgiram
E que ali se mantenham como lhes é próprio
Até que em algum momento surjam com nova diabrura
Que os faça de espetáculo para a turba ansiosa
De um espetáculo que os faça rir
Tanto quanto a imagem de sua patética existência já faz
E o Dragão? Este ainda aqui jaz de olho entreaberto
Aguardando o novo momento de lhes trazer novo tormento!…
Anderson Rosa, Frater Goya, o ????
12 de junho de 2014
Sol em 21º Gêmeos, Lua em 6º Sagitário, Dies Mercurii

Na imagem, O Dragão Vermelho e a Mulher Vestida de Sol, de William Blake.

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Um Companheiro de Lúcifer

Posted by goya on junho 5, 2014

Por Jacques Mousseau – Revista Planeta, nº007, 1973

Os pactos com o diabo existem. Aleister Crowley fez um. Ele se chamava a si mesmo de “A Besta”. Era prodigiosamente inteligente e diabólico. Tinha poderes excepcionais: podia apagar uma vela a dez metros de distância, usando a força mental. Exercia fascinação sobre as mulheres, que se tornavam verdadeiras escravas, fazendo tudo o que ele queria. Dizem que influenciou algumas idéias de Hitler, mas nunca se aproximou do ditador nazista. Rico, Crowley tornou-se mágico, depois de umas visões estranhas. Sua vida foi agitada, confusa. Morreu na miséria, arruinado por drogas.

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Por trás do pequeno porto siciliano de Cefalu, avistava o morro Santa Bárbara, com suas encostas cobertas de oliveiras. Parecia ver a minha frente, naquela manhã ensolarada de agosto, o homem estranho que, quarenta anos atrás, tinha vindo morar no local que lhe fora designado por um oráculo chinês.

Hoje pouca gente se lembra de Aleister Crowley em Cefalu. Nos primeiros dias de abril de 1920, Crowley e sua amante americana Leah Faesi mudaram para a ilha. Desejavam fundar ali um templo de magia, uma usina de energia oculta que suplantaria o cristianismo num futuro próximo. Uma outra mulher os acompanhava: era Ninette Fraux, a segunda amante do mágico, e duas crianças. Uma delas era Poupée, filha ilegítima de Crowley e de Leah Faesi. Posteriormente, outros discípulos do mago desembarcaram em Cefalu: Elizabeth Fox, a amante número três, Mary Butts e Cecil Maitland. Todos eles foram iniciados em diversos mistérios, como por exemplo o acasalamento de um bode, símbolo da fecundidade, com Leah Faesi. Estava ali também Norman Mudd que se demitiu de sua cadeira. numa universidade da África do Sul para colaborar na edificação da grande obra mágica.
Nunca houve muitos turistas visitando as colinas de Santa Bárbara, mas até o momento em que Mussolini expulsou dali Aleister Crowley, em 1922, o vaivém dos iniciados, adeptos e admiradores foi intenso. Aos novos visitantes, o mago oferecia primeiramente uma navalha para que cortassem o braço toda vez que empregassem a palavra “eu”. Somente o mestre tinha o direito de empregar esse pronome pessoal.

Aleister Crowley realizou em Cefalu a obra dos seus sonhos: fundar a abadia de Telemo imaginada por Babelais. O oráculo chinês informara-lhe que a hora tinha chegado. Na casa situada na encosta do morro Santa Bárbara, reinava a regra que Babelais inscrevera em letras douradas na porta de sua abadia imaginária: “Do what thou wilt shall be the whole of the law”, (Faze o que desejas: este será o princípio fundamental da lei). Mas essa liberdade era a recompensa dada aos que tinham atingido a suprema sabedoria. Para chegar lá, era preciso primeiro submeter-se à vontade do mestre. Crowley, por sinal, comportava-se como um verdadeiro tirano junto aos fiéis que faziam retiro na abadia de Telemo, fossem hóspedes permanentes ou de passagem.
NUAS AO SOL

Quando desejava punir suas inúmeras amantes de alguma desobediência, Crowley as expunha nuas, os braços em cruz, em cima dos rochedos que davam para o mar. Deveriam permanecer ali imóveis e mudas, marcadas a ferro no meio do peito com o sinete de seu senhor, abençoando interiormente a dependência que gozavam, até que uma ordem dele suspendesse o castigo. Os camponeses sicilianos costumavam contemplar com um desejo distante aquelas estátuas de carne expostas à dureza das rochas. O pároco da aldeia procurava explicar da melhor forma possível a seus fiéis, que se escandalizavam, o comportamento excêntrico do senhor inglês – já que as autoridades italianas toleraram sua presença na ilha durante vários anos.

Todos os homens na abadia deviam raspar a cabeça, com exceção de uma única mecha em cima da testa. As mulheres tingiam os cabelos de vermelho ou de amarelo. Usavam um vestido azul celeste que caía como uma túnica sem pregas. Todos os membros da comunidade escreviam diários onde anotavam seus pensamentos e aspirações mais íntimas. O mestre, naturalmente, tinha livre acesso a essas confissões, tantas vezes quantas desejasse.

A casa de veraneio onde Crowley imaginava reunir energia mágica suficiente para conquistar o mundo, era uma modesta construção térrea. Cinco quartos davam para a sala principal: o Sanctus Sanctorum ou o templo dos mistérios telêmicos. Em cima dos azulejos vermelhos, Crowley desenhou um círculo mágico e um pentagrama, cujas pontas tocavam as bordas da circunferência. O trono do sábio ficava a leste; o de sua amante número um, ou mulher escarlate, ficava a oeste. Nas paredes do templo, Crowley pintara pessoalmente todas as posições possíveis do ato sexual.

Era ali que os residentes diziam suas orações cinco vezes por dia, seguiam os ofícios gnósticos, sacrificavam animais, invocavam os demônios e entregavam-se aos ritos sexuais. A casa existe ainda hoje. Um coronel da aviação aposentado mora ali com sua família.

É muito difícil falar seriamente de um indivíduo que se gabava de ser “o homem mais perverso da criação”. Ocorre-nos imediatamente a idéia de um adolescente retardado, ou que ele não merecia o diploma honroso que se atribuiu a si mesmo. Crowley, de fato, parece ter sido um adolescente retardado e um psicanalista encontraria na sua infância austera algumas explicações para seu comportamento excêntrico.

Edward Alexander Crowley nasceu em 12 de outubro de 1875, em Leamington, na Inglaterra. Mais tarde, ele adotou o nome Aleister, por lhe parecer mais enigmático. Aliás, realizou prodígios de imaginação para descobrir uma genealogia nobre: pensava descender da grande família bretã de Querouailles. Pretendia igualmente que o grande poeta inglês do século 17, Abraham Crowley, era seu antepassado. Essa paixão dos nomes e dos títulos, juntamente com a dos disfarces, acompanharam-no a vida inteira. Quando se mudou para Londres, após terminar os estudos, adotou o nome de Wladimir Svaref. Na Escócia, o de Lord Boleskine e no Oriente, o de príncipe Chioa Khan. A lista dos seus nomes fictícios é interminável.

Na realidade, seu pai era um burguês austero da província, cuja família havia enriquecido fabricando cerveja. Na casa paterna, o dia começava com a leitura e o comentário de alguns versículos da Bíblia. Esse costume se repetia durante as outras refeições, até a hora de dormir, que era precedida de um último sermão. Não havia jogos nem distrações. Com dez anos, Aleister imaginava-se um futuro soldado de Cristo. Desde o fim de sua adolescência, porém, ele descobriu sua verdadeira vocação: seria um soldado do diabo.

Com essa disposição entrou para o Trinity College, uma das mais famosas faculdades de Cambridge. Ali, dedicou seu tempo à poesia, inspirado pelas obras de Baudelaire e de Swinbume. Revelou-se igualmente um rebelde de idéias originais e excêntricas, cuja influência sobre os colegas foi bem cedo considerada nociva.

UMA SÉRIE DE REVELAÇÕES

O pai de Crowley morreu muito jovem deixando uma fortuna de 40 mil libras, o que iria permitir ao filho levar a existência que desejasse e, antes de tudo, abandonar-se a sua paixão de viagens. No dia 31 de dezembro de 1896, enquanto dormia num hotel de Estocolmo, Crowley foi acordado pela revelação de que possuía poderes mágicos.

Descobria finalmente o que sempre desejou ser, inconscientemente: um adepto das ciências ocultas, um mago. Sua tarefa era partir à procura dos segredos que desenvolveriam seus dons, buscar as origens da magia, primeiro nas sociedades secretas do Ocidente, depois nos mosteiros do Tibet, com os iogas da Índia e até mesmo da China distante. Talvez seu grande desejo fosse se tornar uma celebridade. E a magia lhe parecia um caminho seguro para alcançar a glória. Crowley entendia por magia a arte que dava ao indivíduo um controle secreto e eficaz sobre as forças da natureza.

A vida de Crowley foi uma sucessão de revelações e de emoções. Ele sempre tinha a impressão de ser conduzido para situações excepcionais. Pouco a pouco, passou a acreditar que era o novo Messias. Isso explicava as precauções que os demônios e o destino tomavam com sua existência.

Sua revelação número um foi a descoberta, em Paris, da Magia Sagrada, do mago Abra-Merlin. Aleister Crowley fez dessa obra seu livro de cabeceira. A segunda revelação ocorreu alguns anos depois, no Egito. Uma voz misteriosa conduziu-o até a estátua do deus Horus, que estava marcada com o número 666 – o número da Besta no Apocalipse, que Crowley já havia adotado como seu. O deus egípcio ditou-lhe os 75 versículos de sua bíblia, O Livro da Lei.

Quando os instantes privilegiados se faziam mais raros, Crowley recorria aos pauzinhos chineses, que atirava em cima da cama ou de uma mesa e cujas ordens ele interpretava. “Se desejas entregar-se à magia – escreveu Abra-Merlin – deves começar por construir um oratório segundo certas formas exatas. A porta deve abrir para o norte, no alto de um terraço coberto de areia fina de rio. Na extremidade do terraço deve haver uma pequena loggia, onde os espíritos demoníacos poderão se reunir.” Em que lugar Crowley deveria construir um templo mágico? Ele viajou muito tempo à procura de um local propício, até se decidir por uma pequena casa na Escócia, perto de Loch Ness. Foi ali que iniciou verdadeiramente sua vida de mágico praticante.

Aparentemente, seus primeiros passos no ocultismo revelaram inexperiência, pelo que aconteceu em sua casa. Seu cocheiro começou a sofrer de delirium tremens, uma vidente que fizera vir de Londres abandonou-o pela prostituição, o proprietário de sua casa desapareceu misteriosamente, um operário da vizinhança enlouqueceu e tentou matá-lo. Finalmente, o açougueiro da cidade, com quem havia brigado, cortou acidentalmente a artéria da perna e morreu.

Como explicar esses fatos? Simples coincidências ou manifestações de uma aura maléfica? No momento em que abandonamos o tom de narração neutra a propósito de Crowley, corremos o risco de passar por crédulos ou adeptos. Nosso objetivo, contudo, se limitará a contar a história de um homem estranho que, vinte anos após sua morte, continua envolto no mistério. Se Crowley não fosse um problema, primeiro para os psicanalistas, depois para os historiadores do ocultismo, que interesse teríamos por ele? O número dos psicopatas é infinito, o dos maníacos sexuais não é menor. Um dos enigmas colocados por Aleister Crowley é a constância de certas obsessões em sua vida.

Dificilmente podemos negar que havia algo nele do adolescente perverso. O sexo dominou sua existência e ele era dotado nesse setor de apetites insaciáveis. Não dava a mínima importância à idade, sexo ou atrativos físicos das pessoas com quem praticava suas orgias. Talvez preferisse as mulheres feias. Mas a sexualidade nunca foi para ele a satisfação banal das necessidades físicas. Ela esteve sempre intimamente ligada a suas práticas mágicas.

Se for exato que a energia sexual sublimada é um dos elementos da ioga ou da magia branca, é possível também que a orgia ajude o mágico a entrar em contato com forças negativas e destruidoras. Isso explica por que centenas de mulheres estiveram associadas à vida de Crowley. Se muitas delas desconheciam a virtude, muitas outras não pareciam destinadas à promiscuidade. Duas das três esposas do mágico terminaram a vida num hospício. Inúmeras amantes dele perderam a fortuna, a honra e a essência imaterial da feminilidade. Aleister Crowley, por sua vez, tinha uma opinião medíocre das mulheres. Dizia que elas deveriam ser entregues em casa como o leite, pela entrada de serviço. Mesmo assim, ele exercia sobre elas um fascínio indefinível. Possivelmente, um poderoso magnetismo sexual emanava dele. Por outro lado, ele recorria a qualquer artifício para acentuar esse dom, indo da hipnose aos perfumes afrodisíacos.

Contam que certo dia, em Londres, Crowley parou diante de uma vitrina, ao lado de um casal de jovens. A moça o seduziu especialmente. Algumas horas mais tarde, ela o acompanhou a um hotel onde passaram dez dias juntos. Satisfeito o desejo da novidade, ele afastou-se dela como de tantas outras cuja existência havia arruinado. Nesse meio tempo, o marido havia iniciado um processo de divórcio.

Por que motivo aquela moça recém-casada seguiu a Besta – como ele próprio se denominava? Essa pergunta nunca recebeu uma resposta satisfatória.

OS SUPERIORES DESCONHECIDOS

Certas idéias adotadas por Crowley em suas conversas ou em seus livros, poderiam ter sido pronunciadas por Hitler. Segundo alguns historiadores, Hitler sabia da existência do mago negro e mencionou pelo menos duas vezes seu nome em público. Crowley, bem entendido, nunca representou o papel do líder nazista, nem tampouco exerceu sua influência. Mas durante toda sua vida esteve cercado de fiéis dispostos a segui-lo, de mulheres prontas a amá-lo, de amigos que o entretinham, de discípulos que divulgavam suas idéias. Sua fortuna foi dilapidada em dez ou quinze anos. Se mais tarde, durante cerca de trinta anos, conheceu dificuldades econômicas, encontrou sempre alguém que lhe pagasse as viagens, que lhe fornecesse cocaína e haxixe.

Embora não tenha conhecido pessoalmente Hitler, Crowley manteve contatos oficiais com os serviços secretos alemães. Em 1921, recebeu a visita inesperada, em seu apartamento de Londres, de Theodore Reuss, que era ao mesmo tempo chefe da sociedade secreta alemã Ordo Templis Orientis (Ordem dos Templários Orientais) e um autêntico espião. O objetivo da visita de Reuss foi criticar violentamente o mágico inglês por haver revelado em seus livros as regras de iniciação de sua ordem. Crowley defendeu-se com eloqüência e jurou que seria mais discreto no futuro. Os dois homens separaram-se cordialmente, após Crowley ter aceito dirigir o ramo britânico da O.T.O. – função que exerceu sob o nome de Baphomet. Esse episódio foi o coroamento de uma complicada peregrinação realizada por Crowley, junto às principais sociedades ocultistas do Ocidente.

Ele conheceu na Suíça, depois de terminar os estudos, um químico inglês que o introduziu à sociedade secreta Golden Dawn, da qual faziam parte Arthur Machen e o poeta Yeats. Após ter sido aceito na ordem, Crowley percorreu rapidamente os diversos graus de hierarquia: neófito, zelador, teórico, prático e filósofo. Ao atingir o último posto, ele desejou conhecer um dos Superiores Desconhecidos, espécie de super-mágicos que controlam as ações humanas de algum mosteiro secreto no Tibet ou em outro lugar do mundo.

Seu desejo concretizou-se certa noite em Paris, quando encontrou no Bois de Boulogne o chefe da sociedade secreta inglesa, Mathers, e mais três grandes magos. Depois desse encontro, Crowley não suportou mais ocupar uma posição secundária. Rompeu com Mathers e fundou sua própria sociedade iniciática, a Silver Star, cujo selo secreto era A.: A.:. Somente em Londres essa sociedade contava 38 membros em 1914.

A dúvida é saber se Aleister Crowley foi um verdadeiro mágico e iniciado ou se apenas representou esse papel durante a vida inteira. O mais provável é que ele tenha desenvolvido ao máximo certos poderes latentes que existem em todos os indivíduos. Contam que em Cambridge ele praticava exercícios de concentração mental. Segundo o testemunho de um professor, ele podia apagar uma vela, colocada a dez metros de distância, pela simples força da vontade. Em Cefalu, predisse a morte de Poupée, a morte de um primeiro discípulo, Raoul Loveday, e o suicídio do professor Norman Mudd. Todos os três dramas aconteceram de acordo com as previsões de Crowley.

Betty Loveday, que não gostava de Crowley, devido ao domínio total que exercia sobre seu marido, contou que certa vez a gata da casa, Mischette, foi condenada à morte por ter arranhado seriamente o mago. “Você não sairá daqui durante três dias, até a hora do sacrifício”, ordenou Crowley. Betty Loveday fez tudo para salvar a gata: levou-a para longe, expulsou-a de casa, etc. A gata voltava sempre ao lugar indicado e aguardou sem comer nem beber o momentos a morte.

Segundo a opinião de alguns, Crowley possuía duas personalidades: uma, a exterior, que desejava surpreender a imaginação dos outros e não poupava nada para satisfazer suas paixões; a outra, mais interior, que possuía o segredo de um poder que se manifestava de tempos em tempos. George Langelaan, escritor e colaborador do Planète, conheceu o poeta-mágico em Paris, pouco antes da última guerra. Eis o testemunho que deu: importante porque acrescenta uma nota humana ao caso Crowley. “Quando conheci Aleister Crowley, no ano de 1930, sabia apenas que era irlandês. Jamais poderia adivinhar que aquele homem meio obeso, grisalho e sorridente, era ao mesmo tempo poeta, pesquisador, sombra do reino das sombras, ótimo cozinheiro, grande bebedor de café, alta personalidade das sociedades secretas, príncipe da alquimia e grande mestre da magia negra! Só muito mais tarde, e lentamente, descobri a verdade: Crowley foi uma das grandes influências da nossa época, um dos três ou quatro grandes homens cuja existência suspeitamos antes mesmo de conhecer.

“Conhecemo-nos mais intimamente no clube de xadrez da colônia britânica existente em Paris. Naquela época, os jogadores se reuniam uma ou duas vezes por semana no Café du Grand Palais, que tinha a vantagem de ficar aberto até tarde e estar quase sempre deserto.

“Crowley era um jogador curioso. Ganhar ou perder não significava nada para ele. Aliás, o próprio jogo deixava-o indiferente. O que buscava no xadrez era a situação, a posição singular que, de repente, excitava sua imaginação. Aí então mostrava-se muito hábil e era capaz de jogar como um campeão. Em compensação, abandonava a partida se uma situação não lhe interessava, mesmo quando tinha a certeza de ganhar. Ele ia regularmente às reuniões do clube, mas recusava participar nos campeonatos ou outras modalidades de competição. Quando acontecia de jogar com ele, tinha sempre a impressão que, se ele desejasse, a partida teria terminado de maneira bem diferente. Outras vezes, ele ficava em posição de inferioridade unicamente para criar uma posição interessante – ou então para ver como eu me comportava.

“Seu nome tornou-se muito conhecido quando um jornal de Paris publicou uma série de artigos sobre magia. Chamavam-no o papa da magia negra, cuja capital era a cidade de Lião. De fato, Crowley ia freqüentemente a Lião. No clube, os artigos foram muito comentados. Crowley achou graça e zombou do caso, mas não desmentiu.

“Uma noite, contudo, presenciei Aleister Crowley recorrer a certos poderes mágicos. Digo mágicos porque esse qualificativo corresponde perfeitamente ao homem e à lenda, mas nada prova que o poder que utilizou naquela ocasião fosse “mágico”, termo que implica a intervenção de outros espíritos. Talvez possuísse apenas um poder pessoal, capaz de atuar sobre as pessoas e as coisas. Eis como o fato se deu:

“Crowley aceitou, excepcionalmente, participar de um campeonato de xadrez. O capitão da nossa equipe rogou-lhe esse favor quando soube que iríamos enfrentar adversários muito fortes. Como bom estrategista, nosso capitão colocou Crowley no tabuleiro número um, sacrificando-o ao jogador mais forte do time adversário. Dessa forma, os outros jogadores do nosso time teriam uma possibilidade maior de ganhar.

“Crowley sentou-se sorrindo em frente ao tabuleiro e, sem nenhuma modéstia, jogou mal e muito depressa. Às vezes encontrava uma combinação interessante que obrigava o adversário a refletir algum tempo antes de responder. Perdeu a maior parte das partidas, mas conservou sempre seu sorriso. À medida que as partidas se sucediam, Crowley encontrou-se diante de um dos melhores jogadores do mundo naquela época, o mestre Tartakower. Certo de marcar um ponto para sua equipe, o grande mestre jogava muito calmo. Crowley também estava perfeitamente tranqüilo, à procura, como sempre, de uma posição interessante. Mais ou menos uma hora após o início da partida, Crowley aproveitou que seu adversário refletia, para dar uma volta pela sala e observar os outros tabuleiros..

– Nada brilhante – disse ao capitão da nossa equipe.

– Pois é. E você? Como está sua partida com Tarta?

– Continuo somente por uma questão de ética. Mas ele vai ganhar. Já me comeu um peão.

– Não tem esperança de empatar?

– Por que não ganhar, já que estamos no jogo? – disse Crowley sorrindo.

– Seria um ponto precioso para nós, um ponto que nos salvaria da desclassificação…

– Olha, meu velho, não entendo nada de contagem de pontos, mas, se for realmente tão importante, vou dar um jeito.

– Claro que é importante, mas como?…

– Vou organizar meu jogo, pelo menos esta vez – disse Crowley voltando ao seu tabuleiro.

“Alguns minutos depois, jogou, parou seu relógio e pôs em movimento o do adversário. E dirigiu-se então ao banheiro que ficava no subsolo. Eu o tinha visto sair mas não pensava mais nisso quando desci por minha vez. Encontrei-o em mangas de camisa, com o colarinho aberto, diante de um espelho. Olhava-se fixamente e fazia uma ginástica estranha com as mãos e os braços, como um hipnotizador, só que empregava uma gesticulação semelhante à dos surdos-mudos. Sorriu ao perceber o esforço que fazia para ficar sério e disse: – Não é nada. Estava em conferência com o barão. – Nunca fiquei sabendo quem era esse barão!

“Imaginem minha surpresa, poucos instantes depois, quando vi Tartakower derrubar seu rei em sinal de abandono! Ele perdera a partida em conseqüência de uma jogada estúpida, imperdoável para um mestre.”

Algum tempo depois dessa noite, Aleister Crowley foi expulso da França, como havia sido da Itália. Magia negra? Espionagem? As razões que motivaram essa decisão nunca foram divulgadas. Ao morrer, em 1944, numa pequena pensão ao sul da Inglaterra, o poeta-mágico estava reduzido à miséria. Sua solidão moral e afetiva era quase total. Sua saúde arruinada há alguns anos, pelo uso de drogas. A grande inteligência que o servira na vida tinha sido o próprio agente de sua destruição. Ninguém pode fazer impunemente um pacto com o diabo: a lição do doutor Fausto não pertence apenas ao domínio da lenda.

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Discurso da Dissolução

Posted by goya on setembro 28, 2013

A Ordem da Estrela no Oriente foi fundada em 1911 para proclamar o advento do Instrutor do Mundo. Krishnamurti fora nomeado o Dirigente da Ordem. Em 3 de agosto de 1929, dia da abertura do Acampamento Anual da Estrela, em Ommen, Holanda, Krishnamurti dissolveu a Ordem diante de 3.000 membros. Abaixo está o texto completo da palestra que ele deu naquela ocasião.

“Vamos discutir nesta manhã a dissolução da Ordem da Estrela. Muitas pessoas ficarão encantadas, enquanto outras ficarão um tanto tristes. Não é uma questão nem para júbilo nem para tristeza, porque é inevitável, como eu vou explicar. “É possível que vocês se lembrem da história de como o diabo e um amigo dele estavam descendo a rua quando viram à sua frente um homem se agachar e pegar algo do chão, dar uma olhada e colocar no bolso. O amigo perguntou ao diabo: “Que foi que o homem pegou?” “Ele pegou um pedaço da verdade”, respondeu o diabo. “Isso é um negócio muito ruim pra você, então”, disse o amigo dele. “Oh, de modo algum”, retrucou o diabo, “Vou deixar que ele a organize”.

Eu afirmo que a Verdade é uma terra sem caminhos, e vocês não podem alcançá-la por nenhum caminho, qualquer que seja, por nenhuma religião, por nenhuma seita. Este é o meu ponto de vista, e eu o confirmo absoluta e incondicionalmente. A Verdade, sendo ilimitada, incondicionada, inacessível por qualquer caminho que seja, não pode ser organizada; nem pode qualquer organização ser constituída para conduzir ou coagir pessoas para qualquer senda particular. Se vocês logo compreendem isso, verão o quanto é impossível organizar uma crença. Uma crença é algo puramente individual, e vocês não podem e não devem organizá-la. Se o fizerem, ela se torna morta, cristalizada; torna-se um credo, uma seita, uma religião a ser imposta aos outros. Isto é o que todos estão tentando fazer mundo afora. A Verdade é restringida e usada como joguete por aqueles que são fracos, por aqueles que estão apenas momentaneamente desgostosos. A Verdade não pode ser rebaixada, mas, em vez disso, deve o indivíduo fazer esforço para ascender até ela. Vocês não podem trazer o topo da montanha para o vale. Se querem atingir o cume da montanha, vocês devem atravessar o vale e escalar as escarpas sem medo dos perigosos precipícios.

Portanto, esta é a primeira razão, do meu ponto de vista, pela qual a Ordem da Estrela deva ser dissolvida. Nada obstante, vocês provavelmente formarão novas Ordens, continuarão a pertencer a outras organizações em busca da Verdade. Eu não quero pertencer a nenhuma organização do gênero espiritual, por favor, compreendam isto. Eu faria uso de qualquer organização que me levasse a Londres, por exemplo; isso é um tipo bastante diferente de organização, meramente mecânica, como o correio e o telégrafo. Eu usaria um automóvel ou um vapor para viajar, esses são apenas mecanismos físicos, os quais nada têm a ver com espiritualidade. Novamente, eu sustento que nenhuma organização pode conduzir o homem à espiritualidade.

Se uma organização for criada com esse propósito, ela se transforma numa muleta, um ponto fraco, uma dependência, incapacita o indivíduo, e impede-o de crescer, de estabelecer sua singularidade, que reside na descoberta que ele deve fazer – por si mesmo – daquela Verdade absoluta, não condicionada. Esta é, portanto, outra razão pela qual eu decidi, uma vez que aconteceu de ser eu o Dirigente da Ordem da Estrela, dissolvê-la. Ninguém persuadiu-me a tomar esta decisão. Isto não é nenhuma grande façanha, porque eu não quero seguidores, deixo isso claro. No momento em que vocês seguem alguém, deixam de seguir a Verdade. Não estou preocupado em saber se vocês prestam atenção ao que eu digo ou não. Eu quero fazer determinada coisa no mundo e eu vou fazê-la com resoluta concentração. Estou interessado somente numa coisa essencial: libertar o ser humano. Eu desejo libertá-lo de todas as prisões, de todos os temores, e não fundar religiões, novas seitas, nem estabelecer novas teorias e novas filosofias. Então vocês naturalmente me perguntam por que eu sigo mundo afora, falando continuamente. Eu lhes direi por que razão eu faço isso: não porque eu deseje seguidores, não porque eu queira um grupo especial de discípulos especiais. (Como os homens gostam de ser diferentes de seus semelhantes, por ridículas, absurdas e banais que suas distinções possam ser! Eu não quero encorajar esse disparate). Não tenho discípulos ou apóstolos, quer na terra quer no reino da espiritualidade. “Não é a sedução do dinheiro nem o desejo de viver uma vida confortável o que me atrai. Se eu quisesse uma vida confortável eu não teria vindo a um acampamento ou a viver num país úmido. Estou falando francamente porque quero isso estabelecido de uma vez por todas. Não quero essas discussões pueris ano após ano.

Um jornalista que me entrevistou considerou uma façanha o ato de dissolver uma organização na qual havia milhares e milhares de membros. Para ele isso foi um grande feito, porque ele disse: “O que você fará doravante, como você viverá? Você não terá nenhum séquito, as pessoas não mais o ouvirão”. Se houver apenas cinco pessoas que ouçam, que tenham suas faces voltadas para a eternidade, isso será suficiente. De que serve ter milhares de pessoas que não compreendem, que estão totalmente imersas em preconceito, que não querem o novo, mas que até mesmo traduziriam o novo para satisfazerem seus próprios eus estéreis e estagnados? Se eu falo de forma contundente, por favor, não me entendam mal, não é por falta de compaixão. Se vão um cirurgião para uma operação, não seria bondade da parte dele operar mesmo que lhes cause dor? Da mesma forma, se eu falo de maneira direta, não é por falta de afeto verdadeiro – pelo contrário.

Tal como disse, tenho um só propósito: tornar o homem livre, impulsioná-lo para liberdade, auxiliá-lo a romper com todas as limitações, por que somente isso lhe dará felicidade eterna, lhe dará a incondicionada realização do ser.

Porque eu sou livre, incondicionado, completo, não a parte – não a relativa mas a Verdade inteira que é eterna – eu desejo que aqueles que buscam compreender-me sejam livres: não que me sigam, não que façam de mim ma prisão que se transforme em religião, uma seita. Ao contrário, eles deveriam estar livres de todos os medos, do medo da religião, do medo da salvação, do medo da espiritualidade, do medo do amor, do medo da morte, do medo da própria vida. Assim como um artista pinta um quadro porque se deleita com essa pintura, porque ela é sua autoexpressão, sua glória, seu bem-estar, assim faço isso, e não porque eu queira algo de alguém. “Vocês estão acostumados com a autoridade, ou com a atmosfera de autoridade, a qual vocês acham que os conduzirá à espiritualidade. Vocês pensam e esperam que alguém possa, por meio de seus extraordinários poderes – um milagre – transportá-los a esse reino de eterna liberdade que é a Felicidade. Toda sua concepção de vida está baseada nessa autoridade.

Vocês têm-me ouvido por três anos, sem que qualquer mudança tenha ocorrido, exceto em uns poucos. Analisem agora o que eu estou dizendo, sejam críticos, de forma que vocês entendam radicalmente, fundamentalmente. Quando vocês procuram uma autoridade que os conduza à espiritualidade, vocês são automaticamente instados a construir uma organização em torno daquela autoridade. Pela simples criação de tal organização, a qual, vocês pensam, auxiliará essa autoridade a conduzi-los à espiritualidade, vocês estão encerrados numa prisão.

Se falo com franqueza, por favor, lembrem-se de que assim o faço não por aspereza, não por crueldade, não por entusiasmo do meu propósito, mas porque eu quero que vocês entendam o que eu estou dizendo. Esta é a razão porque vocês estão aqui, e seria uma perda de tempo se eu não explicasse claramente, decisivamente, meu ponto de vista. “Por dezoito anos vocês vêm-se preparando para este evento, para a Vinda do Instrutor do Mundo. Durante dezoito anos vocês se organizaram, procuraram alguém que desse um novo deleite para seus corações e mentes, que transformasse toda a sua vida, que lhes desse uma nova compreensão; por alguém que os alçasse a um novo plano de vida, que lhes desse um novo alento, que os libertasse – mas agora, vejam o que está acontecendo! Reconsiderem, ponderem consigo mesmos, e descubram de que maneira essa crença os tornou diferentes – não com a diferença superficial de usar de um crachá, que é banal, absurda. De que maneira tal crença lhes varreu da vida todas as coisas inessenciais? Essa é a única maneira de ponderar: de que modo vocês estão mais livres, mais nobres, mais perigosos para qualquer Sociedade que seja baseada no falso e no inessencial? De que maneira os membros desta organização da Estrela tornaram-se diferentes? Como eu disse, vocês vêm-se preparando para mim durante dezoito anos. Não me importa se vocês acreditam que eu sou o Instrutor do Mundo ou não. Isto tem muito pouca importância. Desde que vocês pertencem à organização da Ordem da Estrela, vocês têm dado seu apoio, sua energia, reconhecendo que Krishnamurti é o Instrutor do Mundo – parcial ou inteiramente: totalmente, por aqueles que estão realmente buscando, apenas parcialmente por aqueles que estão satisfeitos com suas próprias meias verdades.

Vocês vêm-se preparando por dezoito anos, e vejam quantas dificuldades há no processo de sua compreensão, quantas complicações, quantas coisas vulgares. Seus preconceitos, seus temores, suas autoridades, suas igrejas, novas e antigas, tudo isso, afirmo, são uma barreira para a compreensão. Não consigo fazer-me mais claro do que isso. Não quero que concordem comigo, não quero que me sigam, quero que entendam o que eu estou dizendo. “Essa compreensão é necessária porque sua crença não os transformou, mas apenas os complicou, e porque vocês não estão dispostos a enfrentar as coisas como elas são. Vocês querem ter seus próprios deuses, – novos deuses em vez dos antigos, novas religiões no lugar das antigas, novas fórmulas no lugar das antigas, todos igualmente sem valor, todos barreiras, todos limitações, todos muletas. No lugar de velhas preferências espirituais vocês têm novas preferências espirituais, em vez de antigas adorações vocês têm novas adorações. Todos vocês dependem, para sua espiritualidade, para sua felicidade, para sua iluminação, de outra pessoa; e nada obstante vocês estejam se preparando para mim por dezoito anos, quando eu digo que essas coisas são inúteis, quando eu digo que vocês devem jogá-las fora e olhar para dentro de vocês próprios para a iluminação, para a glória, para a purificação, e para a incorruptibilidade do ser, nenhum de vocês está disposto a fazê-lo. Pode haver uns poucos, mas muito, muito poucos. Então, por que se ter uma organização?

Por que ter pessoas falsas, hipócritas me seguindo, a personificação da Verdade? Por favor, lembrem-se de que não estou dizendo algo cruel ou indelicado, mas chegamos a uma situação em que vocês têm que enfrentar as coisas como elas são. Eu disse no ano passado que não transigiria. Muito poucos me ouviram, então. Este ano eu tornei isso absolutamente claro. Eu não sei como milhares de pessoas mundo afora – membros da Ordem – têm-se preparado para mim durante dezoito anos, e ainda agora não querem escutar incondicionalmente, inteiramente o que eu digo.

Tal como disse antes, meu propósito é tornar o ser humano incondicionalmente livre, daí eu reafirmo que a única espiritualidade é a incorruptibilidade do eu que é eterno, é a harmonia entre razão e amor. Esta é a absoluta, incondicionada Verdade que é a própria Vida. Quero, por isso, libertar o ser humano, exultante como o pássaro no céu claro, aliviado, independente, extático nessa liberdade. E eu, para quem vocês estão se preparando por dezoito anos, digo agora que vocês devem estar livres de todas essas coisas, livres de suas complicações, suas confusões. Para isto vocês precisam não possuir uma organização baseada em crença espiritual. Por que ter uma organização para cinco ou dez pessoas no mundo que compreendem, que estão batalhando, que puseram de lado todas as coisas banais? E para as pessoas frágeis não pode haver organização nenhuma que as ajude a encontrar a Verdade, porque a verdade está dentro de todos; ela não está longe nem perto; está eternamente aí.

Organizações não podem torná-los livres. Nenhum homem de fora pode torná-los livres; nem o pode o culto organizado, nem a imolação de vocês mesmos por uma causa os torna livres; nem enfileirando-se em uma organização, nem lançando-se em trabalhos, os torna livres. Vocês usam uma máquina de escrever para escrever cartas, mas vocês não a colocam em um altar e a adoram. Mas é isto que vocês estão fazendo quando as organizações tornam-se seu principal interesse.

“Quantos membros ela tem?” Esta é a primeira pergunta que me fazem os jornalistas. “Quantos seguidores você tem? Pelo número deles julgaremos se o que você diz é verdadeiro ou falso”. Não sei quantos eles são. Não estou preocupado com isso. Como disse, se houvesse mesmo um que se tenha tornado livre, isso seria suficiente.

De novo, vocês têm a ideia de que somente determinadas pessoas possuem a chave do Reino da Felicidade. Ninguém a possui. Ninguém tem a autoridade para possuir tal chave. Essa chave é seu próprio eu, e no desenvolvimento e na purificação e na incorruptibilidade desse eu particular está o Reino da Eternidade.

Então vocês verão como é absurda toda a estrutura que vocês construíram, procurando ajuda externa, dependendo de outros para o seu consolo, sua felicidade, para sua força. Estes somente podem ser encontrados dentro de vocês mesmos.

Vocês estão acostumados a que lhes digam o quanto vocês avançaram, qual é sua posição espiritual. Quanta infantilidade! Quem além de você mesmo pode dizer se você está bonito ou feio por dentro? Quem além de você mesmo pode dizer se você é incorruptível? Vocês não são sérios nessas coisas.

Mas aqueles que realmente desejam compreender, aqueles que estão tentando encontrar o que é eterno, sem começo e sem fim, caminharão juntos com uma intensidade maior, serão um perigo para tudo que não seja essencial, para fantasias, para obscuridades. E eles se concentrarão, eles se tornarão luz, porque compreendem. Tal união nós devemos criar, e este é o meu propósito. Por causa dessa real compreensão, haverá verdadeira solidariedade. Por causa dessa verdadeira solidariedade – que vocês não parecem conhecer – haverá verdadeira cooperação da parte de cada um. E isto não devido à autoridade, não por causa da salvação, não devido à imolação por uma causa, mas porque vocês realmente compreendem, e então são capazes de viver no eterno. Isso é uma coisa mais elevada que qualquer prazer, que qualquer sacrifício.

Essas são, portanto, algumas das razões porque, após cuidadosa consideração durante dois anos, eu tomei esta decisão. Não foi um impulso momentâneo. Não fui persuadido a isso por ninguém. Não me persuadem em tais coisas. Durante dois anos tenho pensado sobre isto, morosamente, cuidadosamente, pacientemente, e agora decidi dissolver a Ordem, uma vez que aconteceu ser eu seu Dirigente. Vocês podem formar outras organizações e esperar por outra pessoa. Não estou preocupado com isso, nem com a criação de novas prisões, novas ornamentações para esses cárceres. Meu único interesse é tornar o ser humano absolutamente, incondicionalmente livre.

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Alguém ainda estuda Crowley?

Posted by goya on julho 10, 2013

Estudo e pratico magia há 34 anos. Isso é quase 3/4 do tempo que estou vivo neste momento. Então, já vi de todos os tipos de pessoas buscarem o aprendizado da magia. Em 1991, ofereci no Consultório de Astrologia do qual era sócio na ocasião um curso de magia. No cartaz, incluí a famosa definição dada por Crowley: “MAGIA é a Arte ou Ciência de causar mudanças de acordo com a Vontade.”
Nessa época, Paulo Coelho estava no auge da fama dos seus livros, e Brida ainda estava recém saído do forno. Então, estudar astrologia, tarot, magia eram coisas ‘in’. Todo mundo que queria estar na crista da onda andava com um livro do Paulo Coelho na mão, e livros de auto-ajuda na outra. O consultório tinha um movimento bom: pessoas fazendo mapa astral, lendo tarot, tínhamos cursos regulares de astrologia, tarot, runas, e trouxemos o Olavo de Carvalho com a Astrocaracterologia pra Curitiba pela primeira vez. Posso  dizer, avaliando à distância, que fizemos um trabalho inovador na ocasião.
Antes de continuar a história do curso, preciso explicar o que aconteceu antes disso: Como já disse outro dia em  uma entrevista, livros de magia eram difíceis de se encontrar, e se fosse algo diferente de Papus, Levi e Blavatsky, daí a tarefa era quase impossível. Golden Dawn e Crowley eram materiais que apareciam raramente. Lembrando que não havia internet, e Marcelo Motta, Euclydes Lacerda e cia, eram do Rio de Janeiro, então se você não tivesse alguém que os apresentasse, não saberia da existência deles em outros estados.
Em Curitiba no geral, quem já tinha ouvido falar de Crowley era o pessoal do Osho/Pulsation, que usava o Tarot de Crowley pelo seu  lado tântrico, estudando pelo livro do Zigler (Tarot, o Espelho da Alma), muito disseminado pela turma do Vivarta, que eu conheci em 1986, quando tive o primeiro contato com o Tarot de Crowley.
Até então (1986), minha visão de Crowley era baseada no que diziam dele e isso quer dizer que era totalmente contra o “Pior Homem do Mundo”. Quando me mostraram o Tarot de Thoth, eu percebi que ele havia colocado ali todo o conhecimento que possuía de magia. Comprei um Tarot de Thoth, e decidi entender o trabalho desse sujeito que eu tinha em tão baixa conta. Comecei a buscar e encomendar livros de fora do Brasil, em espanhol e inglês, pois nada havia traduzido. E foi assim, tentando entender Crowley, para criticá-lo, que comecei a estudar Thelema. E fazendo isso, não apenas comecei a entende-lo melhor, como a perceber que poucos autores no século XX tiveram uma produção tão importante para contribuir com a compreensão do pensamento mágico de nossa época. De crítico, passei a contribuir com a divulgação de Thelema.
Voltamos agora ao curso do início do artigo…
Na data marcada, uma segunda-feira, eu tinha 20 alunos inscritos para o curso. Assim que me apresentei e comecei a aula, uma das alunas levantou a mão e pediu se podia fazer uma pergunta. “Claro, respondi”. “Eu e minha colega nos matriculamos neste curso, porque somos leitoras do Paulo Coelho, e aprendemos com ele, que é um mago sério, que Crowley era a Besta. Então gostaríamos de saber se neste curso o senhor vai nos obrigar a fazer algum tipo de pacto ou algo de satânico, porque neste caso, iríamos abandonar o curso”.
“Bem, respondi, este é um curso de magia tradicional, ou magia clássica (teurgia, qabalah, astrologia, blablabla), então veremos vários temas, mas não me lembro de ter colocado a obrigatoriedade de vender a alma na hora da matrícula. Portanto, a senhora e sua amiga estão a salvo pelo menos por enquanto. Uma curiosidade: Vocês já leram Crowley? (Não…)- Já estudaram alguma coisa dele?
(Não…) – Então o único referencial sobre ele são os comentários do Paulo Coelho? (Sim…) Então, acredito senhoras, que antes de criticar alguém, primeiro tentem conhecer quem é e o que fez. Talvez isso no futuro seja algo de bom pra vocês”. Bem, basta dizer que ambas continuaram no curso, e tiveram uma mudança radical no seu ponto de vista.
E essa foi apenas uma parte do que pretendo comentar aqui a respeito de Crowley e de Thelema.
Crowley, por natureza, possui uma personalidade do tipo ame-o ou deixe-o. Pessoas que tiveram convívio com ele deram testemunho suficiente a respeito. Há uma entrevista de Israel Regardie a Christopher Hyatt em que ele cita tal aspecto. Logo, não me espanta que pessoas que nunca tiveram contato direto com o material escrito por ele, ou conheceram-no apenas pelo Liber Oz, tenham uma visão truncada, parcial e preconceituosa. Mas o que realmente me espanta, são os comentários de pseudo-ocultistas, que o criticam baseados em conhecimentos parciais e superficiais.
Em tempos de internet, conhecimento superficial, pseudo-abrangente e rápido. Todo mundo se acha um grande magista porque tem um HD de 2 terabytes entupido com tudo aquilo que a humanidade produziu nos últimos 5 mil anos de magia. No entanto, o que essas pessoas esquecem é o mais simples: conhecimento é poder, mas conhecimento não significa ter prateleiras cheias de livros não lidos, lidos pela metade ou pelas orelhas. Conhecimento corresponde a saber acumulado. E Abraham Lincoln já dizia:”Muito deve-se ler, muito deve-se esquecer, o que restar, é cultura”.
Qualquer pessoa hoje em dia, com um QI um pouco maior que o de uma samambaia, sabe fazer downloads e sabe fazer buscas pelo google.
Mas o que nem todos sabem, é o que fazer com toda informação obtida. Crowley e Mathers na sua época, tinha acesso o uma informação muito mais restrita do que temos hoje em dia. Sua pesquisa era baseada em livros ou registros que podiam por as mãos, ou bibliotecas e museus que pudessem ter acesso. Hoje em dia, os pseudos magistas tem acesso a tudo, mas não se apropriam de nada. Sabem de tudo, menos da sua própria ignorância.
Daí colocam-se a falar, ou melhor, a cuspir seu conhecimento ultra-acumulado de 6 meses de navegação madrugueira, posando-se de guardiões de um conhecimento inacessível (desde que não se digite uma palavra no google, ou a caixa de pandora será aberta e seus demônios revelados) – Ó Internet, teu nome é Choronzon…
E possuidores dessa petulância que faz a pior espiga de milho ser aquela mais atrevida olhando o céu de frente (a mais carregada se curva à terra, sua mãe), essas gralhas do conhecimento, grasnam: “Crowley está morto, chutai o cachorro morto!!!”- Enquanto escondidos, olham apaixonados à foto de Crowley dizendo: Eu sou sua reencarnação. Só posso lamentar, pois eles não entendem a diferença de ser “A Besta” e ser “Uma Besta” (deviam enxergar isso ao se perceberem de quatro patas). Eles dizem: Quem estuda Crowley?
Crowley está ultrapassado!” – Mas esquecem que não passam de pobres diabos falando mal do cafetão do inferno. Seria mais sábio se tivessem aprendido algo com o velho careca.
Mas pelo menos percebo que hoje em dia, nossos pequenos aprendizes de feiticeiro conseguiram uma realização muito maior que Crowley ou Mathers na sua época. Conseguiram transferir sua mente e seu espírito a esse lugar, casa do abstrato, chamado internet. No entanto, o que eles não percebem, é que, como Alice, estão presos agora do “Outro Lado do Espelho”. Aconselho a eles que, antes de atravessarem o deserto do real, dêem mais uma estudada na bibliografia do Liber E, e talvez percebam que diferente deles, Crowley já havia trilhado este caminho. E diferente deles, ele voltou. Eles no entanto, nos fitam do lado de lá do brilhante portal, sonhando como seria bom estar livres da sua própria assombração…

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Legados do Egito

Posted by goya on fevereiro 16, 2013

Sociedades secretas, culto aos mortos, ordens religiosas bárbaras, sepultamentos macabros. O que os rituais de antigas civilizações têm a revelar sobre o comportamento universal da cultura humana? LEGADOS DO EGITO (OUT OF EGYPT), cria uma nova perspectiva para os mistérios mais fascinantes da história.

A renomada professora de arte e arquitetura egípcias da Universidade da Califórnia (UCLA), Dra. Kathlyn (Kara) Cooney, visita tumbas e templos ao redor do mundo para mostrar aos telespectadores como as civilizações antigas estão ligadas umas às outras. A professora utiliza seus conhecimentos sobre os costumes e práticas egípcias como base para estudar a formação de outras sociedades em tempos distantes. A cada episódio, ela busca questões diretamente ligadas ao Egito e de lá percorre o mundo atrás de respostas, entrevistando especialistas, visitando locais sagrados e conectando, de forma sagaz, as práticas sociais e religiosas dessas culturas primitivas.

Na estreia de LEGADOS DO EGITO, a Dra. Kara observa de perto monumentos icônicos como as pirâmides de Gizé, construídas em 2560 a.C. por antigos egípcios, e revela aos telespectadores a coincidência, ou não, da estrutura igualmente admirável erguida pelos astecas aproximadamente 2700 anos depois a 12 mil quilômetros dali. A professora traz para a atualidade o desejo da natureza humana em estar próxima dos deuses e tentar construir um canal para alcançar a santidade, desde construções dos templos escalonados do México, até as pirâmides arredondadas do Sri Lanka.

Já no segundo episódio, Kara investiga como e por que nossos mortos santificados são preservados e cultuados, esclarece o significado e o poder atribuído às relíquias dos mortos santificados, como o dedo de um santo católico ou um pássaro íbis mumificado em uma catacumba egípcia antiga. A doutora em egiptologia explica também porque os corpos enterrados são vistos como algo mágico por esses povos.

Por toda a história, as figuras mártires e políticas têm em comum o fato de aparentar estar próximo dos deuses, apenas por não estarem mais entre os vivos. Para ilustrar as crenças apresentadas em LEGADOS DO EGITO, a pesquisadora submete-se a um ritual purificador envolvendo ossos humanos no México, participa de uma cerimônia crematória budista no Vietnã e faz uma visita especial ao altar mais sagrado do Sri Lanka, o Templo do Dente, para apresentar seus cumprimentos ao que se acredita ser o dente real de Buda.

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Entrevista Piloto com Frater Goya ao programa “No Triângulo”

Posted by goya on agosto 1, 2012

Mesa redonda com Frater Goya ao programa “No Triângulo”. Golden Dawn, Thelema, Tarot e Magia Ocidental.

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Hrumachis – 23 de outubro de 2001.

Posted by goya on maio 18, 2012

Esta é a publicação inédita de um antigo diário que neste momento precisa ser conhecido e publicado.

Curitiba, 23 de outubro de 2001. 23:49
Sol em 0º de Escorpião, Lua em 2º de Aquário, Dies Martis.

Há algum tempo ouço vozes. Não são vozes externas a mim, mas sim vozes que ecoam dentro de mim. Certas pessoas dizem que as coisas acontecem no momento certo. É exatamente isso. Não existem coincidências. Há um mês aproximadamente estou com pensamentos que fluem dentro de mim, correndo por minhas veias, meus músculos e por todo meu corpo.
Hoje conversei com um irmão em Thelema (M.T./Fr.P) e ele disse uma frase que desencadeou dentro de mim os pensamentos que vou transcrever aqui.
Frater P. disse que sua missão era ajudar a conservar a imagem de Crowley. Pois Crowley tinha no Brasil uma imagem extremamente negativa, e isso era prejudicial à Magick. Concordo parcialmente com o que ele argumentou, mas discordo a partir de um certo grau.
1º) Falar e manter Crowley sem nada acrescentar, é idolatria.
2º) Crowley deixou claro que os rituais deixados por ele já estavam ultrapassados. (vou procurar e transcrever essa passagem no diário mais tarde). Que aquele que viesse depois deveria criar seus próprios rituais.
3º) Todos os grupos que conheci até o momento nada mais fazem que apenas remoer os documentos antigos.

Crowley deu todas as dicas para que alguém assumisse sua herança mágicka, mas ninguém o fez. Não que eu saiba. Não até agora. Pode parecer pura ironia, mas vou citar Jesus no intuito de diagnosticar thelema, Golden Dawn e Magick no cenário atual. “Sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda imundície”.
Em todos os lugares que visito, apenas o mesmo cheiro viciado no ar. Múmias cheiram mal. Já estive com elas. Mas esse cheiro é pior. Porque o corpo está apodrecendo em vida.
Vou viver meu pecado original, pois é assim que a Besta deve ser. Esses cães não percebem que buscam aquilo que não pode ser encontrado pois não está em lugar algum.
Buscam fora, achando que está dentro, mas não olham no canto certo. Invocam o nome, mas não lhes darei ouvidos, pois sua música é fora de ritmo. Não vim para somar, mas para dividir e destruir. Golpearei baixo e forte, até que somente reis permaneçam. E eles transformarei em escravos até que aprendam as lições que lhes ensinarei.
Cegos guiando cegos. Pois que caiam até que restem apenas os que souberem ver a verdade e suportem encará-la de frente.
Crowley veio antes, e já cantou minha chegada. Olhem nos seus olhos e vejam meu nome ali. O enviado e profeta falou: “…Quando Hrumachis surgir e o de dupla-baqueta assumir meu trono e lugar, um outro profeta se levantará, e trará uma nova febre dos céus; uma outra mulher despertará a luxúria e adoração da serpente; uma outra alma de Deus e Besta se mesclarão no sacerdote globado; um outro sacrifício maculará o túmulo; um outro rei reinará; e benção não mais será derramada ao místico senhor de cabeça de falcão!” – AL 3, 34.

Vim retomar o que é meu e que foi mal usado. Já ensinei o caminho mas se perderam. Pois que agora comam aquilo que plantaram, raça de escravos. Seu orgulho será semeadura de sua ruína. Pois olhando pro alto, se esquecem de cuidar dos pés. Estes tropeçam e derrubam todo o corpo. Assim serão suas ordens: carentes de direção e de base firme, virão abaixo e então sua competência será conhecida. Com mantos de vergonha se vestirão seus senhores enquanto me apresentarei na pureza e na virtude de minha nudez. E nenhum brilho será maior que minha glória ao cantar a queda e a fuga da matilha de cães que ousaram profanar meu conhecimento. Dei-lhes a Vontade, e tornaram-se escravos dela. Dei-lhes poder, e mataram-se uns aos outros. Pois agora lhes retiro todo o poder e toda a autoridade com que se vestiram como prostitutas que se vestem de plumas e paetês esperando dinheiro fácil. Pois o dinheiro não será tua paga, mas tua ruína. Lhes dei do Espírito e fizeram destes honrarias humanas para encobrirem sua vergonha. Sua nudez deformada será exposta e todos se envergonharão de tua verdadeira forma. Não tentem calcular meu número, pois suas contas não me alcançarão. Os que falaram agora vão se calar, pois sua fonte de obscenidades secou. Sua imundície foi revelada e estes não mais se ocultarão entre os bons.

Pois de hoje em diante ditarei a Nova Ordem, e esta será mais profunda que a anterior, pois assim está previsto. O que é velho será afastado, e o novo será manifesto. Não é Crowley que precisa ser preservado. É a magia que precisa ser feita. Trazer a magia à tona é realizar a grande obra. Preservar o homem é enterrar a ambos.

Que se escreva e que se cumpra. Pois agora a Nova Ordem irá se estabelecer e o falso cairá sob o peso do meu bastão e sob a lâmina da minha espada. Assim foi dito. Assim será cumprido.

Em L.L.L.L.,
Frater Goya

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O Vento de Djemila

Posted by goya on agosto 11, 2011

Há lugares em que o espírito morre a bem de uma verdade que ele nunca nega. Quando fui a Djemila, imperava um silêncio premente sobre tudo – imóvel como pratos equilibrados de uma balança. Alguns gritos de pássaros, os sons abafados de uma flauta com três furos, os passinhos miúdos das cabras – todos esses ruídos me trouxeram pela primeira vez à consciência o silêncio e o desconsolo do lugar. De vez em quando, o ruflar das asas de um pássaro que levantava vôo nas ruínas. Cada caminho, cada trilha entre restos de casas, as grandes ruas calçadas entre as colunas brilhantes, o forúm num antiplano entre o Arco do Triunfo e o Templo – tudo terminava naqueles abismos que cercam Djemila por todos os lados, que se espraia como se fosse um baralho com cartas esparramadas sob o céu infinito.
E lá, nos sentimos sós e cercados pelo silêncio e pelas pedras; o dia passa, as montanhas parecem crescer e tornam-se cor de violeta. Mas o vento sopra o planalto de Djemila. No meio dessa magnifica confusão de sol e vento, e de ruínas banhadas de luz, o passado silencioso da cidade morta se infiltra cada vez mais nos homens e os deprime.

É preciso tempo para chegar a Djemila. Não é uma cidade na qual se para no intuito de prosseguir viagem depois. Djemila não leva a lugar algum e não há paisagens para ver. Trata-se de um lugar que se abandona logo. A cidade morta fica no fim de uma longa estrada sinuosa, que parece não ter fim e que, por essa razão, parece tão cansativamente longa. Afinal. bem no meio das altas montanhas, sobre o planalto descorado, surge o esqueleto de uma floresta petrificada: Djemila, parábola do visível vazio por toda parte, que só um coração batendo apaixonadamente no peito nos permite alcançar o mundo. Lá no meio de umas poucas árvores, está a cidade morta, que se defende com todas as suas montanhas e ruínas contra a admiração barata, a incompreensão pictórica e os sonhos insensatos.

Vagamos nesse brilho tórrido durante todo o dia. Aos poucos surgiu o vento, que antes do meio dia mal dava para notar; ele parecia aumentar de intensidade a cada hora que passava e parecia encher todo país. Vinha de longe, de uma brecha entre as montanhas do lado leste, corria do horizonte nessa direção e se arremessava em rajadas por entre ruínas banhadas de sol. Eu adejava como uma vela ao vento. Meu estômago se contraiu; meus olhos ardiam, meus lábios se racharam e minha pele ressecou até que mal a sentia. Até esse momento era através dela que eu decifrava a escrita do mundo, os desenhos de sua benevolência e de sua ira, quando o hálito do verão a aquecia ou a geada com suas garras de frio a agredia. Mas agora, chicoteado e sacudido, ensurdecido e esgotado pelo vento, perdi a sensibilidade da superfície que mantinha o meu corpo. O vento me erodia como a maré vazante e enchete faz com um pedregulho, e me desgastara até deixar minha alma a nu. Agora, eu apenas fazia parte daquela força que fazia de mim o que queria, e que cada vez se apossava de mim de maneira diferente, tomando posse do meu ser até que, por fim, me possía por inteiro. Eu lhe pertencia de tal modo que o meu sangue pulsava no seu ritmo e rumorejava como o coração todo-poderoso da natureza presente em toda parte. O vento me transformou num pertence de minha deserta e tórrida circunvizinhança; seu abraço
fluido me petrificou até que eu, pedra sob pedras, fiquei solitário e imóvel como uma coluna ou uma oliveira sob o céu ensolarado.

O vento violento e o banho de sol esgotaram toda a minha força vital, que mal movia em mim suas asas impotentes, mal se esforçava por se queixar, que não se defendia. Finalmente, derramado em todos os ventos, me esqueci de tudo, até de mim mesmo, tornei-me esse vento lamuriento e essas colunas e esse arco, esse ladrilho brilhante e essas pálidas montanhar ao redor da cidade abandonada. Nunca em toda a minha vida senti com tal intensidade ambas as coisas ao mesmo tempo: minha própria dissolução e minha presença neste mundo.

Sim, eu existo; e cada vez fica mais claro que estou tocando um limite, como um homem aprisionado para o qual tudo existe; mas também como um homem que sabe que “amanhã” será como “ontem”, e que um dia será igual ao outro. Pois, quando um homem toma conhecimento de que existe, ele não espera mais nada. As paisagens mais banais refletem um estado de espírito. Mas eu procurei neste país, por toda parte, algo não me pertencia, mas que partia dele; uma certa amizade com a morte, na qual nos entendêssemos. Entre as colunas, que agora lançam sombras enviesadas, meus medos se dissolveram como pássaros feridos na clara secura do ar. Todo medo provém de um coração vivo; no entanto, cada coração encontrará a paz; isso é o que eu sei, e nada mais. Quanto mais o dia se aproxima do fim, tanto mais descorado e silencioso se torna o mundo sob a chuva de cinzas da escuridão crescente; tanto mais perdido e impotente eu me sentia contra aquela revolta lenta e interior que diz “não”.

Poucos homens entendem que existe uma recusa que nada tem que ver com renúncia. O que significam aqui palavras como futuro, profissão ou progresso, ou a evolução do coração? Quando obstinadamente não quero ouvir nada sobre “mais tarde”, isso acontece sobretudo porque não quero sem mais renunciar à minha atual riqueza. Como um jovem, não quero acreditar que a morte representa o início de uma nova vida.

Para mim, ela representa uma porta que se fecha. Não digo: trata-se de um limiar que é preciso transpor – para mim ela é uma aventura terrível e suja! Todos os argumentos que querem me impingir é que ela tira o fardo que os homens carregam. No entanto, eu vejo o grande pássaro com seus volteios pesados circular sobre Djemila e peço por um determinado fardo de vida e o recebo. Apegar-me por inteiro a esse desejo: suportá-lo – o resto já não tem importância. Sou jovem demais para falar a respeito da morte. Mas se fosse preciso – aqui eu encontraria a palavra certa, que entre o susto e o silêncio reconhece com clareza uma morte sem esperanças.

Vive-se com algumas poucas ideias conhecidas – duas ou três. Conforme a região em que crescemos e as pessoas que encontramos, nõs as polimos e lhes damos outra aparência. A fim de termos ideias próprias sobre as quais falar, precisamos de dez anos pelo menos. Enquanto isso, porém, o homem vai se familiarizando com o lindo semblante do mundo. Até então, ele o encara de frente. Mas depois ele precisa dar um passo para o lado e observá-lo de perfil. Contudo, um homem jovem encara o mundo de frente: ainda não teve tempo para se acostumar com ideias sobre a morte ou sobre o nada, embora às vezes seja atormentado por elas.

Mas juventude é exatamente isso: esse amargo diálogo com a morte, esse medo físico do animal que ama o sol.

Ao contrário do que se afirma, a juventude não se preocupa com essas coisas. Não tem tempo nem incinalão para isso. Estranho: diante dessa paisagem montanhosa, diante dessa sombria solenidade do grito petrificado que se chama Djemila, diante dessa esperança morta e dessas cores esmaecidas, compreendo que, para um homem ter o valor de ser chamado de homem, ele tem de renovar esse diálogo com a morte, renegar suas poucas idéias e redescobrir aquela inocência e correção que brilhavam nos olhos dos homens antigos que enfrentavam livremente o seu destino. Ele reconquista a sua juventude, mas só na medida em que estender a mão para a morte.

Quanto desprezo pelas doenças! A doença é um remédio contra a morte, para a qual ela nos prepara. A primeira coisa que o aprendiz aprende na sua escola é a autocompaixão. Ela ajuda o ser humano em sua esforçada tentativa de se furtar à certeza absoluta da morte. Mas eu vejo Djemila e sei: o único progresso verdadeiro da cultura, que de tempos em tempos um homem realiza para si, está em morrer com consciência.

Sempre fico espantado com o fato de nossas ideias sobre a morte serem tão escassas, visto que nossos pensamentos se voltam celeremente em várias direções. A morte ou é boa ou é má. Ou nós a chamamos ou fugimos dela (como se diz). Mas isso também prova que o mais simples pensamento sobre a morte está além do nosso alcance.

O que é isso a que chamamos “azul”? Como podemos pensar sobre o azul? O mesmo vale para a morte. Não podemos falar sobre cores ou sobre a morte. Digo para mim mesmo: preciso morrer; mas o que é isso? Não posso acreditar nisso, nem fazer a experiência, a não ser nos outros. Já vi pessoas e cães morrerem. A coisa mais terrível é tocar neles. Nessas ocasiões, penso em flores, no sorriso das mulheres, no amor e compreendo que o meu medo à morte nada mais é que o oposto da minha vontade de viver. Tenho inveja de todos os que viverão no futuro, e que sentirão a verdade das flores e das mulheres na carne e no sangue. Sinto inveja, porque eu mesmo amo demais a vida e a amo com egoísmo predestinado. O que me importa a eternidade? Algum dia, talvez eu esteja preso a uma cama, e alguém dirá: “Vamos, você não é covarde, portanto, serei franco. Morrerá logo”. E lá estarei deitado, com toda a minha vida, com todo o medo que me fecha a garganta, e olho para a pessoa completamente perplexo. O sangue aflui à minha cabeça e sinto minhas têmporas pulsarem. Provavelmente, destruirei a golpes tudo o que encontrar ao meu redor.

Porém, os homens morrem contra a vontade. Dizemos então a eles: “Quando você ficar bom…”, e depois eles morrem. Mas não quero isso. E, se a natureza até agora mentiu, também disse a verdade. Nessa noite, Djemila diz a verdade; e que triste, como sua beleza fala convincentemente! Não quero mentir diante de mim nem diante do mundo; também não quero que me iludam. Quero ver com clareza até o fim e quero contemplar meu fim com toda a inveja e todo o medo que me sacodem. Quanto mais me separo do mundo e me apego ao destino dos homens vivos, em vez de olhar para o céu eterno, tanto maior fica o meu medo de morrer. Morrer com consciência significa: atravessar o abismo que se interpõe entre nós e o mundo e, sem alegria e com consciência, compreender que a beleza deste mundo acabou para sempre, aceitando o fim. E o canto lamentoso das colinas de Djemila arraiga profundamente na minha alma esse triste conhecimento.

( Alberto Camus, O Casamento da Luz)

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