O Vento de Djemila

Há lugares em que o espírito morre a bem de uma verdade que ele nunca nega. Quando fui a Djemila, imperava um silêncio premente sobre tudo – imóvel como pratos equilibrados de uma balança. Alguns gritos de pássaros, os sons abafados de uma flauta com três furos, os passinhos miúdos das cabras – todos esses ruídos me trouxeram pela primeira vez à consciência o silêncio e o desconsolo do lugar. De vez em quando, o ruflar das asas de um pássaro que levantava vôo nas ruínas. Cada caminho, cada trilha entre restos de casas, as grandes ruas calçadas entre as colunas brilhantes, o forúm num antiplano entre o Arco do Triunfo e o Templo – tudo terminava naqueles abismos que cercam Djemila por todos os lados, que se espraia como se fosse um baralho com cartas esparramadas sob o céu infinito.
E lá, nos sentimos sós e cercados pelo silêncio e pelas pedras; o dia passa, as montanhas parecem crescer e tornam-se cor de violeta. Mas o vento sopra o planalto de Djemila. No meio dessa magnifica confusão de sol e vento, e de ruínas banhadas de luz, o passado silencioso da cidade morta se infiltra cada vez mais nos homens e os deprime.

É preciso tempo para chegar a Djemila. Não é uma cidade na qual se para no intuito de prosseguir viagem depois. Djemila não leva a lugar algum e não há paisagens para ver. Trata-se de um lugar que se abandona logo. A cidade morta fica no fim de uma longa estrada sinuosa, que parece não ter fim e que, por essa razão, parece tão cansativamente longa. Afinal. bem no meio das altas montanhas, sobre o planalto descorado, surge o esqueleto de uma floresta petrificada: Djemila, parábola do visível vazio por toda parte, que só um coração batendo apaixonadamente no peito nos permite alcançar o mundo. Lá no meio de umas poucas árvores, está a cidade morta, que se defende com todas as suas montanhas e ruínas contra a admiração barata, a incompreensão pictórica e os sonhos insensatos.

Vagamos nesse brilho tórrido durante todo o dia. Aos poucos surgiu o vento, que antes do meio dia mal dava para notar; ele parecia aumentar de intensidade a cada hora que passava e parecia encher todo país. Vinha de longe, de uma brecha entre as montanhas do lado leste, corria do horizonte nessa direção e se arremessava em rajadas por entre ruínas banhadas de sol. Eu adejava como uma vela ao vento. Meu estômago se contraiu; meus olhos ardiam, meus lábios se racharam e minha pele ressecou até que mal a sentia. Até esse momento era através dela que eu decifrava a escrita do mundo, os desenhos de sua benevolência e de sua ira, quando o hálito do verão a aquecia ou a geada com suas garras de frio a agredia. Mas agora, chicoteado e sacudido, ensurdecido e esgotado pelo vento, perdi a sensibilidade da superfície que mantinha o meu corpo. O vento me erodia como a maré vazante e enchete faz com um pedregulho, e me desgastara até deixar minha alma a nu. Agora, eu apenas fazia parte daquela força que fazia de mim o que queria, e que cada vez se apossava de mim de maneira diferente, tomando posse do meu ser até que, por fim, me possía por inteiro. Eu lhe pertencia de tal modo que o meu sangue pulsava no seu ritmo e rumorejava como o coração todo-poderoso da natureza presente em toda parte. O vento me transformou num pertence de minha deserta e tórrida circunvizinhança; seu abraço
fluido me petrificou até que eu, pedra sob pedras, fiquei solitário e imóvel como uma coluna ou uma oliveira sob o céu ensolarado.

O vento violento e o banho de sol esgotaram toda a minha força vital, que mal movia em mim suas asas impotentes, mal se esforçava por se queixar, que não se defendia. Finalmente, derramado em todos os ventos, me esqueci de tudo, até de mim mesmo, tornei-me esse vento lamuriento e essas colunas e esse arco, esse ladrilho brilhante e essas pálidas montanhar ao redor da cidade abandonada. Nunca em toda a minha vida senti com tal intensidade ambas as coisas ao mesmo tempo: minha própria dissolução e minha presença neste mundo.

Sim, eu existo; e cada vez fica mais claro que estou tocando um limite, como um homem aprisionado para o qual tudo existe; mas também como um homem que sabe que “amanhã” será como “ontem”, e que um dia será igual ao outro. Pois, quando um homem toma conhecimento de que existe, ele não espera mais nada. As paisagens mais banais refletem um estado de espírito. Mas eu procurei neste país, por toda parte, algo não me pertencia, mas que partia dele; uma certa amizade com a morte, na qual nos entendêssemos. Entre as colunas, que agora lançam sombras enviesadas, meus medos se dissolveram como pássaros feridos na clara secura do ar. Todo medo provém de um coração vivo; no entanto, cada coração encontrará a paz; isso é o que eu sei, e nada mais. Quanto mais o dia se aproxima do fim, tanto mais descorado e silencioso se torna o mundo sob a chuva de cinzas da escuridão crescente; tanto mais perdido e impotente eu me sentia contra aquela revolta lenta e interior que diz “não”.

Poucos homens entendem que existe uma recusa que nada tem que ver com renúncia. O que significam aqui palavras como futuro, profissão ou progresso, ou a evolução do coração? Quando obstinadamente não quero ouvir nada sobre “mais tarde”, isso acontece sobretudo porque não quero sem mais renunciar à minha atual riqueza. Como um jovem, não quero acreditar que a morte representa o início de uma nova vida.

Para mim, ela representa uma porta que se fecha. Não digo: trata-se de um limiar que é preciso transpor – para mim ela é uma aventura terrível e suja! Todos os argumentos que querem me impingir é que ela tira o fardo que os homens carregam. No entanto, eu vejo o grande pássaro com seus volteios pesados circular sobre Djemila e peço por um determinado fardo de vida e o recebo. Apegar-me por inteiro a esse desejo: suportá-lo – o resto já não tem importância. Sou jovem demais para falar a respeito da morte. Mas se fosse preciso – aqui eu encontraria a palavra certa, que entre o susto e o silêncio reconhece com clareza uma morte sem esperanças.

Vive-se com algumas poucas ideias conhecidas – duas ou três. Conforme a região em que crescemos e as pessoas que encontramos, nõs as polimos e lhes damos outra aparência. A fim de termos ideias próprias sobre as quais falar, precisamos de dez anos pelo menos. Enquanto isso, porém, o homem vai se familiarizando com o lindo semblante do mundo. Até então, ele o encara de frente. Mas depois ele precisa dar um passo para o lado e observá-lo de perfil. Contudo, um homem jovem encara o mundo de frente: ainda não teve tempo para se acostumar com ideias sobre a morte ou sobre o nada, embora às vezes seja atormentado por elas.

Mas juventude é exatamente isso: esse amargo diálogo com a morte, esse medo físico do animal que ama o sol.

Ao contrário do que se afirma, a juventude não se preocupa com essas coisas. Não tem tempo nem incinalão para isso. Estranho: diante dessa paisagem montanhosa, diante dessa sombria solenidade do grito petrificado que se chama Djemila, diante dessa esperança morta e dessas cores esmaecidas, compreendo que, para um homem ter o valor de ser chamado de homem, ele tem de renovar esse diálogo com a morte, renegar suas poucas idéias e redescobrir aquela inocência e correção que brilhavam nos olhos dos homens antigos que enfrentavam livremente o seu destino. Ele reconquista a sua juventude, mas só na medida em que estender a mão para a morte.

Quanto desprezo pelas doenças! A doença é um remédio contra a morte, para a qual ela nos prepara. A primeira coisa que o aprendiz aprende na sua escola é a autocompaixão. Ela ajuda o ser humano em sua esforçada tentativa de se furtar à certeza absoluta da morte. Mas eu vejo Djemila e sei: o único progresso verdadeiro da cultura, que de tempos em tempos um homem realiza para si, está em morrer com consciência.

Sempre fico espantado com o fato de nossas ideias sobre a morte serem tão escassas, visto que nossos pensamentos se voltam celeremente em várias direções. A morte ou é boa ou é má. Ou nós a chamamos ou fugimos dela (como se diz). Mas isso também prova que o mais simples pensamento sobre a morte está além do nosso alcance.

O que é isso a que chamamos “azul”? Como podemos pensar sobre o azul? O mesmo vale para a morte. Não podemos falar sobre cores ou sobre a morte. Digo para mim mesmo: preciso morrer; mas o que é isso? Não posso acreditar nisso, nem fazer a experiência, a não ser nos outros. Já vi pessoas e cães morrerem. A coisa mais terrível é tocar neles. Nessas ocasiões, penso em flores, no sorriso das mulheres, no amor e compreendo que o meu medo à morte nada mais é que o oposto da minha vontade de viver. Tenho inveja de todos os que viverão no futuro, e que sentirão a verdade das flores e das mulheres na carne e no sangue. Sinto inveja, porque eu mesmo amo demais a vida e a amo com egoísmo predestinado. O que me importa a eternidade? Algum dia, talvez eu esteja preso a uma cama, e alguém dirá: “Vamos, você não é covarde, portanto, serei franco. Morrerá logo”. E lá estarei deitado, com toda a minha vida, com todo o medo que me fecha a garganta, e olho para a pessoa completamente perplexo. O sangue aflui à minha cabeça e sinto minhas têmporas pulsarem. Provavelmente, destruirei a golpes tudo o que encontrar ao meu redor.

Porém, os homens morrem contra a vontade. Dizemos então a eles: “Quando você ficar bom…”, e depois eles morrem. Mas não quero isso. E, se a natureza até agora mentiu, também disse a verdade. Nessa noite, Djemila diz a verdade; e que triste, como sua beleza fala convincentemente! Não quero mentir diante de mim nem diante do mundo; também não quero que me iludam. Quero ver com clareza até o fim e quero contemplar meu fim com toda a inveja e todo o medo que me sacodem. Quanto mais me separo do mundo e me apego ao destino dos homens vivos, em vez de olhar para o céu eterno, tanto maior fica o meu medo de morrer. Morrer com consciência significa: atravessar o abismo que se interpõe entre nós e o mundo e, sem alegria e com consciência, compreender que a beleza deste mundo acabou para sempre, aceitando o fim. E o canto lamentoso das colinas de Djemila arraiga profundamente na minha alma esse triste conhecimento.

( Alberto Camus, O Casamento da Luz)

O Destino de cada um

Era uma vez, conta a história, um rapaz que vivia em Isfahan como criado de um rico mercador. Uma bela manhã, despreocupado e com a bolsa cheia de moedas retiradas dos cofres do mercador para comprar carne, frutas e vinho, ele cavalgou até o mercado; ali chegando, deparou-se com a Morte, que lhe fez um sinal como que para dizer alguma coisa. Aterrorizado, o rapaz fez o cavalo dar meia-volta e fugiu a galope, pegando a estrada que levava a Samara. Ao anoitecer, sujo e exausto, chegou a uma estalagem dessa cidade e, com o dinheiro do mercador, alugou um quarto. Nele entrando, prostrou-se na cama, entre fatigado e aliviado, pois lhe parecia ter conseguido lograr a Morte.

No meio da noite, porém, ouviu baterem à porta, e no umbral ele viu a Morte parada, de pé, sorrindo amavelmente.

- Por que você está aqui? – perguntou o moço, pálido e trêmulo. – Eu só a vi esta manhã na feira, em Isfahan.

E a Morte respondeu:

- Ora, eu vim buscá-lo, conforme está escrito. Pois quando o encontrei esta manhã na feira, em Isfahan, tentei lhe dizer que nós tínhamos um encontro esta noite em Samara. Mas você não me deixou falar e simplesmente fugiu em disparada.

Liz Greene, Schicksal und Astrologie (Astrologia do Destino)

Pássaros

Nem sempre é tão fácil
quando encontramos a nós mesmos
nos perdemos dos demais.
Quando você se sente pleno em si
é que surgem as palavras mais vazias.

Você poderia correr de encontro ao Sol
Você poderia querer mergulhar no mar
Mas as pessoas dizem que você vai se queimar
Mas as pessoas dizem que você vai se afogar
As pessoas simplesmente não entendem
Que jamais verão o mundo com seus olhos
Que jamais sentirão o mundo com seu coração

Então eles ficam ao seu redor
como pássaros cantando no seu ouvido
distraindo você , esvaziando sua mente, suas crenças
Acreditam que estão certos sobre tudo
Acham que sabem mais que você do que você sobre si mesmo
Querem que você acredite que seus desejos são sujos.

Sua mente é uma bola num jogo de roleta
Você se sente chocado, confuso e insultado
Você mergulha profundamente em si mesmo
Nas regiões mais abissais do ser
onde não existe mais o “ser”…
Ali você fica, ali você apenas “é.”

Preso no calor do esquecimento
Na sombra dos seus medos
No silêncio que há entre as batidas do coração
Sua única saída é sentir
Sua única saída é perceber
Que jamais verão o mundo com seus olhos
Que jamais sentirão o mundo com seu coração…

Anderson Rosa
Curitiba, 06 de julho de 2011, 10h40min.

II Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas

II Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas.
http://simposiohermetismo.com.br/

De 23 a 25 de Junho de 2011

O Hermetismo abrange um conjunto de teorias e práticas conhecidas pela humanidade há milhares de anos. Primam por desvendar o que está além da ciência tradicional, procurando descortinar os segredos do universo e do ser humano. É um assunto que sempre intrigou diversos seres humanos, mas esteve sempre oculta ao debate científico.

O II Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas, que será realizado nos dias 23, 24 e 25 de junho de 2011, tem por objetivo trazer luz a esta discussão. Com apoio da Associação Educacional Sirius-Gaia, o evento tem como tema geral a discussão sobre as práticas ocultistas.

Formato

Para este evento, a comissão organizadora convidou ilustres de
diversas áreas do ocultismo para palestrar sobre temas de interesse geral. Além do ciclo de palestras, o evento contará com workshops paralelos, para pequenas turmas, como forma de complementar os estudos sobre determinado tema.

Local

Nikkey Palace Hotel
Localizado no bairro da Liberdade a menos de 400 metros das estações São Joaquim e Liberdade e à cerca de 10 minutos de carro de importantes vias da cidade (ex. Av. 23 de Maio, Av. Paulista, Rua Vergueiro, Radial Leste, Av. do Estado), o Nikkey Palace hotel possui toda a estrutura necessária para acomodar um evento de importância como o II Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas.
Ao ligar para efetuar reservas, informe-se sobre os preços especiais para os participantes do Simpósio.
Tel.: (11) 3207-8511
Rua Galvão Bueno, 425 – Liberdade


Frater Goya – Anderson Rosa

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A Busca do “Eu”, por Alan Moore

De: Alan Moore
Traduzido por Acid, em 2009.

“Quando cumprimos a vontade de nosso verdadeiro Eu, nós estamos inevitavelmente cumprindo com a vontade do universo. Na magia ambas as coisas são indistinguíveis. Cada alma humana não é, de fato, UMA alma humana: é a alma do universo inteiro. E, enquanto você cumprir a vontade do universo, é impossível fazer qualquer coisa errada.

Muitos dos magos como eu entendem que a tradição mágica ocidental é uma busca do Eu com “E” maiúsculo. Esse conhecimento vem da Grande Obra, do ouro que os alquimistas buscavam, a busca da Vontade, da Alma, a coisa que temos dentro que está por trás do intelecto, do corpo e dos sonhos. Nosso dínamo interior, se preferir assim. Agora, esta é particularmente a coisa mais importante que podemos obter: o conhecimento do verdadeiro Eu.

Assim, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu, mas que também parecem ter a urgência por obliterarem-se a si próprias. Isto é horrível, mas ao menos vocês podem entender o desejo de simplesmente desaparecer, com essa consciência, porque é muita responsabilidade realmente possuir tal coisa como uma alma, algo tão precioso. O que acontece se a quebra? O que acontece se a perde? Não seria melhor anestesiá-la, acalmá-la, destruí-la, para não viver com a dor de lutar por ela e tentar mantê-la pura. Creio que é por isso que as pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão, em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e pode ser vista como uma tentativa deliberada de destruir qualquer conexão entre nós e a responsabilidade de aceitar e possuir um Eu superior, e então ter que mantê-lo.

Tenho estudado a escola da história do pensamento mágico e o ponto em que começou a dar errado. No meu entender, o ponto em que começa a dar errado é com o monoteísmo. Quero dizer, se olhar a história da magia, verá suas origens nas cavernas, verá suas origens no xamanismo, no animismo, na crença de que tudo o que te rodeia, cada árvore, cada rocha, cada animal foi habitado por algum tipo de essência, um tipo de espírito com o qual talvez possamos nos comunicar. E ao centro você tinha um xamã, um visionário, que seria o responsável por canalizar as idéias úteis para a sobrevivência. No momento em que você chega às civilizações clássicas, verá que tudo isto foi formalizado até certo grau. O xamã atuava puramente como um intermediário entre os espíritos e as pessoas. Sua posição na aldeia ou comunidade, imagino, era a de um “encanador espiritual”. Cada pessoa no grupo devia ter seu papel: A melhor pessoa durante uma caçada tornava-se o caçador, a pessoa que era melhor pra falar com os espíritos, talvez porque ele ou ela estivesse um pouco louco, um pouco separado do nosso mundo material normal, eles tornavam-se os xamãs. Eles não seriam mestres de uma arte secreta, mas sim os que simplesmente espalhariam sua informação pela comunidade, porque se acreditava que isto era últil para todo o grupo. Quando vemos o surgimento das culturas clássicas, tudo isso se formalizou para que houvesse panteões de deuses, e cada um destes deuses tinha uma casta de sacerdotes, que até certo ponto atuariam como intermediários, que te instruiriam na adoração a estes deuses. Então, a relação entre os homens e seus deuses, que pode ser vista como a relação entre os humanos e seus “Eus” superiores, não era todavia de um modo direto.

Quando chega o cristianismo, quando chega o monoteísmo, de repente tem uma casta sacerdotal movendo-se entre o adorador e o objeto de adoração. Tem uma casta sacerdotal convertendo-se em uma espécie de gerência intermediária entre a humanidade e a divindade que está se buscando. Já não se tem mais uma relação direta com os deuses. Os sacerdotes não têm necessariamente uma relação com Deus. Eles só têm um livro que fala sobre gente que viveu há muito tempo atrás que teve relação direta com a divindade. E assim está bom: Não é preciso ter visões milagrosas, não é preciso ter deuses falando contigo. Na verdade, se você tem algo disto, provavelmente está louco. No mundo moderno, essas coisas não acontecem; as únicas pessoas as quais se permite falar com os deuses, e de um modo unilateral, são os sacerdotes. E o monoteísmo é, pra mim, uma grande simplificação. Eu quero dizer, a Cabala tem uma grande variedade de deuses, mas acima da escala, da Árvore da Vida, há uma esfera que é o Deus Absoluto, a Mônada. Algo que é indivisível, você sabe. E todos os outros deuses, e, de fato, tudo mais no universo é um tipo de emanação daquele Deus. E isto está bem. Mas, quando você sugere que lá está somente esse único Deus, a uma altura inalcançável acima da humanidade, e que não há nada no meio, você está limitando e simplificando o assunto.

Eu tendo a pensar o paganismo como um tipo de alfabeto, de linguagem. É como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem. Elas expressam nuances, sombras de uma espécie de significado ou certa sutileza de idéias, enquanto o monoteísmo é só uma vogal, onde tudo está reduzido a uma simples nota, que quem a emite nem sequer a entende”.

A Magia não é um caminho fácil

Em se tratando de magia, não existem caminhos fáceis. As bençãos nem sempre são proporcionais às ordálias. Isso ocorre pq o tapa marca mais que o beijo.
Existem aqueles que tentam desmistificar a magia, tratando-a como artigo de beleza, como uma roupa ou maquiagem que torna a realidade algo mais agradável à vista humana do que a aspereza do terreno realmente faz sentir. No entanto, magia não é algo a ser comprado, vestido ou maquiado. Infelizmente, mais do que fazer o caminho menos pedregoso ao caminhante, essas pessoas apenas desviam o estudante daquilo que é sério, daquilo que é vivido e que marca não apenas a carne, mas marca o espírito com cicatrizes espirituais.
Tratamos extensamente desses temas nos CODEX 06 – Como se estuda Magia, e no CODEX 13 – O Mapa da Consciência. Há o caminho da Espada e há o caminho da Serpente. Ao primeiro, completa o segundo. Não como anteposição, mas como aprofundamento e complemento. O primeiro é característico do começo da jornada, onde a curiosidade impulsiona a caminhada. Os passos são vascilantes, mas os passos são largos e descuidados, o que provoca muitas quedas pelo caminho. O segundo, é caracterizado pela disciplina e pela seleção criteriosa daquilo que se estuda e se pratica.
A magia ocidental se caracterizou a partir do início do século XX, pelo magista de gabinete ou de escritório. Leitores de livros de magia que iluminados por fraca luz pavoneiam pelo mundo fazendo caras e bocas, como se fossem grandes magistas, capazes de dobrar a realidade segundo seus interesses, mas não passando de grandes charlatães que nada fazem alem de falar e falar.
Thoth (Djehut) é a versão egípcia que deu origem ao Hermes grego e ao Mercúrio romano. Era sempre acompanhado por um babuíno que era o encarregado de levar seus ensinamentos aos homens. Thoth era um deus psicopompo, ou seja, um condutor de almas. Quando o babuíno transmitia o conhecimento aos homens, sempre invertia ou corrompia as informações para confundir o ser humano na sua jornada com a desculpa de que se o magista fosse merecedor, seria capaz de separar o joio do trigo. Devido a esse aspecto (bem ilustrado no Arcano I – O Mago do Tarot de Thoth ou Tarot de Crowley), entre os gregos Hermes era ao mesmo tempo o mensageiro dos deuses, dos mentirosos e dos ladrões. Por isso em alguns tarots, a carta recebe o nome de “pretididigator” ou “embusteiro/enganador”. E entre os gregos também desaparece a figura do babuíno, deixando a separação entre o condutor de almas e o enganador mais tênue e difícil de compreender.
Eliphas Levi no seu livro “Dogma e Ritual da Alta Magia” (ed. Pensamento, pág.77) nos alerta: “No caminho das altas ciências, não convém empenhar-se temerariamente, mas, uma vez em caminho, é preciso chegar ou perecer. Duvidar é ficar louco, parar é cair; voltar para trás é precipitar-se num abismo”. Portanto, podemos dizer ao leitor dessas linhas, que toda e qualquer pasteurização, cujo sentido é suavizar o caminho do magista iniciante, é um grande engano e só pode conduzir ao erro e ao desespêro, causando sem dúvida danos irreparáveis ao estudante incauto.
A estes, só podemos lamentar, pois o caminho traçado será o da auto-destruição.
Nos sistemas iniciáticos orientais, como a alquimia taoísta, o que separa o iniciante do mestre é apenas o empenho e a perfeição adquiridas pela prática consistente. O termo “Kung Fu” não se refere como muitos pensam a uma arte marcial, mas pode ser traduzido mais acertadamente como “habilidade adquirida pelo trabalho e esforço por um longo tempo”. No caso do Qigong (Qi – energia, Gong – trabalho, portanto, trabalho de energia) ou no Tai Chi Chuan (Arte do Punho Supremo), os movimentos que o iniciante pratica e que o mestre pratica são exatamente os mesmos. Porém, o mestre que pratica por muitos anos a fio, por longos períodos diários, começa a ser ensinado pela própria energia (Qi).
No Ocidente aprendemos desde o final do séc. XIX e o início do séc. XX, a cultivar a mente se sobrepondo às demais habilidades inerentes ao ser humano. Porém, devemos sempre lembrar que somos um ser de múltipla existência: corpo, mente e espírito. Valorizar um desvalorizando o outro, equivale a tentar matar a fome lendo o cardápio do restaurante. A mera compreensão intelectual de determinado conhecimento não traz sabedoria ou controle. Traz apenas entendimento. E entender nem sempre nos habilita a dominar o objeto de estudo. Por exemplo: ler sobre violão não o torna um exímio instrumentista. Para ser um instrumentista é preciso práticar por muito tempo. Ou tratamos todas as partes de forma única, ou atrairemos sobre nós o desequilíbrio das demais partes que constituem nosso ser.
Antes de revelar aquilo que não pode ser revelado sem se tornar leviano, é melhor calar no presente momento, deixando aqui um espaço para o leitor tirar suas próprias conclusões e avaliar que caminho tem trilhado na sua prática.

PS: os citados textos podem ser encontrados em www.cih.org.br

Em L.L.L.L.,
Frater Goya

RITOS CORPORAIS ENTRE OS NACIREMA

Horace Miner
In: A.K. Rooney e P.L. de Vore (orgs)
YOU AND THE OTHERS – Readings in Introductory Anthropology
(Cambridge, Erlich)
1976

O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de comportamento que diferentes povos apresentam em situações semelhantes, que é incapaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais exóticos. De fato, se nem todas as as combinações logicamente possíveis de comportamento foram ainda descobertas, o antropólogo bem pode conjeturar que elas devam existir em alguma tribo ainda não descrita.

Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-los como exemplo dos extremos a que pode chegar o comportamento humano. Foi o Professor Linton, em 1936, o primeiro a chamar a atenção dos antropólogos para os rituais dos Nacirema, mas a cultura desse povo permanece insuficientemente compreendida ainda hoje.

Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e os Tarahumare do México, e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem  à sua nação; ele é, por outro lado, conhecido por duas façanhas de força: ter atirado um colar de conchas, usado pelos Nacirema como dinheiro, através do rio Po- To- Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residiria o Espírito da Verdade.

A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evolui em um rico habitat. Apesar do povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável porção do dia são dispensados  em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde surgem como o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja, por certo, raro, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a eles associadas são singulares.

A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural  é para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas características através do uso das poderosas influências do ritual e do cerimonial. Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas e, de fato, a alusão  à opulência de uma casa, muito freqüentemente, é feita em termos do número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de madeira, toscamente pintadas, mas as câmeras de culto das mais ricas têm paredes de pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas, aplicando placas de cerâmica  às paredes de seu santuário.

Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias familiares, mas sim cerimônias privadas e secretas. Os ritos, normalmente, são discutidos apenas com as crianças e, neste caso, somente durante o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios. Eu pude, contudo, estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e obter descrições dos rituais.

O ponto focal do santuário é uma caixa ou cofre embutido na parede. Neste cofre são guardados os inúmeros encantamentos e poções mágicas sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Tais preparados são conseguidos através de uma serie de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais são os médicos-feiticeiros, cujo auxilio deve ser recompensado com dádivas substanciais. Contudo, os médicos-feiticeiros não fornecem a seus clientes as poções de cura; somente decidem quais devem ser seus ingredientes e então os escrevem em sua linguagem antiga e secreta. Esta escrita é entendida apenas pelos médicos-feiticeiros e pelos ervatários, os quais, em troca de outra dadiva, providenciam o encantamento necessário. Os Nacirema não se desfazem do encantamento após seu uso, mas os colocam na caixa-de-encantamento do santuário doméstico. Como tais substâncias mágicas são especificas para certas doenças e as doenças do povo, reais ou imaginárias, são muitas, a caixa-de-encantamentos está geralmente a ponto de transbordar. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem quais são suas finalidades e temem usá-los de novo. Embora os nativos sejam muito vagos quanto a este aspecto, só podemos concluir que aquilo que os leva a conservar todas as velhas substâncias é a idéia de que sua presença na caixa-de-encantamentos, em frente à qual são efetuados os ritos corporais, irá, de alguma forma, proteger o adorador.

Abaixo da caixa-de-encantamentos existe uma pequena pia batismal. Todos os dias cada membro da família, um após o outro, entra no  santuário, inclina sua fronte ante a caixa-de-encantamentos, mistura diferentes tipos de águas sagradas na pia batismal e procede a um breve rito de ablução. As  águas sagradas vêm do Templo da Água da comunidade, onde os sacerdotes executam elaboradas cerimônias para tornar o líquido ritualmente puro.

Na hierarquia dos mágicos profissionais, logo abaixo dos médicos-feiticeiros no que diz respeito ao prestígio, estão os especialistas cuja designação pode ser traduzida por “sagrados-homens-da-boca”. Os Nacirema têm um horror quase que patológico, e ao mesmo tempo fascinação, pela cavidade bucal, cujo estado acreditam ter uma influência sobre todas as relações sociais. Acreditam que, se  não fosse pelos rituais bucais seus dentes cairiam, seus amigos os abandonariam e seus namorados os rejeitariam. Acreditam também na  existência de uma forte relação entre as características orais e as morais: Existe, por exemplo, uma ablução ritual da boca para  as crianças que se supõe aprimorar sua fibra moral.

O ritual do corpo executado diariamente por cada Nacirema inclui  um rito bucal. Apesar de serem tão escrupulosos no cuidado bucal, este rito envolve uma prática que choca o estrangeiro não iniciado, que só pode considerá-lo revoltante. Foi-me relatado que o ritual consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca juntamente com certos pós mágicos, e em movimentá-lo então numa série de gestos altamente formalizados. Além do ritual bucal privado, as pessoas procuram o mencionado sacerdote-da-boca uma ou duas vezes ao ano. Estes profissionais  têm uma impressionante coleção de instrumentos, consistindo de brocas, furadores, sondas e aguilhões. O uso destes objetos no exorcismo dos demônios bucais envolve, para o cliente, uma tortura ritual quase inacreditável.  O sacerdote-da-boca abre a boca do cliente e, usando os instrumentos acima citados, alarga todas as cavidades que a degeneração possa ter produzido nos dentes. Nestas cavidades são colocadas substâncias mágicas. Caso não existam cavidades naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são extirpadas  para que a substância natural possa ser aplicada. Do ponto de vista do cliente, o propósito destas aplicações é tolher a degeneração e  atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do rito evidencia-se pelo fato de os nativos voltarem ao sacerdote-da-boca ano após ano, não obstante o fato de seus dentes continuarem a degenerar.

Esperemos que quando for realizado um estudo completo dos Nacirema haja um inquérito cuidadoso sobre a estrutura da personalidade destas pessoas, Basta observar o fulgor nos olhos de um sacerdote-da- boca, quando ele enfia um furador num nervo exposto, para se suspeitar que este rito envolve certa dose de sadismo. Se isto puder ser provado, teremos um modelo muito interessante, pois a maioria da população demonstra tendências masoquistas bem definidas.

Foi a estas tendências que o Prof. Linton (1936) se referiu na discussão de uma parte específica dos ritos corporal que é desempenhada apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e lacerar a superfície da face com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos  têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em freqüência é compensado em barbaridade. Como parte desta cerimônia, as mulheres usam colocar suas cabeças em pequenos fornos por cerca de uma hora. O aspecto teoricamente interessante é que um povo que parece ser preponderantemente masoquista tenha desenvolvido especialistas sádicos.

Os médicos-feiticeiros têm um templo imponente, ou latipsoh, em cada comunidade de certo porte. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para tratar de pacientes muito doentes, só podem ser executadas neste templo. Estas cerimônias envolvem não apenas o taumaturgo, mas um grupo permanente de vestais que, com roupas e toucados específicos, movimentam-se serenamente pelas câmaras do templo.

As cerimonias latipsoh são tão cruéis que é de surpreender que uma boa proporção de nativos realmente doentes que entram no templo se recuperem. Sabe-se que as crianças pequenas, cuja doutrinação ainda é incompleta, resistem  às tentativas de levá-las ao templo, porque “é lá que se vai para morrer”. Apesar disto, adultos doentes não apenas querem mas anseiam por sofrer os prolongados rituais de purificação, quando possuem recursos para tanto. Não importa quão doente esteja o suplicante ou quão grave seja a emergência, os guardiões de  muitos templos não admitirão um cliente se ele não puder dar uma  dádiva valiosa para a administração. Mesmo depois de ter-se conseguido a admissão, e sobrevivido às cerimônias, os guardiães não permitirão ao neófito abandonar o local se ele não fizer outra doação.

O suplicante que entra no templo é primeiramente despido de todas as suas roupas. Na vida cotidiana o Nacirema evita a exposição de seu corpo e de suas funções naturais. As atividades excretoras e o banho, enquanto parte dos ritos corporais, são realizados apenas no segredo do santuário doméstico. Da perda súbita do segredo do corpo quando da entrada no latipsoh, podem resultar traumas psicológicos. Um homem, cuja própria esposa nunca o viu em um ato excretor, acha-se subitamente nu e auxiliado por uma vestal, enquanto executa suas funções naturais num recipiente sagrado. Este tipo de tratamento cerimonial é necessário porque os excreta são usados por um adivinho para averiguar o curso e a natureza da enfermidade do cliente. Clientes do sexo feminino, por sua vez, têm seus corpos nus submetidos ao escrutínio, manipulação e aguilhadas dos médicos-feiticeiros.

Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bons para fazer qualquer coisa além de jazer em duros leitos. As cerimônias diárias, como os ritos do sacerdote-da-boca, envolvem desconforto e tortura. Com precisão ritual as vestais despertam seus miseráveis fardos a cada madrugada e os rolam em seus leitos de dor enquanto executam abluções, com os movimentos formais nos quais estas virgens são altamente treinadas. Em outras horas, elas inserem bastões mágicos na boca do suplicante ou o forçam a engolir substâncias que se supõe serem curativas.

De tempos em tempos o médico-feiticeiro vem ver seus clientes e espeta agulhas magicamente tratadas em sua carne. O fato de que estas cerimônias do templo possam não curar, e possam mesmo matar o neófito, não diminui de modo algum a fé das pessoas no médico feiticeiro.

Resta ainda um outro tipo de profissional, conhecido como um “ouvinte”. Este “doutor-bruxo” tem o poder de exorcizar os demônios que se alojam nas cabeças das pessoas enfeitiçadas. Os Nacirema acreditam que os pais enfeitiçam seus próprios filhos; particularmente, teme-se que as mães lancem uma maldição sobre as crianças enquanto lhes ensinam os ritos corporais secretos. A contra-magia do doutor bruxo é inusitada por sua carência de ritual. O paciente simplesmente conta ao “ouvinte” todos os seus problemas e temores, principalmente pelas dificuldades iniciais que consegue rememorar. A memória demonstrada pelos Nacirema  nestas sessões de exorcismo é verdadeiramente notável. Não é incomum  um paciente deplorar a rejeição que sentiu, quando bebê, ao ser desmamado, e uns poucos indivíduos reportam a origem de seus problemas aos feitos traumáticos de seu próprio nascimento.

Como conclusão, deve-se fazer referência a certas práticas que têm suas bases na estética nativa, mas que decorrem da aversão profunda ao corpo natural e suas funções. Existem jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas, e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres que os têm pequenos e torná-los menores quando são grandes. A insatisfação geral com o tamanho do seio é simbolizada no fato de a forma ideal estar virtualmente além da escala de variação humana. Umas poucas mulheres, dotadas de um desenvolvimento hipermamário quase inumano, são tão idolatradas que podem levar uma boa vida simplesmente indo de cidade em cidade e permitindo aos embasbacados nativos, em troca de uma taxa, contemplarem-nos.

Já fizemos referência ao fato de que as funções excretoras são ritualizadas, rotinizadas e relegadas ao segredo. As funções naturais de reprodução são, da mesma forma, distorcidas. O intercurso sexual é tabu enquanto assunto, e  é programado enquanto ato. São feitos esforços para evitar a gravidez, pelo uso de substâncias mágicas ou pela limitação do intercurso sexual a certas fases da lua. A concepção é na realidade, pouco freqüente. Quando grávidas as mulheres vestem-se de modo a esconder o estado. O parto tem lugar em segredo, sem amigos ou parentes para ajudar, e a maioria das mulheres não amamenta seus rebentos.

Nossa análise da vida ritual dos Nacirema certamente demonstrou ser este povo dominado pela crença na magia. É difícil compreender como tal povo conseguiu sobreviver por tão longo tempo sob a carga que impôs sobre si mesmo. Mas até costumes tão exóticos quanto estes aqui descritos ganham seu real significado quando são encarados sob o ângulo relevado por Malinowski, quando escreveu:

“Olhando de longe e de cima de nossos altos postos de segurança na civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas sem seu poder de orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como o fêz, suas dificuldades práticas, nem poderia ter avançado aos estágios mais altos da civilização”

(nota: para quem não percebeu, Nacirema é American, de trás para a frente – R.A.)

O Vazio

Por Anderson Rosa

Chega uma hora que a vida passa.
Você vem, olha pra um lado,
Olha pro outro, e então atravessa.

E é nesse exato momento
que numa curva qualquer
você cai fora de si mesmo -
E sem perceber, você se perde.

Tenho saudade desse meu eu,
Que ficou ali caído, amontoado
Mas não sei que tipo de saudade sinto,
Porque é daquelas coisas
Que ficaram perdidas no tempo
e que um belo dia você lembra,
Não tem certeza do momento exato
Em que aquilo ficou para trás
Não se lembra mais como era
Mas ainda assim, aquilo parecia ser bom.

Daí você faz uma volta
E refaz todo o caminho
Na esperança de se ver, de se encontrar
Pedindo carona para si mesmo – e quando acha
Você se lembra de todos os conselhos -
E passa direto, porque não fala com estranhos.

E é assim, que quanto mais você anda,
Mais coisas caem, mais coisas ficam para trás.
E quando você finalmente pára,
O único sentimento que tem é -

O Vazio…

Palanque no Banhado

Por algum tempo vivi em paz. Mas sempre alguma coisa abala o sentimento extático que a paz é capaz de trazer ao espí­rito humano. No tarot, a carta denominada “Paz”, é representada por duas espadas cruzadas presas pelo centro por uma rosa. O que isso quer dizer? Que na verdade a paz é um estado impermanente, cujo menor movimento, mesmo o melhor intencionado pode romper e trazer novamente a guerra.

Recentemente, coloquei uma frase no meu programa de mensagens instantâneas na internet (uso mais de um, por isso não dou o nome de nenhum) que dizia: “Tem gente q disse ter visto o SAG, mas a meu ver, só achou um amiguinho invisí­vel. E isso só é bom até 6 anos!”. – A mensagem tinha como objetivo especí­fico incomodar algumas pessoas. Por que eu desejaria incomodar alguém? Justamente porque no meio mágico/esotérico/ocultista, todo mundo vê tudo, sente tudo, prevê tudo. Menos a sua própria queda, menos a sua própria vergonha. E curiosamente, para meu espanto, as pessoas que se sentiram mais incomodadas, não eram aquelas a quem eu havia direcionado a frase originalmente. Mas além disso, o que mais me espantou, é que muitas pessoas tem na cabeça uma confusão enorme de influências mí­stico/mágicas e isso nos alerta que o caminho esotérico ocidental não mais existe. Isso já foi alertado por vários autores, valendo a citação de René Guénon, que justamente abismado pela falta de tradição nos movimentos esotéricos da sua época, começa a escrever sobre a natureza do que seria a Tradição Ocidental. É claro que esse é apenas um aspecto da obra guenoniana, mas sem sombra de dúvida, a força motivadora, foi a ignorância alheia.

Gostaria de emprestar da maçonaria um conceito muito importante em termos de tradição que é o Landmark. O que é um Landmark? Empresto algumas definições da Wikipédia. No verbete podemos encontrar:

“Os landmarks da Maçonaria são um conjunto de princípios que não podem ser alterados para que se mantenha a unidade maçônica mundial e prevêem a obrigatoriedade dos maçons serem filados à lojas, da crença em um ser superior (O Grande Arquiteto do Universo), da obrigatoriedade de trabalhar-se em 3 graus simbólicos, entre outros.

O último landmark sempre prega que nada poderá ser mudado, de todos os landmarks. NOLUMUS LEGES MUTARI

Há inúmeras discussões de que os landmarks devem evoluir, mas são cláusulas pétreas, são os limites da maçonaria e portanto não são passí­veis de discussão.

Alterá-los significaria romper a sintonia maçônica mundial.

Origens

Segundo Percy Jantz, o termo maçônico Landmark tem origem bí­blica. O termo pode ser encontrado no livro dos Provérbios 22:28: “Remove not the ancient landmark which thy fathers have set.” para destacar como os limites da terra foram marcados por meio das colunas de pedra. Cita mais uma lei Judaica: “Não remova os marcos (landmarks) vizinhos, eles tem sido usado desde os tempos antigos para definir as heranças.” para destacar como os marcos designam os limites da herança. [1] Mark Tabbert acredita que as regras e regulamentações atuais regidas pelos landmarks são derivadas das regras medievais dos stonemasons.[2]“

- Fonte: Wikipédia, a Enciclopédia Livre. Artigo: Landmarks

Essa citação nos leva novamente à motivação desse texto. O que Landmarks, Sagrado Anjo Guardião e Tradição têm em comum?

Para responder isso, é preciso compreender que em magia, ou melhor, na prática mágica, não existem atalhos, não existem achômetros (acho que, talvez, pode ser…), não existe permissividade (Sim/Não, Certo/Errado, Funciona/Não Funciona, e assim por diante.). Ou seja: a magia é binária ou ainda, maniqueí­sta. Mas longe de ser purista, radical, ou qualquer outra denominação que possamos dar, e rotular, essa chamada limitação, tem uma função muito importante que é a de manter, conservar e transmitir o que chamamos de Tradição. Entendendo-se a noção de tradição, como aquilo que é transmitido, aquilo que é herdado, tal qual a palavra qblh no hebraico, que quer dizer: aquilo que foi recebido.

É claro que podemos expandir o conceito de tradição em muitas direções, mas no caso, a definição dada será suficiente.

Quando falamos em evolução espiritual, treinamento espiritual, ou seja o nome que for dado a esse desenvolvimento, estamos falando diretamente da Tradição, e Tradição significa entre outras coisas, postulado, regras, bases imóveis por milênios.

Diversas vezes fui abordado em listas, chats, comunidades, programas de mensagens instantâneas, pessoalmente e por telefone sobre o que vinha a ser alcançar o conhecimento e a conversação com o Sagrado Anjo Guardião. Nessas ocasiões, me chamou a atenção justamente o desconhecimento do que seria a natureza do mesmo. E justamente pela pluralidade dessas tentativas de enquadrar o Anjo Guardião numa classe de seres, pude também perceber o despreparo dos chamados Tutores, Mestres e Professores de ocultismo, o que revela que na verdade, essas pessoas desconhecem totalmente o significado da operação de Abramelin e de suas regras fixas. Não pretendo me alongar sobre isso, uma vez que o assunto já foi extensamente tratado noutras ocasiões.

Para quem perdeu, seguem os links abaixo de cada matéria em que trabalhei o assunto, seja por textos meus, seja por traduções de trabalho de outros.

Codex 01 O CIH não é uma Religião – sobre Tradição e suas implicações. Para Download.
Em Busca do Sagrado Anjo Guardião – SAG – Texto de Frater Goya sobre a experiência do SAG
Explorando a Magia Sagrada de Abramelin, o Mago – Texto de Aaron Leitch traduzido sobre o Ritual de Abramelin
O Sagrado Anjo Guardião não é o “Eu Superior” – Texto de Aleister Crowley, traduzido sobre o significado do SAG
A Lí­ngua dos Anjos – Transcrição de um diário da época da realização da Operação do Ritual de Abramelin

Ao se tratar o assunto com leviandade e permissividade, o que é feito na realidade, é desviar do reto caminhar, é colocar no mesmo patamar o sábio e o néscio, o mago e o mágico, o iluminado e o charlatão.
Não se trata aqui de desvalorizar as experiências de um jardineiro que com sua arte obteve a iluminação, ou do monge que com suas práticas também chegou lá. Mas sim de combater a contra-iniciação, com a iniciação de fato ou verdadeira.

Quando alguém seja por eleição, ou auto-imposição assume o lugar de mestre, torna-se necessário uma profunda mudança no seu ser. Pois um cego não pode guiar outro, e como dizem os alquimistas, é preciso ter ouro para produzir ouro. Ser um mestre, é ser alguém que deveria levar seus tutoriados à iluminação, e não às trevas. Tratei desse item extensamente numa das partes do codex 06 – Como se Estuda Magia (clique para fazer o download). Um mestre de verdade preocupa-se com seu discipulado e principalmente, evitará ao extremo conduzí­-los por caminhos de ignorância onde ele mesmo desconhece o final.

Não se pode conduzir uma pessoa em direção à Verdade, dizendo-lhe uma mentira. Portanto é mister que a pessoa pare antes de mais nada de mentir a si mesma. Essa foi a primeira constatação que tive ao realizar o Ritual da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago. Logo no primeiro dia, ao ficar na varanda cuidadosamente preparada para a operação, me deparei com uma série de questões que quase me levaram a cancelar tudo.
Ou melhor, tive de respondê-las satisfatoriamente a mim mesmo, antes de optar por continuar o ritual de 6 meses (na verdade, 6 luas).

- O que eu esperava encontrar?
- Era para minha glória ou para a Glória D´Aquele a quem nada, a não ser o silêncio pode expressar?
- Fazia isso para dizer aos outros que fiz, ou era livre da ânsia de resultados e portanto parte da minha Verdadeira Vontade?
Só poderia seguir adiante se antes de mais nada, parasse de mentir a mim mesmo, e depois de mentir aos outros.

Talvez alguns achem isso óbvio demais, ou simples demais. Porém, quando chegamos à certas encruzilhadas na vida, ou somos capazes de subjugar essas questões sinceramente, ou somos devorados por elas, tal como um Édipo falido diante da enigmática Esfinge. As questões podem variar (as minhas eram diferente do enigma de Édipo ou da pergunta que Parsifal deveria fazer ao Rei Pescador), mas as respostas tem em si a mesma natureza. A retidão do caminhar pelo caminho da Tradição. E só podemos nos sentar no Lugar Sagrado, se os passos que nos conduziram até ali foram firmes e não vascilantes.

Vivemos num mundo do descartável, do passageiro, da permissividade, da superficialidade que se antepõe à dedicação, à Eternidade, e principalmente, à Verdade. Não quero que fique aqui uma imagem de pseudo santidade, mas sim uma imagem de dedicação. Um magista jamais dobra os joelhos diante de nada, a não ser que encontre alguém ou alguma coisa que seja maior que ele. E essa coisa pode ser definida pela expressão “Aquele a quem nada, a não ser o silêncio pode expressar”, de quem o SAG nada mais é do que a Manifestação e a Voz Verdadeira. Se no momento crucial do encontro do Magista com o SAG, houver o menor resquí­cio de Trevas (representadas pela mentira, dissimulação, preguiça, procrastinação, e uma infindável lista de demônios interiores), o contato é rompido uma única e derradeira vez. Não deve-se pensar no entanto, que o sucesso desta operação é vetado às pessoas de ní­vel mediano, ou mesmo aos simples de coração. De fato, somente esses é que serão capazes de alcançá-la.

Pois quanto mais nos dedicamos a ser aquilo que não somos verdadeiramente, mais longínquo e remoto se torna o contato. Aos jogadores, sou obrigado a revelar que Aquele, a quem nada a não ser o silêncio pode expressar, não joga com a vida. Ou é, ou não é. Diante dele não podemos viver a fantasia que erguemos para que o mundo nos conheça.

Diante D´Ele estamos nus e somente assim nos apresentamos. Somente pela retidão alcançaremos o final da Escada de Jacó. Pela dedicação jantaremos na mesa do Rei Pescador. Pela pureza estaremos limpos o suficiente para nos aprensentarmos nús e sem vergonha da Sagrada Presença.

Qualquer desvio das regras estabelecidas pela Tradição Primária, só nos levará ao Abismo do Desespero, à dissolução da Alma no Duat, com uma bússola que norteia em direção que ao invés de nos aproximar orientando, nos afasta da Cidade das Pirâmides.

O que havia para ser dito, foi declarado. Quem tiver olhos de ver, e ouvidos de ouvir, que veja e que ouça.

Em L.L.L.L.,
Fr. Goya – Anderson Rosa
Ank – Usa – Semb
http://www.cih.org.br
http://oraculo.cih.org.br
http://www.cih.org.br/grimorio

A Verdade

A Verdade

“As
pessoas tentarão compreender-se e me enquadrar em suas palavras.
Elas buscarão a verdade. Mas a verdade sempre carrega consigo a ambigüidade das palavras usadas para expressá-la. (…) Cuidado
com a verdade, gentil Irmã. Embora muito procurada, a verdade pode
ser perigosa para quem a busca. Os mitos e as mentiras tranquilizadoras
são muito mais fáceis de se encontrar e de se crer.
Se você encontra uma verdade, ainda que seja uma verdade temporária,
ela pode exigir-lhe ajustamentos, mudanças dolorosas. Oculte as
suas verdades dentro das palavras.
A ambigüidade natural irá protegê-la, então. As palavras são muito
mais fáceis de se absorver do que as agudas punhaladas délficas
de mudos portentos. Com palavras você pode sempre gritar em coro:
‘Por que não me avisaram?’ “Mas eu os aviso. Eu a avisei, não com palavras, mas com um exemplo.”

- Leto Atreides, O Imperador Deus de Duna, de Frank Herbert.

por: Frater Goya (Anderson Rosa)

An iv15 Sol 7° Leo, Luna 18° Aquarius Dies Lunae
Curitiba, segunda-feira, 30 de julho de 2007 e.v. 16:28

Há algum tempo escrevi sobre uma revelação que tive num contato com anjos enochianos. A natureza dessa revelação, era como na citação acima, ‘dolorosa’. É muito complicado buscar uma verdade, pois na maioria das vezes não queremos ‘A’ verdade, mas apenas uma verdade confortável, que nos permita ficar no mesmo lugar de sempre, acreditando que sempre estivemos certos, enquanto o resto do mundo caminhava na direção errada.

Muitas pessoas vem a mim esperando uma salvação, um porto seguro, uma mão que afaga. Mas no entanto, o que alguns encontram é a perdição, a incerteza do mar em fúria, uma mão que castiga. Em algum lugar no meio do caminho, e não no caminho do meio é que vive a verdade. Poucos a encontram não por ser difí­cil, mas por não saberem o que procuram na verdade, além de si mesmos.

Devo dar a quem nem mesmo conheço um caminho, uma luz? Por que não devo dar-lhes a encruzilhada, a escuridão? Aqueles que acham que toda luz é benéfica, só posso dizer que o branco pode ser tingido. A pureza maculada, e ainda assim, a verdade mantida.

Mas que verdade é essa afinal? Que atinge, fere, tonteia?

É o cântico dos cânticos. É o suave repousar nas emanações d’Aquele a quem nada, a não ser o silêncio, pode expressar. A única bússola que pode orientar na direção correta dessa verdade, é o coração. Mas não qualquer coração!!! Apenas o coração do justo e do perfeito é que encontrará ali o mapa verdadeiro, em que o sinal marca o lugar. Aquele que se sentar no lugar perigoso sem estar devidamente preparado, só encontrará ali desespêro e loucura.

Há vezes em que estar cego é muito mais confortável do que ver.

Na busca pela verdade, é preciso estar disposto a pagar o preço. Ah, você está disposto? Com que facilidade você se compromete pensando isso… Será que a busca deveria ser tratada com tanta leviandade? Deveria ser dada a tal criatura que se move por mero impulso do momento um segredo tão grande que poderia rasgar a sua alma?

Creio que não.

Talvez seja interessante comentar que na ocasião em que homens e mulheres eram unidos num só corpo, o simples ouvir de raspão essa verdade, fez com que esse corpo se dividisse e o ser humano dali para frente sofresse o tempo todo pelo anseio da unidade perdida. Se a humanidade ainda hoje paga tal displicência, quem você acha que é para sequer imaginar poder pagar o preço d´A Verdade? Você que só mente para si mesmo, acha que poderia merecê-la?

Antes de buscar ‘A’ Verdade, descubra aquilo que é verdadeiro para si mesmo. Talvez se surpreenda que a maior parte daquilo que acredita ser verdadeiro, de fato seja apenas herança ou um ‘alguém me disse uma vez’… Olhe para si mesmo e verá que é muito mais outros, do que você mesmo. Limpe toda a imundí­cie que lhe fizeram acreditar o tempo todo como verdade absoluta, e verá que muito pouco restará.

Pense sobre isso. Medite.

Quem sabe o que restar, por mí­nimo que seja, seja um vislumbre d´A Verdade…

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Vozes e Profecias
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